
Amigos, ainda estou hipnotizado pela fantástica vitória do Fluminense no Mineirão.
Vamos aos fatos: o Cruzeiro, melhor time do returno, vice-campeão da América, joga em casa, para mais de cinqüenta mil pessoas no Mineirão. Termina o primeiro tempo vencendo por 2 a 0. Do outro lado está o Fluminense, último colocado do Campeonato Brasileiro. Quem esperava uma reação tricolor?
Um famoso narrador gaúcho disse certa vez: "Eu disse que acreditassem. Eu pedi que acreditassem. Eu nunca deixei de acreditar". Vocês, meus leitores, são testemunhas de que sigo essa filosofia quando o assunto é o Fluminense. Diante da TV, troquei de lugar com meu irmão Ramón. Eis o óbvio ululante: nosso posicionamento nas cadeiras da sala estava incorreto. Mas o óbvio é invisível, já dizia Nelson Rodrigues. Por acaso, percebi o grave erro, e efetuamos a troca de lugares. Começava ali a virada do Fluminense. Falei com meu irmão: "até os 15, empatamos, para poder pensar na virada". Eu não sabia ainda, mas estava proferindo a minha mais bela profecia.
O técnico Cuca, ousado, fez duas alterações: Digão entrou no lugar de Diguinho, e Tartá substituiu Equi González. O esquema foi do 4-4-2 para o 3-5-2. E o Fluminense lançou-se todo para o ataque. O zagueiro Gum fez o primeiro. O centroavante Fred fez o segundo. E chegamos mesmo aos quinze minutos com o jogo empatado, em 2 a 2.
Eu disse Fred, e repito: Fred, Fred, Fred. Há poucas semanas, ele era vaiado no Maracanã, pela própria torcida do Fluminense. Ainda bem que seu coração é bem grande, e ele perdoou os que o vaiaram. Fred era o centroavante tão aguardado quanto um Messias em Álvaro Chaves.
E foi Fred que fez o gol da virada. Da doce e santa virada.
Peço licença para citar Mauro Jacomé, outro grande tricolor. "A verdade incontestável é que ninguém ganha da forma como nós ganhamos. As vitórias dos outros são simples, quase sem graça. Algumas beiram a banalidade, ao ridículo, as nossas não. As nossas são cardíacas. As dos outros são previsíveis, esquecidas ao apito do primeiro jogo do próximo campeonato, as nossas são inesquecíveis. Por todos, por nós, pelos adversários e até pelo mais indiferente leigo. As nossas vão da extrema falta de perspectiva, do máximo sofrimento, da crueldade, ao êxtase, ao épico, ao apoteótico. Tudo junto, quase sem fronteiras entre esses opostos."
Amigos, não nos esqueçamos que, do outro lado, havia um grande time: o Cruzeiro. Na minha opinião, é o melhor time do Brasil em 2009. E a equipe celeste valorizou a vitória do Fluminense. São onze craques dispostos a vencer ou perecer pelo azul do Cruzeiro. Vice-campeão da Libertadores, só não é o campeão brasileiro antecipado porque entrou tarde demais no certame. Apesar de um lance irresponsável, em que tentou agredir Maicon, Gilberto liderou a Raposa com maestria.
Eu não consigo explicar a virada, que veio umedecida pelo suor épico dos onze guerreiros tricolores. Do goleiro ao ponta-esquerda, todos eles encharcaram suas camisas, com uma garra e um ímpeto inexcedíveis. São eles, os onze, os meus personagens do domingo.
Fato é: depois de hoje, o Fluminense não merece cair. Esta instituição centenária, a mais importante da história esportiva brasileira, não merece ficar de fora do melhor campeonato do mundo.
Encerro a crônica com as palavras eternas do Penido: "Deus é carioca! Deus é tricolor! Quando ataca, vence! Sem covardia, na garra, na raça, na luta, na força, na determinação! E o Fluminense chega!".
No domingo, temos mais uma decisão, contra o líder Palmeiras. Convoco os tricolores vivos, doentes e mortos a subirem as rampas. Vamos quebrar o recorde de público deste campeonato. Pelo verde da esperança, pelo branco da harmonia, e pelo sangue do encarnado, o Fluminense merece. Vejo vocês no Estádio Mário Filho.
PC