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quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Apelo também aos fantasmas

Hoje, eu queria conversar com a torcida tricolor. Ninguém pode ficar em casa na grande tarde. Mesmo para os neutros, não comparecer ao Maracanã será um sintoma de mau caráter. Nenhum pó-de-arroz tem o direito de falhar na hora crucial.

Mas, note-se, é um dever de presença que não exclui nem as almas do outro mundo. Amigos, eu creio que até simples ossadas serão tocadas pelo apelo da batalha. Só os idiotas da objetividade pensam que os mortos não sentem os grandes acontecimentos. Na Primeira Grande Guerra, às vésperas do Marne, a sombra da águia napoleônica caiu sobre o fulgor das baionetas da França. Por trás dos guerreiros e dos craques, por trás dos heroísmos, das vitórias - há a sombra de amados fantasmas.

Quero ver, no Maracanã, os velhos do Fluminense. É doce esbarrar em torcedores quase mumificados. Os velhinhos são o Passado, a História, a Lenda do Tricolor. Também quero ver os nem tão idosos, testemunhas do tricampeonato de 83, 84, 85. O quadro que levantou o terceiro tri era esse: Paulo Victor; Beto, Vica, Ricardo e Renato; Jandir, Delei e Renê; Romerito, Washington e Tato. Contribuíram também Aldo, Duílio, Branco, Leomir, Assis e Paulinho, entre outros. Claro que, hoje, esta equipe está gravada no ouro da memória. Um clube vive muito do ouro do passado. Ai daquele que não leva, que não cultiva as santas nostalgias.

Os que vivem também precisam estar no Maior do Mundo. Existe uma legião tricolor. O Fluminense é o mais amado do Brasil. E é preciso que, domingo, a torcida tricolor seja a mais vibrante, a mais apaixonada, e de um clamor capaz de sacudir o Maracanã em suas raízes. E só.

(adaptação de crônica de Nelson Rodrigues, publicada no Jornal dos Sports de 12/12/1963)