
A jogada que ficará para sempre na memória
Rio de Janeiro, 27 de junho de 1971.
Amigos, as manchetes cariocas berram a verdade eterna: o Fluminense é o campeão de 71. Diante de mais de 140 mil pessoas num Maracanã lotado, o Tricolor venceu o Botafogo por 1 a 0, dramaticamente, com gol de Lula aos 43 minutos do segundo tempo.
Antes de contar a história do jogo final, cabe contar a história de todo o campeonato. O Botafogo era, desde a rodada inaugural, o grande favorito. No início da temporada, o alvinegro contratou o lateral Paulo Henrique e também os tricampeões Carlos Alberto e Brito. É bom lembrar que o plantel já contava com as estrelas de Jairzinho e Paulo Cézar Lima. E a campanha avassaladora foi comprovando o favoritismo botafoguense.
No primeiro turno, no dia 18 de abril, aconteceu o primeiro clássico vovô, para 100 mil pessoas no Maracanã. Segundo o Jornal dos Sports, o árbitro Carlos Costa inventou um pênalti em Jairzinho, aos 18 minutos do primeiro tempo. Paulo Cézar Lima marcou então o gol único da vitória do Botafogo.
O quadro de General Severiano vivia a euforia que precede as grandes catástrofes. O timaço voava em campo e ninguém mais via como perder o título. Paulo Cézar Lima chegou a posar para a Revista Placar com a faixa de campeão no peito. O Fluminense seguia vencendo alguns jogos e empatando outros (a única derrota fora a do pênalti roubado). A 4 rodadas do fim, o Botafogo tinha 4 pontos a mais que o Tricolor. A vantagem parecia mesmo intransponível.
No dia 10 de junho, o Botafogo venceu o Olaria por 3 a 2. Dois dias depois, o Fluminense ganhou do América por 3 a 1. A vantagem permanecia em 4 pontos, faltando 3 rodadas para o término do certame. A certeza do título crescia para cada alvinegro.
Porém, no dia 13 de junho, o Botafogo perdeu para o Flamengo por 2 a 0. Três dias depois, o Fluminense bateu o Vasco por 2 a 0. A camisa tricolor começava a se impor na hora certa. A vantagem botafoguense caía de 4 para 2 pontos.
No dia 19 de junho, um Botafogo pressionado não conseguiu mais do que empatar com o América (1 a 1). No dia seguinte, um Fla-Flu eletrizante e mais uma vitória tricolor: 2 a 0. A vantagem alvinegra era de apenas um ponto, faltando apenas o jogo final, entre... Fluminense e Botafogo!
E então chegou o grande dia. Convocados pelas crônicas de Nelson Rodrigues, os tricolores subiram as rampas do Maracanã. Nas arquibancadas, gerais e cadeiras, aconteceu uma tempestade de bandeiras tricolores e de pó-de-arroz. Os alvinegros também se faziam presentes do outro lado e confiavam no título, pois para eles só faltava um empate. Já o Fluminense precisava vencer, a todo custo.
As declarações dos jogadores aos trepidantes das rádios mostravam que a rivalidade estava à flor da pele. O ponta Zequinha, do Botafogo, afirmou: O Botafogo não perde essa decisão para o Fluminense de jeito nenhum. O lateral Marco Antônio, do Fluminense, declarou: Chegou a hora de ver quem é o bom. Eles falaram o campeonato inteiro, dizendo que as faixas já estavam prontas e tudo mais. Agora vão decidir com o Fluminense, o que não é bola e eles sabem disso.
O primeiro tempo foi um jogo estudado, uma partida de xadrez jogada entre as intermediárias. O único lance perigoso foi a cobrança de falta do tricolor Lula, que raspou na trave do goleiro alvinegro Ubirajara. O Botafogo sofreu uma baixa importante: Carlos Alberto se machucou em choque com Marco Antônio e teve que ser substituído por Mura. No intervalo, a apreensão tomava conta das mais de 140 mil almas presentes no Estádio Mário Filho.
Veio então o segundo tempo, trazendo os últimos 45 minutos do campeonato. O Fluminense lançou-se todo para o ataque: Zagallo pôs Flávio, o herói de 1969, no lugar de Didi. O Botafogo plantava-se na defesa, jogando com o regulamento. Mas seus contra-ataques levavam muito perigo. Aos 10, Zequinha teve boa chance, mas Assis o desarmou na hora exata. A cada minuto que se escoava, o Botafogo se aproximava da taça, e o Fluminense dela se distanciava. Aos 24 minutos, Assis derruba Paraguaio na entrada da área. Paulo Cézar Lima bate com violência, mas Félix voa e espalma a córner. Quanta emoção, quanta dramaticidade!
Faltavam dois minutos para o fim quando aconteceu a jogada que ficará para sempre na memória de todos. Oliveira centra da direita. Flávio empurra Brito. O zagueiro tricampeão no México cai dentro do gol. Marco Antônio dá o salto mais alto de sua carreira e encosta no goleiro Ubirajara. A bola sobra limpa para Lula, que a empurra para as redes. Aquela era a bola do campeonato. Gol! Gol do Fluminense! O árbitro José Marçal Filho corre para o centro do campo, confirmando o tento. Os jogadores botafoguenses reclamam muito. Carlos Roberto é expulso. Os tricolores, que nada têm a ver com isso, comemoram bastante.
O jogo termina, e o Fluminense de Zagallo é mesmo o campeão. O Velho Lobo, dispensado meses antes pelo Botafogo, não perdoa os dirigentes alvinegros. Ele declarou ao Jornal dos Sports: Essa foi uma vitória dupla porque foi sobre um clube, e não me refiro ao Botafogo em si, dirigido por homens que me apunhalaram pelas costas. Agora sim, estou vingado".
Décadas depois, um amigo deste escriba perguntaria a Jairzinho, craque alvinegro que não pôde jogar a decisão, se houve falta no lance fatídico. A resposta de Jairzinho entra para o folclore da batalha: Não foi uma falta; foram trinta faltas. O choro dos botafoguenses continua até hoje. Mas por que eles não se lembram do jogo do primeiro turno, daquele pênalti inventado sobre Jairzinho? Enfim, a discussão ocupará eternamente as esquinas e os botecos do Rio de Janeiro.
O que importa é o troféu de 1971. Ele sorri, feliz, pois repousará eternamente na Rua Álvaro Chaves, ao lado de tantos outros.
PC
Vídeo dos melhores momentos, pelo Canal 100 (reparem no canto da torcida tricolor - "olê, olá, o Fluminense tá botando pra quebrar!"):
Vídeo do gol de Lula:
Fontes de pesquisa bibliográfica:
- Canal 100.
- "Clássico Vovô", por Alexandre Mesquita e Jefferson Almeida.
- Clássicos do Fluminense, por Alexandre Magno Barreto Berwanger.
- "Clássico Vovô", por Alexandre Mesquita e Jefferson Almeida.
- Clássicos do Fluminense, por Alexandre Magno Barreto Berwanger.
- "Fluminense Football Club - Histórias, Conquistas e Glórias no Futebol", por Antonio Carlos Napoleão.
- Jornal dos Sports (edições de 19/04/1971 e 28/06/1971).
- Jornal do Brasil (edição de 29/06/1971).
- Jornal do Brasil (edição de 29/06/1971).
- Placar n. 58.
- RSSSF Brasil.
Fichas técnicas dos dois jogos citados:
Botafogo 1 x 0 Fluminense.
Primeiro turno do Campeonato Carioca de 1971.
Data: 18/04/1971.
Local: Maracanã.
Botafogo: Ubirajara Mota; Carlos Alberto Torres, Brito, Leônidas e Paulo Henrique; Carlos Roberto e Didinho; Zequinha (Roberto Carlos), Careca (Nini), Jairzinho e Paulo Cézar Lima. Técnico: Egídio Landolfi "Paraguaio".
Fluminense: Félix; Oliveira (Toninho), Galhardo (Paulo Lumumba), Assis e Marco Antônio; Denílson e Didi; Cafuringa, Flávio, Ivair e Lula. Técnico: Zagallo.
Gol: Paulo Cézar Lima, de pênalti, aos 18 minutos do primeiro tempo.
Árbitro: Carlos Costa.
Público: 99.991 pagantes (123.229 presentes).
Renda: CR$ 552.843,50.
Fluminense 1 x 0 Botafogo.
Última rodada do segundo turno do Campeonato Carioca de 1971.
Data: 27/06/1971.
Local: Maracanã.
Fluminense: Félix; Oliveira, Galhardo, Assis e Marco Antônio; Silveira e Didi (Flávio, no intervalo); Wilton (Cafuringa, aos 25 do segundo tempo), Cláudio Garcia, Ivair e Lula. Técnico: Zagallo.
Botafogo: Ubirajara Mota; Carlos Alberto Torres (Mura, aos 35 do primeiro tempo), Brito, Osmar e Paulo Henrique; Nei Conceição e Carlos Roberto; Zequinha (Paraguaio, aos 30 do segundo tempo), Nilson Dias, Careca e Paulo Cézar Lima. Técnico: Egídio Landolfi "Paraguaio".
Gol: Lula, aos 43 minutos do segundo tempo.
Árbitro: José Marçal Filho.
Expulsão: Carlos Roberto, do Botafogo, por reclamação, aos 43 minutos do segundo tempo.
Público: 142.339 pagantes (160.000 presentes).
Renda: CR$ 1.101.128,00.
Agradecimentos:
- Ao amigo Gabriel Antunes, pelas palavras a posteriori de Jairzinho sobre o lance fatídico.
- Ao amigo Marcelo Pitanga, em cujo acervo encontrei a foto que ilustra o post.
- À amiga Mylena Mattos, pela ajuda na pesquisa do acervo.
- Aos amigos Alexandre Magno Barreto Berwanger e Natália Lacerda, pela ajuda de sempre nas pesquisas históricas.
PC

