Em três jogos da semana passada, aconteceram situações importantes envolvendo personagens que geralmente estão relegados a um papel secundário nos gramados: os gandulas.
O primeiro caso foi no duelo brasileiro da Copa Libertadores, no Beira-Rio, entre Internacional e Fluminense. Quando foi marcado um escanteio para a equipe de Porto Alegre, um gandula maroto já deixou a bola ajeitada no quarto de círculo, para Dátolo cobrar rapidamente. O objetivo da jogada, obviamente, foi pegar a defesa tricolor desprevenida. E a "tática" funcionou: Tinga quase marcou o gol, em chute perigoso, salvo pelo goleiro Diego Cavalieri. (Nota: não é a primeira vez que o Fluminense sofre com isso: na final da Copa Sul-Americana de 2009, os gandulas da LDU em Quito apressaram várias vezes a reposição da bola, o que acabou sendo decisivo no primeiro gol dos equatorianos - apesar de o árbitro uruguaio Roberto Silvera ter validado o gol, o lance foi claramente irregular, pois havia duas bolas em campo simultaneamente.)
Voltando ao Beira-Rio: no jogo seguinte, um Grenal decisivo pelo Campeonato Gaúcho, o Internacional tentou repetir a "jogada ensaiada" com o gandula. Mas a cobrança foi invalidada pelo árbitro, e houve um sururu daqueles, com Vanderlei Luxemburgo partindo pra cima do gandula espertinho e os jogadores colorados tentando defendê-lo. A declaração de Tinga é surreal: "não podíamos deixar o rapaz ali indefeso, ele treina com a gente essa cobrança rápida". Opa, o gandula treina com o time? É isso mesmo? O gandula é o décimo-segundo titular colorado?
Enquanto isso, no Engenhão, a gandula Fernanda Maia (foto acima) participava decisivamente do clássico entre Botafogo e Vasco, final da Taça Rio. Apressando a reposição da bola para Maicosuel, a bela menina praticamente desmanchou o sistema defensivo vascaíno: Loco Abreu, sozinho, fez 1 a 0 para o Botafogo. Com o jogo apenas começando, o Vasco já teve que correr atrás do prejuízo, cedendo ao Botafogo perigosos contra-ataques.
Os beneficiados apressam-se em defender a tática: "ora, repor a bola rápido é louvável, é bom para o futebol, errado é retardar o jogo". Claro, mas não sejam hipócritas: obviamente o tratamento não é o mesmo para os dois times. A própria Fernanda se defendeu: "faço isso para todo mundo, aproveita quem quer". Tá bom, os fatos de ter sido o Botafogo o beneficiado e de ela ser exatamente botafoguense são apenas uma grande coincidência. A declaração antiga do treinador do Botafogo, sobre gandulas fazerem parte do time, também é apenas uma coincidência. O que é o futebol, senão uma grande caixinha de coincidências? Os gandulas do Internacional, aqueles que treinam com o time, também devem fazer isso para os dois lados...
Amigos, Internacional e Botafogo são instituições centenárias, dois dos clubes mais importantes e vitoriosos da história do esporte no Brasil. Não precisam apelar para essa tática suja, de tentar fazer "gols de LDU". Não condiz com a grandeza dos dois clubes, e não condiz com o futebol brasileiro. Pelo menos não com o que eu penso que deve ser o futebol brasileiro.
Devo lembrar que o primeiro gandula, o meia argentino que jogava no Vasco em 1939, era conhecido exatamente pelo fair-play, indo buscar a bola tanto para os companheiros quanto para os adversários...
PC
