sábado, 19 de outubro de 2019

VAR: A fraude dos "impedimentos milimétricos"


A grande novidade do futebol mundial nos últimos anos é o árbitro de vídeo - ou VAR, como é conhecido globalmente, sigla de Video Assistant Referee. A ideia de utilizar a tecnologia para resolver dúvidas de arbitragem é antiga, e a FIFA apresentava enorme resistência. No entanto, enfim cedeu e desde 2018 a ferramenta tem sido utilizada nos mais diversos torneios, em todos os continentes.

Porém, se engana quem pensa que as polêmicas diminuíram com o VAR - pelo contrário, o número de controvérsias e reclamações, curiosamente, aumentou. No Brasil, a ferramenta já ocasionou até alguns pedidos de anulação de partidas, por parte de clubes que alegam que a ferramenta está sendo utilizada de maneira equivocada.

O chefe da comissão de arbitragem da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Leonardo Gaciba, chegou a declarar que "a tecnologia do VAR é 100% precisa". Neste post, demonstraremos matematicamente que ele está errado: em pelo menos um tipo de lance, o VAR não é preciso o suficiente e está sendo mal utilizado.

Estamos falando dos impedimentos. Naturalmente, como eles são as jogadas de mais difícil marcação no futebol, as equipes de arbitragem têm usado e abusado do VAR para obter um diagnóstico em tese preciso. Os especialistas até já criaram um termo para designar os impedimentos mais difíceis: seriam lances "ajustados".

Nesta quinta-feira 17, na partida entre Fluminense e Athletico Paranaense, no Maracanã, dois gols, um de cada time, foram anulados pelo VAR, que enxergou impedimentos "ajustados" nas duas jogadas. A ferramenta não fornece a distância que decreta ou não o impedimento: apenas desenha duas linhas na imagem e dá o diagnóstico. Em ambos os casos, o VAR considerou que o atacante estava "um pouco" à frente do penúltimo defensor e decretou o impedimento.

Jogada "ajustada": o VAR enxergou impedimento. É possível?

A imagem oficial do VAR, que decretou o impedimento no gol do Fluminense.

Como qualquer sistema de engenharia, a tecnologia do VAR tem um limite. Qual seria a precisão dessa análise de impedimento? Qual seria a margem de erro? A ferramenta enxerga impedimentos de dez centímetros? Impedimentos de um centímetro? Impedimentos de um milímetro? Impedimentos de um nanômetro? Esta informação nunca foi divulgada e não está disponível no documento oficial da CBF sobre o assunto. Saberemos abaixo por quê.

A primeira limitação do VAR está no processo de captação das imagens. Embora nossos olhos percebam o vídeo como uma sequência contínua, ele na verdade é composto por um número finito de frames. O número exato de frames captados pelas câmeras é outro dado não divulgado. Para nossas contas, consideraremos, de maneira exagerada, 60 frames por segundo (para efeito de comparação, a maioria das obras cinematográficas atuais utiliza menos da metade disso, 24 frames por segundo).

Num lance de impedimento, o operador do VAR precisa separar dois frames consecutivos, um antes do passe, outro depois do passe. A 60 frames por segundo, a distância temporal entre dois frames consecutivos é de 16,7 milissegundos. Isto significa que a imagem só é captada a cada 16,7 milissegundos, e o que acontece nesse intervalo simplesmente não é captado pelo VAR (lembrando que o intervalo provavelmente é ainda maior, devido à taxa de frames utilizada).

Quando a taxa de frames por segundo é igual à frequência da rotação da hélice de um helicóptero, 
o vídeo não capta o que acontece entre um frame e outro e as pás da hélice parecem imóveis.

Mas o que acontece durante 16,7 milissegundos? É pouco tempo, mas o futebol é um jogo dinâmico. Um futebolista considerado rápido consegue alcançar a velocidade de 32 quilômetros por hora (alguns são mais rápidos). Se o atacante estiver indo no sentido do gol e o defensor no sentido oposto, ambos a 25 quilômetros por hora, a velocidade com a qual os atletas se distanciam é de 50 quilômetros por hora. Isto significa que, em 16,7 milissegundos, os atletas se distanciaram 23,2 centímetros.

A conclusão? Ainda que o VAR esteja captando as imagens do jogo a 60 frames por segundo, é fisicamente impossível detectar impedimentos menores que 23,2 centímetros. E isto numa estimativa bastante conservadora! Muito provavelmente, a taxa de frames é menor. Além disso, os atletas podem se distanciar a uma velocidade ainda superior aos 50 quilômetros por hora que utilizei como exemplo. Se a captação for de 24 frames por segundo e os atletas se distanciarem a 60 quilômetros por hora, o limite subirá para 69,4 centímetros (mais de meio metro!).

E tem mais: a taxa de frames por segundo não é a única limitação do sistema! A resolução da imagem, por exemplo, também afeta a precisão do cálculo. A interferência humana no processo, para determinar o instante exato do passe e as posições dos quatro atletas envolvidos, é outra fonte potencial de erro.

Portanto, especialistas: joguem o neologismo dos lances "ajustados" no lixo. Os "impedimentos milimétricos", por definição, não podem ser captados pela tecnologia do VAR, ainda que ela melhore por duas ordens de grandeza.

A conclusão é que o protocolo de uso do VAR nos impedimentos precisa mudar. Primeiro, as entidades que comandam o futebol deveriam mostrar, de forma clara e inequívoca, qual é a precisão do sistema. Segundo, o VAR precisa explicitar, em cada lance, qual é a distância que determinou ou não o impedimento, com a devida margem de erro. Distâncias menores que a precisão do sistema simplesmente não podem determinar uma decisão da arbitragem.

Ao analisar o vídeo do helicóptero acima, o VAR chegaria à brilhante conclusão de que as pás da hélice estão imóveis em pleno voo. Vamos mesmo continuar definindo jogos e campeonatos com um sistema cego assim?

PCFilho

17 comentários:

  1. Futebol tem regras ridículas e o IMPEDIMENTO é a maior delas. Bastaria uma mudança simples e nunca mais haveria discussão a respeito: O IMPEDIMENTO só seria consumado se o atleta que faz o Gol ou o que está atacando, estivesse 100% a frente do defensor, havendo uma pequena intercessão entre os jogadores, não haveria o Off Side, mais simples impossível.

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    1. Bom, na verdade a regra JÁ É assim. Quando há interseção entre os atletas, chamamos de "mesma linha". As interpretações é que estão pra lá de equivocadas.

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    2. PC, está equivocado, a regra atual não é como Caíque sugere. O que ele disse é: se um atacante está com, por ex, o tronco a frente do penúltimo defensor porém com o pé "na mesma linha" deste mesmo defensor, hoje é considerado impedimento. A sugestão do Caíque mudaria isso e eu tb acho que seria uma mudança interessante.

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    3. Apesar de não ter visto nenhuma estatística a respeito, creio que o número de erros diminuiu. O que acontece é que antigamente reclamávamos dos erros absurdos e agora reclamamos dos milimétricos.

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  2. Excelente! Muito bem redigida e fundamentada. Entretanto, mais uma avacalhada nas coisas, estarrecedor como criamos as distorções para benefício de alguns... Em tudo.

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    1. Esse é um ponto importante. Os impedimentos "milimétricos" têm sido utilizados para escolher vencedores de jogos...

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  3. Interessante o seu ponto de vista, mas por que você não citou o impedimento do Athletico Paranaense neste mesmo jogo que também era milimétrico???? O vencedor seria o mesmo sendo por 3 a 2 ou 2 a 1. Aguardo esclarecimentos, até mais.

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    1. Mas eu citei o impedimento do Athletico!!! 🤷‍♂️

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    2. É cada maluco que me aparece. 😂

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    3. O cara é torcedor do framengo ele não leu que vc mencionou os dois lance. Kkkkkk

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  4. Há que se mudar também os protocolos da FIFA. Juízes em campo não podem ser reféns do VAR.O jogo não pode perder a dinâmica: o que é marcado em campo têm que valer. Que se dê, por ex, ao técnico ou ao capitão do time, questionar 4 a 6 lances por jogo, desafio similar ao que já existe no vôlei. Lances objetivos como bola fora, bola passando a linha do gol, máximo de 6" pro goleiro repor a bola...isso deveria ser definido pelo VAR sem discussão. Abs

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  5. ...E sobre a lei do impedimento, seu post é muito bom mesmo, "matador". Ainda sobre a FIFA, os critérios de mão na bola (de atacantes e defensores) desconsidera a anatomia humana (é como se os atletas não pudessem mais ter mãos) - mas isto é outro assunto. Abs

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  6. SOB A ATUAÇÃO DOLOSA DESSE ÁRBITRO RONCO, INDESEJÁVEL, AO PABLO ZAGUEIRO TER POUPADO EXPULSÃO NA FALTA FRONTAL E NOVA CHANCE, QUEM SABE, ALI E DESDE OUTROS PRÉLIOS A PREJUDICAR - NOS, ASSIM COMO O MARCÃO, TAPA BURACO DESSA URGENTE E AGONIZANTE SITUAÇÃO A QUE OS ADORADORES E UM TAL DINIZ NOS HAJAM LEGADO, SOFRAMOS, A MEDIDA EXATA DO LENTO, SONOLENTO, VAGAROSO E DESATENTO, GANSO, DESASTROSO, SEM CONTUDO ABDIQUEMOS TER EM MENTE VER UMA CHANCE DE TABELA FORTUITA CASO GRAVATINHA RETORNE COM SUA MÍSTICA E A METAFÍSICA ASSOMBROSA DA REALIDADE MAIS QUE SURPREENDENTE, REDENTORA. AMÉM!..

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  7. Pra mim nesses casos seria mesma linha.
    Pois até o momento q a bola é tocada é impossível marcar o momento exato.

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    1. Sim, esses casos que estão chamando de "ajustados" são mesmo lances de mesma linha.

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