(por Ana Rosa Amorim)
E a Lusa perdeu os pontos. No julgamento, auditor cita farta jurisprudência, faz distinção entre início da condenação e prazo judicial, enumera precedentes da FIFA, alguns recentes e esclarece que cumprir o regulamento é regra moral. Decisão unânime.
Este post poderia ser sobre o Fluminense, sobre o meu Fluminense. Poderia ser sobre o time que fascina pela sua disciplina. O Fluminense me domina, todos sabem. Poderia, mas não será.
Na verdade, quero escrever sobre algo que me estarreceu profundamente: não foi apenas o Fluminense o alvo de achincalhe da imprensa marrom. Nunca, até hoje, vi tamanho ataque ao princípio da legalidade. Nunca.
A legalidade não é, como pretendem os jornalistas tornados rábulas, uma aplicação da letra fria da lei, numa expressão carregada de pieguice e de má-fé. A legalidade é um dos pilares para sustentação do sistema democrático. Um Estado de Direito é um Estado regido por leis. E um Estado regido por leis é um Estado que não faz distinção entre seus cidadãos. A legalidade e a igualdade, ou isonomia, como queiram, é o que nos garante direitos. Elas delineiam o espaço da liberdade, restringida apenas porque é o povo, por meio do Poder Legislativo, que constrói suas próprias leis.
Pois bem, o que vimos nesse episódio "lusitano"?
Um ataque frontal, aberto, escancarado, ao primado da legalidade. E o que se propõe para substituí-lo? Uma ética de apaniguados.
A discussão não era, nem nunca foi, sobre se a Lusa deveria perder pontos ou não. A discussão era saber se aquele a quem se odeia, se o Fluminense, poderia ou não ser o beneficiário da aplicação da norma. O apaniguado era a Lusa, alçada à condição de vítima de sua própria circunstância, vítima do sistema. O odiado era o Fluminense, o time da elite, essa elite branca e má, acostumada com manobras. Uma palavra sequer para lembrar que em 1996 foram dois times de massa, o Corinthians e Atlético Paranaense, que compraram a arbitragem. Seriam rebaixados, caso a norma fosse cumprida. Para evitar o rebaixamento, deram pena branda (são apaniguados, lembram?) e rasgaram a norma: naquele ano não houve rebaixamento. Infelizmente, na memória coletiva aparece outro gesto: o inconsequente e deprimente gesto do estourar do champagne, esse gesto de elite branca e má. O gesto foi infame, mas a virada de mesa foi do Atlético Paranaense e do Corinthians.
Em 1999, foi a vez de o São Paulo escalar o "gato" Sandro Hiroshi irregularmente. O Botafogo, então rebaixado, após ter perdido por 6 a 1 pro SP, e o Inter pleiteiam os pontos das partidas e levam. Levam porque o regulamento previa isso. Gama, por força disso, é rebaixado e ingressa na Justiça Comum. Não se pode ter Campeonato Brasileiro em 2000. O Clube dos 13 organiza o monstrengo Copa João Havelange, competição para a qual o Fluminense, então campeão da série C, foi convidado, juntamente com o Bahia, para participar do módulo principal. Alguém se lembra de pedir para o Bahia pagar a série B? Que virada provocou o Fluminense? Nenhuma. Em 2001, ocorre uma espécie de refundação do campeonato; em 2003 criam o sistema de pontos corridos, vigente até hoje.
Era, no entanto, preciso fazer algo. Não era possível que o Fluminense, o time a quem se odeia, pudesse ser o beneficiário da aplicação da norma.
E se a norma confere benefícios ao inimigo, o que se faz? Propõe-se destruir a norma. A norma não presta.
"É, realmente, um absurdo que se imponha a perda de pontos a quem escala jogador irregular. Onde já se viu tamanha barbaridade?". Eis os que diziam, numa cantilena, os defensores da ética dos apaniguados.
Num requinte de cinismo, invertem a moral. Dizem ser imoral cumprir a norma, é injusto.
A Lusa? A Lusa é pequena, pobre, vítima do sistema. É a ideologia dos que colocam a prática de crimes na conta da crueza da sociedade. E que bom ter sido a Lusa! O argumento ficaria perfeito! Na ética dos apaniguados, em que o ódio seria direcionado ao time da aristocracia carioca, ao time da rica Unimed, esse patrocinador privado que a tantos irrita, enquanto o dinheiro da Caixa é usado, sem maior contestação, para apoiar tantos outros clubes, a contraposição entre aristocratas e proletariado seria perfeita. A pobre Lusinha!
Nada foi dito sobre meritocracia. Sobre ter a capacidade de conhecer o regulamento e obedecê-lo. Foi preciso o advogado do Inter, em entrevista, dizer que ganhar em campo era ganhar obedecendo às normas, para o constrangimento da bancada de jornalistas que o ouviam.
A Lusa até admitiu que errou, mas não por sua própria culpa. Ora, assumir a culpa? Jamais! Ela era pobre e indefesa! Seria o time da elite branca e má quem a rebaixaria, apesar de ter sido a CBF a denunciar o erro.
Na ética dos apaniguados, cumpre atacar o inimigo e minimizar a culpa do apaniguado: não houve dolo! Como lembrou o auditor, em seu voto, não se cogita de dolo. Trata-se de uma infração semelhante aos crimes de mera conduta. A responsabilidade é objetiva.
Restou escancarada a manobra: para privar direitos de quem não se gosta, valeria tudo. Deturpar a lei. Rasgar a lei. Culpar o sistema. Lançar o argumento da vitimização.
É por essa postura de parte da imprensa que outro exemplo da ética de apaniguados foi pouco contestado. Sim, falo sobre o tema que me inquieta, que também me estarreceu: o famigerado Programa Mais Médicos. O apaniguado, aqui, é o Governo Cubano. E pra ajudar o governo cubano o que se faz? Desconsidera-se a legislação trabalhista. Chama-se de bolsa o que na verdade é relação de emprego. Legitima-se o leasing de seres humanos criado por Cuba.
Felizmente, o STJD refreou, neste primeiro momento, a aplicação da ética dos apaniguados. Não se iludam, porém. Hoje pode ser divertido compartilhar do ódio a um time (não é ódio, é mera rivalidade) e apoiar, pretendendo-se moralista, o desrespeito à legalidade. Não se iludam. Hoje, vocês podem estar entre os que atiram pedras. Amanhã, entre os que são apedrejados.

