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sexta-feira, 6 de março de 2015

O Campeonato Carioca de Autobol

Autobol: Fluminense x Vasco.

Na madrugada da quinta-feira 5 para a sexta-feira 6, a TV Globo exibiu, no programa "O Rio por Eles", imagens de um esporte inusitado, disputado por equipes de carros, que manobravam em um campo "chutando" uma grande bola em direção a gols de futebol. Era o Autobol, que alcançou bastante popularidade no início da década de 70, no Rio de Janeiro. O idealizador do esporte foi o doutor Mário Marques Tourinho, diretor do serviço médico do America e médico da Associação Carioca de Volantes de Competição.

O Autobol era disputado em um campo de terra batida (saibro), com as dimensões de um gramado de futebol. O objetivo do Autobol era acertar uma grande bola de couro de búfalo, com diâmetro aproximado de 1 metro e 10 centímetros e peso de 11 quilogramas, no gol delimitado pelas traves (com comprimento de 7,32 m e altura de 2,44 m). Havia três, quatro, cinco ou seis carros por equipe, geralmente com um reserva (as regras variaram ao longo dos anos).




O veículo mais utilizado no Autobol era o Dauphine, porque era relativamente barato, e porque tinha o câmbio de três marchas, com a ré e a primeira marcha no mesmo canal, tornando mais fáceis as manobras de idas e vindas pelo campo. Outros carros utilizados no Autobol eram o Volkswagen Fusca 1300, o Volkswagen 1600 ("pai" da famosa Brasília), o Gordini, o Renault RQ e o Kharman-Ghia. Os carros com capô redondo, como o Fusca, eram utilizados para "chutar" a bola para o alto, permitindo que os outros veículos a "cabeceassem" para o gol. Os carros com capô quadrado eram usados para executar passes rasteiros e cobranças de falta.



Evidentemente, o Autobol era um esporte caríssimo, praticado basicamente por investidores milionários da antiga Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, dispostos a torrar seu dinheiro em algum passatempo extravagante. Naqueles anos, durante o Governo Militar, o Brasil vivia o chamado Milagre Econômico, com taxas de crescimento de 12% ao ano, e grandes obras de infra-estrutura em pleno andamento, em todo o território nacional. O esbanjador Autobol parecia uma diversão adequada para tempos de tanta fartura.

Algumas partidas de Autobol tiveram bilheteria esgotada, às vezes superando até a audiência de jogos de futebol. O sucesso dos primeiros jogos foi tamanho que, em 1973, foi instituído o Campeonato Carioca de Autobol, disputado por equipes representando Fluminense, America, Flamengo e Vasco. No ano seguinte, o Botafogo entrou no lugar do America. Os carros eram pintados com as cores dos clubes, e possuíam os escudos e os números, como se fossem as tradicionais camisas do futebol.



A maioria dos jogos de Autobol foi disputada no Estádio da Rua Campos Sales, na Tijuca (o campo do America, cujo gramado aguardava reforma); no campo do Colégio Santo Inácio, da Companhia de Jesus, em Botafogo; e no campo dos Funcionários do Horto Florestal. Até mesmo o sagrado Estádio de Laranjeiras, campo do Fluminense e berço da Seleção Brasileira, chegou a sediar jogos do esporte - o Tricolor autorizou algumas partidas, durante o replantio do gramado, em 1974.

O Autobol era um esporte bastante perigoso para seus praticantes, com batidas, capotagens, incêndios e até atropelamentos. Durante uma partida entre as equipes de Fluminense e Vasco, em 1974, o piloto vascaíno João Paes foi atropelado por um companheiro enquanto corria pelo campo em busca de socorro mecânico para seu automóvel, que estava enguiçado. Felizmente, os ferimentos não foram graves - certamente, os hematomas doeram menos que a derrota do Vasco para o rival tricolor, por 6 a 0.

O primeiro Campeão Carioca de Autobol, em 1973, foi o Fluminense, que contava com os talentosos pilotos AlfredoIvan Sant'Anna, Fernando DaviPaulo Jorge. Ivan Sant'Anna, vale dizer, era famoso por ser um torcedor extremamente fanático do Fluminense, tendo ido a absolutamente todos os jogos do time profissional de futebol entre 1970 e 1977 - incluindo a excursão do clube à África em 1973 (!!!!). Sobre o Autobol, Ivan Sant'Anna acreditava que o esporte ainda seria bastante popular em todo o mundo - mas precisaria de um acidente fatal para ampliar seu sucesso.




No Campeonato Carioca de Autobol seguinte, em 1974, o Botafogo sagrou-se vencedor. Com o estouro da grave crise mundial do petróleo, a fase do Milagre Econômico acabou, as competições automobilísticas sofreram severas restrições no Brasil, e a prática do Autobol cessou definitivamente.

PCFilho
(com base principalmente em notícias de jornais da época e nos relatos do ótimo livro "Futebol: The Brazilian Way of Life", do jornalista inglês Alex Bellos)

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Recordar é viver - América 11, Botafogo 2

Amigos, corria a disputa do Campeonato Carioca de 1929. Que bela época era a de 1929: as mulheres tinham ataques histéricos nas arquibancadas, e os homens iam ao jogo com o melhor terno e a melhor gravata. Havia também os novatos: no início, eles olhavam atônitos para os 22 jogadores correndo, e perguntavam "quem é a bola?". Após o fim da partida, via-se o brilho nos olhos de cada novato: lá estavam mais alguns eternos apaixonados pelo esporte bretão.

O amadorismo também dava um toque de lirismo ao futebol dentro de campo: o jogador que estava ali, encharcando a camisa com seu grosso suor, no dia seguinte estaria trabalhando no escritório, no porto, ou em qualquer outro local. E o que dizer dos árbitros? Eles tinham muito mais liberdade para roubar do que hoje. Não havia os video-tapes, prontos para denunciar qualquer erro. Os campos eram menores, e isso também facilitava a vida dos juízes gatunos: bastava encerrar o jogo próximo à linha lateral, pular o muro e sair correndo da torcida revoltada.

No dia 11 de agosto, o Botafogo reclamou do juiz do jogo contra o América. O saudoso clube rubro venceu por 1 a 0, mas os alvinegros revoltados afirmavam que o árbitro havia roubado tudo o que podia. Segundo os botafoguenses, mais meia hora de jogo e nem as cuecas lhes sobrariam - teriam que voltar nus para casa. General Severiano tanto reclamou que conseguiu a anulação da partida. O match foi remarcado para o dia 3 de novembro, uma semana após o término do campeonato.

Quando terminou a rodada derradeira, só restava para ser jogado o América x Botafogo que havia sido remarcado. O Botafogo já não tinha mais chances de título, mas o América precisava da vitória, para forçar os jogos-desempate contra o Vasco. Mas reparem que não era apenas a busca pela taça que movia o América. Os jogadores rubros precisavam vencer novamente um jogo que já haviam vencido. Não há combustível melhor para atiçar a gana de uma equipe que uma injustiça. E era esse o estado dos guerreiros americanos: eles se sentiam injustiçados, acima de tudo. Assim, naquele terceiro dia de novembro, o clube de Campos Sales foi, com ímpeto, garra, vigor e raça inexcedíveis, para cima do Botafogo. A torcida rubra jamais esquecerá aquele domingo no estádio do América: foi um dos grandes dias do Diabo Vermelho.

Amigos, uma goleada é justificável. Quando um time vence de 3, de 4 ou até de 5 gols, há circunstâncias de jogo que justificam o placar. Mas há escores injustificáveis: o 11 x 2 do América sobre o Botafogo é um exemplo. Um massacre tão estrepitoso, tão acachapante e tão humilhante não pode ser justificado por nada. Um placar desses traduz insofismavelmente a superioridade de um time sobre o outro. Uma agressividade assim chega a dar vertigem. Eu até diria que essa fúria de gols tem algo de patológico.

Reparem que há um agravante no 11 x 2 do América. Não foi um 11 x 2 contra o São Cristovão, ou contra o Canto do Rio, ou contra o Sírio-Libanês. Foi um 11 x 2 contra o Botafogo. Percebam a grandeza do feito do América: meter onze no Botafogo não é para qualquer um. Balançar onze vezes as redes de um dos grandes clubes do futebol brasileiro é uma façanha e tanto, mesmo nessa época saudosa em que os times jogavam para o ataque.

O time do Botafogo não era fraco: quatro jogadores alvinegros foram à Copa do Mundo de 1930 (dois do América também foram). Portanto, nada pode diminuir a extraordinária jornada da equipe rubra. Foi uma façanha fantástica, épica e inesquecível!

PC