terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Recordar é viver - Ron, o herói do Colo Colo


Começa hoje a fase de grupos da Copa Libertadores da América de 2010. Então, nada melhor que recordar uma grande história da principal competição sul-americana...

Santiago do Chile, 22 de maio de 1991.

Amigos, quando o Colo Colo fez o terceiro gol, faltando poucos minutos para o fim da partida, a confusão se instalou. Diante de 64.208 testemunhas, o gramado do Estádio Monumental virou palco da selvageria, com uma profusão de socos e pontapés. A rixa entre jogadores, repórteres e delegados parecia não ter fim.

A partida, apitada pelo brasileiro Renato Marsiglia, havia sido jogada com bastante respeito, dos dois lados. O fair-play imperava, apesar de ser uma semifinal de Libertadores. Na partida de ida, o Boca Juniors havia vencido o Colo Colo por 1 a 0, em Buenos Aires, e portanto jogava pelo empate. Aos 20 do segundo tempo, Marcelo Barticciotto fez grande jogada, e passou a Rubén Martínez, que concluiu inapelável: Colo Colo 1 a 0. Dois minutos depois, Patricio Yáñez cruzou no segundo pau para Barticciotto, e este fez o segundo gol dos chilenos. Em dois minutos, a vaga na final passou das mãos argentinas às mãos chilenas.

Entretanto, o Boca Juniors não é de desistir fácil, e lançou-se todo ao ataque, em busca de um gol que voltaria a empatar a série. Com o segundo tempo perigosamente se aproximando do fim, Gabriel Batistuta cruzou em diagonal, e Diego Latorre cabeceou para o gol. Na comemoração, Latorre zombou em frente ao goleiro Daniel Morón. Ali, os ânimos começaram a se exaltar. Morón manteve a calma, e conseguiu deter seu companheiro Lizardo Garrido, que queria agredir Latorre. A batalha começava a ganhar o contorno da selva de gângsteres que costumam ser os jogos decisivos da Libertadores.

A cada minuto que passava, a dramática semifinal caminhava para ser decidida na disputa de pênaltis. Porém, a oito minutos do final, Rubén Martínez tabelou com Patricio Yáñez, e mandou a pelota para o fundo das redes, com um toque sutil: Colo Colo 3, Boca Juniors 1. A euforia causada pelo gol histórico se misturou com o começo da confusão. Os defensores argentinos reclamavam de impedimento com Marsiglia, e as agressões mútuas logo começaram. Os visitantes também se meteram a brigar com os fotógrafos. Não demorou nada para que tripés virassem armas. Naquela altura, ninguém mais conseguia imaginar a continuação da partida.

Porém, surgiu ali, naquele instante, o grande herói da noite: Ron, o pastor alemão. O policial afrouxou sua coleira, e Ron partiu para o meio da briga. O goleiro do Boca, Navarro Montoya, recuava de um confronto quando sentiu o golpe. Ron acabara de morder suas nádegas, com força moderada. Há que se ressaltar: força moderada. Se Ron tivesse usado a força total dos 42 dentes de sua arcada, Montoya precisaria ser recolhido a um hospital. Eis o milagre: a mordida moderada de Ron foi um santo remédio. A briga simplesmente parou, como se uma força sobrenatural tivesse restabelecido a calma.

O jogo pôde continuar, graças a Ron. O placar de 3 a 1 foi mantido nos minutos finais, e o Colo Colo chegou à final da Libertadores. O pastor alemão, amistoso e brincalhão, foi alçado a herói nacional. Os chefes de Ron garantem que ele teve méritos maiores durante sua carreira, dedicada ao resgate de pessoas desaparecidas. Pode ser. Mas, no Estádio Monumental, Ron viveu sua grande noite. O pastor alemão sabia que batalhas campais são inaceitáveis numa cancha de jogo. O futebol não é assim, não deve ser assim, não pode ser assim.

PC

Duas semanas depois, o Colo Colo ergueu a Taça Libertadores da América, no mesmo Estádio Monumental, após vencer o Olímpia, do Paraguai, por 3 a 0.

Seis anos depois, precisamente em 10/12/1997, Ron faleceu, aos onze anos e dois meses de vida, após um acidente decorrente de um treinamento.

Os restos mortais de Ron repousam abaixo de uma lápide de pedra, que a cada outono é coberta por folhas secas, na base da colina San Cristóbal, ao sul de Santiago.

Até hoje, todo dia 22 de maio, a torcida do Colo Colo peregrina até a tumba de Ron, para lhe prestar as devidas homenagens.

Vídeo com os gols da partida:

Um comentário:

  1. Jogava bem esse time, mas a grande estrela da conquista foi mesmo Ron!!!

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