| Autobol: Fluminense x Vasco. |
Na madrugada da quinta-feira 5 para a sexta-feira 6, a TV Globo exibiu, no programa "O Rio por Eles", imagens de um esporte inusitado, disputado por equipes de carros, que manobravam em um campo "chutando" uma grande bola em direção a gols de futebol. Era o Autobol, que alcançou bastante popularidade no início da década de 70, no Rio de Janeiro. O idealizador do esporte foi o doutor Mário Marques Tourinho, diretor do serviço médico do America e médico da Associação Carioca de Volantes de Competição.
O Autobol era disputado em um campo de terra batida (saibro), com as dimensões de um gramado de futebol. O objetivo do Autobol era acertar uma grande bola de couro de búfalo, com diâmetro aproximado de 1 metro e 10 centímetros e peso de 11 quilogramas, no gol delimitado pelas traves (com comprimento de 7,32 m e altura de 2,44 m). Havia três, quatro, cinco ou seis carros por equipe, geralmente com um reserva (as regras variaram ao longo dos anos).
O veículo mais utilizado no Autobol era o Dauphine, porque era relativamente barato, e porque tinha o câmbio de três marchas, com a ré e a primeira marcha no mesmo canal, tornando mais fáceis as manobras de idas e vindas pelo campo. Outros carros utilizados no Autobol eram o Volkswagen Fusca 1300, o Volkswagen 1600 ("pai" da famosa Brasília), o Gordini, o Renault RQ e o Kharman-Ghia. Os carros com capô redondo, como o Fusca, eram utilizados para "chutar" a bola para o alto, permitindo que os outros veículos a "cabeceassem" para o gol. Os carros com capô quadrado eram usados para executar passes rasteiros e cobranças de falta.
Evidentemente, o Autobol era um esporte caríssimo, praticado basicamente por investidores milionários da antiga Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, dispostos a torrar seu dinheiro em algum passatempo extravagante. Naqueles anos, durante o Governo Militar, o Brasil vivia o chamado Milagre Econômico, com taxas de crescimento de 12% ao ano, e grandes obras de infra-estrutura em pleno andamento, em todo o território nacional. O esbanjador Autobol parecia uma diversão adequada para tempos de tanta fartura.
Algumas partidas de Autobol tiveram bilheteria esgotada, às vezes superando até a audiência de jogos de futebol. O sucesso dos primeiros jogos foi tamanho que, em 1973, foi instituído o Campeonato Carioca de Autobol, disputado por equipes representando Fluminense, America, Flamengo e Vasco. No ano seguinte, o Botafogo entrou no lugar do America. Os carros eram pintados com as cores dos clubes, e possuíam os escudos e os números, como se fossem as tradicionais camisas do futebol.
A maioria dos jogos de Autobol foi disputada no Estádio da Rua Campos Sales, na Tijuca (o campo do America, cujo gramado aguardava reforma); no campo do Colégio Santo Inácio, da Companhia de Jesus, em Botafogo; e no campo dos Funcionários do Horto Florestal. Até mesmo o sagrado Estádio de Laranjeiras, campo do Fluminense e berço da Seleção Brasileira, chegou a sediar jogos do esporte - o Tricolor autorizou algumas partidas, durante o replantio do gramado, em 1974.
O Autobol era um esporte bastante perigoso para seus praticantes, com batidas, capotagens, incêndios e até atropelamentos. Durante uma partida entre as equipes de Fluminense e Vasco, em 1974, o piloto vascaíno João Paes foi atropelado por um companheiro enquanto corria pelo campo em busca de socorro mecânico para seu automóvel, que estava enguiçado. Felizmente, os ferimentos não foram graves - certamente, os hematomas doeram menos que a derrota do Vasco para o rival tricolor, por 6 a 0.
O primeiro Campeão Carioca de Autobol, em 1973, foi o Fluminense, que contava com os talentosos pilotos Alfredo, Ivan Sant'Anna, Fernando Davi e Paulo Jorge. Ivan Sant'Anna, vale dizer, era famoso por ser um torcedor extremamente fanático do Fluminense, tendo ido a absolutamente todos os jogos do time profissional de futebol entre 1970 e 1977 - incluindo a excursão do clube à África em 1973 (!!!!). Sobre o Autobol, Ivan Sant'Anna acreditava que o esporte ainda seria bastante popular em todo o mundo - mas precisaria de um acidente fatal para ampliar seu sucesso.
No Campeonato Carioca de Autobol seguinte, em 1974, o Botafogo sagrou-se vencedor. Com o estouro da grave crise mundial do petróleo, a fase do Milagre Econômico acabou, as competições automobilísticas sofreram severas restrições no Brasil, e a prática do Autobol cessou definitivamente.
PCFilho
(com base principalmente em notícias de jornais da época e nos relatos do ótimo livro "Futebol: The Brazilian Way of Life", do jornalista inglês Alex Bellos)




