Resposta de Ronaldo a um jornalista, em 2011. Vídeo: TV Lance.
"Tá sendo gasto também muito dinheiro em saúde, em segurança, mas a gente vai receber a Copa do Mundo. Sem estádio, não se faz Copa do Mundo, amigo. Não se faz Copa do Mundo com hospital. Tem que fazer estádio, senão não tem Copa do Mundo também. Aí você tem que ver o que você quer. Eu acho que tem que ser dividido, lógico, todo o investimento. Eu não faço parte do governo, mas eu tenho certeza que eles estão fazendo isso, e estão dividindo os investimentos. De qualquer maneira, muitos estádios estão sendo financiados pelo BNDES também."
(Ronaldo, perguntado sobre os gastos nos estádios para o Mundial)
Minha opinião: a gritaria geral contra os excessivos gastos com as construções e reformas veio tarde demais. Nós não protestamos na hora em que deveríamos, lá atrás, quando percebemos que as obras seriam financiadas com (muito) dinheiro público. Que os bilhões investidos nas modernas "arenas" deveriam ter tido utilização mais nobre (educação, saúde e infra-estrutura do país), não tenho a menor dúvida. Mas protestar contra isso, agora, é chorar sobre o leite derramado.
Entendemos tarde demais que sediar os grandes eventos não seria bom para o Brasil. Há uma noção falsa de que "o dinheiro voltará", de que "não são gastos, mas investimentos". Nada mais distante da verdade.
Teremos, de fato, um mês de felicidade, turistas e lucros em 2014, e mais duas semanas de tudo isso em 2016. Eu, como fã de esporte, vou adorar ver de perto alguns de meus ídolos e heróis. E tenho certeza que, de fato, nossa população aproveitará os eventos, será hospitaleira como sempre, e viverá algumas semanas de paraíso e alegria, com segurança de verdade nas ruas e um clima bacana de congraçamento.
A questão é: estas seis ou sete semanas de utopia valem o preço que estamos pagando?
Não, não valem.
O legado dos eventos será uma dúzia de aparelhos esportivos moderníssimos, a metade deles autênticos elefantes brancos, sem perspectiva de uso frequente. A infra-estrutura das cidades simplesmente não melhorou, e mesmo que tenha melhorado um pouco, aqui ou ali, terá sido por obras que poderiam ter sido feitas sem a realização dos eventos.
Não nos enganemos: os euros deixados pelos turistas não cobrirão os gastos que tivemos com as obras - nem chegarão perto disso. Esse argumento do "retorno do dinheiro" é frágil como um castelinho de areia. Faça umas contas rápidas num papel de pão e verifique você mesmo.
Quando soar o apito final em 2014, e quando terminar a maratona em 2016, os turistas irão embora. A maioria não voltará tão cedo. E nós ficaremos com a conta, para pagar a perder de vista. E ainda sem saúde, ainda sem educação, ainda sem infra-estrutura.
Portanto, sim, essa orgia de gastos públicos é absurda, imoral até. Mas que deveríamos ter gritado antes, ah, deveríamos...
PCFilho



