Mostrando postagens com marcador Nelson Mandela. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Nelson Mandela. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Nelson Mandela homenageado pelo Google

Doodle em homenagem a Nelson Mandela.

Hoje, o grande líder sul-africano Nelson Mandela completaria 96 anos, se estivesse vivo. E está recebendo uma justa homenagem do Google, com a exibição de algumas de suas frases mais inspiradoras.

A minha preferida, que já citei aqui algumas vezes, está lá: "A maior glória em viver não está em jamais cair, mas em nos levantar cada vez que caímos".

"Sempre parece impossível até ser feito" (Nelson Mandela)

Que as frases de Mandela inspirem a humanidade, hoje e sempre, para que deixemos estes dias de intolerância, de ódio, de aviões abatidos por mísseis e de guerras para trás.

PCFilho

sábado, 7 de dezembro de 2013

O Fluminense é um chato


Neste domingo, roeremos nossas unhas durante quase duas horas. É a última rodada do Campeonato Brasileiro, e se não bastasse o sofrimento do próprio jogo do Fluminense contra o Bahia, os tricolores precisam olhar também outros dois jogos, o Atlético Paranaense x Vasco em Joinville, e o São Paulo x Coritiba em Itu. Nem quero imaginar o drama que será.

Claro, um rebaixamento é muito ruim para um clube. Significa a perda não apenas do ano atual, como também do ano seguinte, a ser desperdiçado numa Série B ainda tecnicamente muito fraca. Então, por mais que saibamos que o Fluminense seguiu à risca a cartilha para cair, torceremos com todas as forças para que a queda não se concretize.

No domingo passado, com todos os resultados contra nós, cheguei a assimilar o rebaixamento como uma tragédia inevitável. Mas a semana passou e, claro, aflorou em mim aquele sentimento de que para o Fluminense o impossível não existe. Depois da Arrancada de 2009 - o maior milagre esportivo de toda a história - só duvidam do Fluminense os lorpas e os pascácios, como diria Nelson Rodrigues.

Caindo ou não, espero que tenha ficado claro para os torcedores e sócios que o Fluminense não pode continuar como está. O destino do Tricolor é ser perenemente glorioso, e não viver essa montanha-russa de emoções distintas e quedas abruptas de rendimento. Nós, torcedores do maior clube da Terra, fundador da Seleção Brasileira, precisamos reagir. Caindo ou não, repito, precisamos reagir. Estas ridículas patotas que se revezam no poder do Fluminense precisam ser afastadas, o quanto antes.

Se acontecer a tragédia, ouviremos as piadas sobre nossa falsa dívida (o leitor que ainda acha que o Fluminense "deve a Série B" é aconselhado a ler a matéria de hoje do Globoesporte.com), e elas entrarão por um ouvido e sairão pelo outro. Uns e outros vivem arrotando que nunca foram rebaixados, que time grande não cai, como se isto fosse uma imensa glória, maior que a própria conquista de um Campeonato Brasileiro.

A eles, respondo com uma sábia frase: "a maior glória em viver não está em jamais cair, mas em nos levantar cada vez que caímos". Sabem quem é o autor? O fabuloso homem que nos deixou essa semana. Tata Madiba para os seus milhões de íntimos, Nelson Mandela para a história.

E convenhamos: se há um único clube no futebol brasileiro que pode dizer que se levantou após cair, este clube é o Fluminense, que esteve na terceira divisão, e voltou de lá para gloriosamente levantar dois Campeonatos Brasileiros. Como escreveu Henfil em sua charge de dezembro de 1970, o Fluminense é um chato.

É isso. O Fluminense é um chato.

Que João de Deus e todos os demais santos nos ajudem.

PCFilho

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Noite de chuva no Rio de Janeiro

Vá em paz, Mandela!

Antes de sair de casa, ouvi o alerta de meu irmão: "vai chover muito". Concordei, mas não deixaria de ir por isso. Para ver Raquel, Claudinha e Lucas, grandes amigos de infância, vale correr qualquer risco. Ainda mais depois de tanto tempo.

No táxi, soube da triste notícia: morreu o grande Nelson Mandela, talvez a única unanimidade da Terra, e homem que um dia me fez acreditar que a humanidade tem jeito. O trânsito das sete e pouco da noite na Zona Sul do Rio de Janeiro tem irritado até os sujeitos mais calmos, como eu. Claudinha já esperava no Bar do Adão, e eu na São Clemente, andando a passos de lesma. "Quer saber? Vou continuar a pé mesmo, já estou perto". Recebi o troco dos vinte reais, e segui andando para a Dona Mariana, onde fica o Bar do Adão (com os melhores pastéis do Rio de Janeiro, vale dizer). Mesmo de táxi, um trajeto tão curto, do Leme a Botafogo, demorou 45 minutos. Nem em São Paulo deve ser assim.

Lucas ia se atrasar, Raquel chegou junto comigo. Enquanto botávamos o papo em dia, veio a esperada chuva. Muita água. Um susto com aquela explosão: foi uma lâmpada? A rua Dona Mariana logo virou rio Dona Mariana, afluente do São Clemente. Como não tem um bote, Lucas não iria mais, mesmo que conseguisse fugir do trabalho, uma pena. Me lembrei da épica madrugada de 5 para 6 de abril de 2010, quando, por causa da chuva, passei a noite dentro de um táxi, ilhado nas proximidades da Lagoa. Também me lembrei, claro, do espetacular 5 de dezembro de 2010: vinte e seis anos esperando para comemorar o Campeonato, e nós tricolores tivemos que celebrar na chuva. Exatos três anos depois do Fluminense x Guarani eterno, um novo temporal descia sobre a Cidade Maravilhosa.

A chuva enfim diminuiu, o nível da água na rua baixou, e lá pelas onze e meia pudemos ir embora. Nos despedimos, e Claudinha deixou o guarda-chuva velho comigo, já que iria de carro pra casa, enquanto eu ainda teria que caçar um táxi ou um ônibus. Na hora, brinquei com ela: "você já me deu presentes melhores".

Logo percebi que minha tarefa seria complicada. Nessas horas, os táxis cariocas desaparecem: os que passavam já tinham passageiros. O 592 nem passava. No ponto de ônibus, na Voluntários da Pátria, presenciei uma cena inusitada: o sujeito, com duas pizzas quentinhas na mão, mas sem ter como voltar pra casa, perguntou a um morador de rua: "tá com fome?". Sim, ele deu uma das pizzas ao pobre cidadão, e foi embora com a outra. Um minuto depois, voltou já sem a pizza restante, também entregue a um necessitado. Nelson Mandela morreu, mas a humanidade ainda tem jeito. Após ouvir meus parabéns, o sujeito foi embora, a pé, sabe-se lá para onde.

Os poucos táxis tinham passageiro. O 592, nada. Pensei em ligar pro Lucas, que mora ali perto e talvez já estivesse em casa. Mas já passava de meia-noite, complicado. Então me ocorreu a ideia, inspirada no generoso sujeito das pizzas. Ah, nem é tão longe... Viação Canela, por que não? Ainda chovia, mas eu estava com o guarda-chuva da Claudinha (retiro o que disse sobre presentes melhores).

Comecei a jornada timidamente, descendo a Voluntários, ainda olhando para a rua, na esperança de ver um reluzente 592 com "Leme" no letreiro. Atravesso a rua Nelson Mandela ("líder rebelde e presidente da África do Sul", diz a placa, como se ele tivesse sido só isso). Chego à praia de Botafogo, passo pela calçada do Mourisco, viro à direita e sigo em frente. Fora uma poça ou outra na calçada, o caminho está bom. Passo o primeiro túnel (há uma passagem de pedestre) e, na calçada da Casa Daros, me lembro que ainda não a visitei, e que preciso fazer isso. Ainda parei pra ver alguns itens da mini-exposição na parede externa do museu. No outro lado da rua, a bonita sede do Botafogo. Lembro que o Fluminense foi campeão ali, em 1948, contra o Vasco, no Torneio Municipal. O jovem Carlos Castilho fechou o gol, dizem.

Atravesso a passagem subterrânea, e estou na calçada do Rio Sul. Nos pontos, muita gente aguardando ônibus e táxis que simplesmente não aparecem. Escuto um "era melhor ter ficado no escritório" e um "com certeza" em resposta.

Agora, o túnel do Leme, onde moradores de rua dormem (com cobertores, mas sem pizza). Estou em Copacabana, na Princesa Isabel, e um táxi finalmente se oferece, piscando o farol. Mas agora é tarde. Continuo a pé mesmo, questão de honra, e pouco depois chego em casa. Esperando o elevador, mando mensagem à Claudinha avisando que cheguei bem, e ao olhar o celular constato que a caminhada durou exatos 42 minutos. Incrível: mesmo sob chuva, com poças no caminho, a volta a pé foi mais rápida que a ida de táxi. Agora afirmo com certeza: nem em São Paulo é assim.

Cansativo foi. Mas pelo menos já queimei as calorias do pastel de Sonho de Valsa (ou seria de Serenata de Amor, garçom?). Para ver aqueles três, faria tudo de novo, claro.

PCFilho

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Recordar é viver - Um time, um país

Johanesburgo, 24 de junho de 1995.

Às duas horas da tarde daquele sábado, o Ellis Park já estava lotado: 62 mil pessoas aguardavam ansiosas a final da Copa do Mundo de Rúgbi de 1995. Ainda faltava uma hora para o início do jogo entre o Springboks (a seleção da África do Sul) e o All Blacks (a seleção da Nova Zelândia). Os neozelandeses eram os grandes favoritos, pois contavam com as maiores estrelas do rúgbi mundial, incluindo o lendário Jonah Lomu, o Pelé do rúgbi. Mas a nação sul-africana, mais unida do que nunca, acreditava no milagre.

Para entender a grandeza do momento, é necessário voltar alguns anos no tempo. A África do Sul vivia o apartheid, regime de segregação racial mais cruel da face da Terra. A minoria branca, formada majoritariamente por bôeres, vivia nas ricas cidades. A maioria negra habitava os subúrbios, em condições desumanas. Os vagões dos trens eram separados por raças. As próprias ruas eram divididas entre ruas de brancos e ruas de negros. No documento do sujeito, aparecia a sua raça: branco, índio, mestiço ou negro. Dependendo da classificação, o sujeito tinha mais ou menos direitos. Dependendo da classificação, o sujeito era um cidadão, ou um marginal.

Nelson Mandela era um negro e, portanto, um marginal. Desde muito jovem, já demonstrava liderança e carisma. Em agosto de 1962, Nelson foi preso pelo regime, por fazer parte da oposição. Passaria os vinte e sete anos seguintes na prisão, junto com diversos outros líderes negros. Durante esse tempo, amadureceu a sua idéia de uma África do Sul unida, com brancos e negros convivendo pacificamente em um regime multirracial, em que todos possuíssem direitos iguais. Utopia, diziam todos ao seu redor. Afinal, se um dia a maioria negra conseguisse tomar o poder, provavelmente empreenderia uma vingança avassaladora contra os brancos, que passariam a odiar ainda mais os negros, num ciclo vicioso interminável. A idéia de Nelson era mesmo utópica, e nem mesmo os seus companheiros de luta conseguiam acreditar na possibilidade de ela se tornar uma realidade.

O rúgbi era o esporte preferido dos brancos na África do Sul, especialmente dos bôeres. Os negros preferiam o futebol, e particularmente odiavam o rúgbi, por ele ser um símbolo do sistema que os oprimia. Mais especificamente, o Springboks e seu uniforme verde-e-dourado eram muito odiados pelos negros. Cito um exemplo: em 1970, o All Blacks (seleção da Nova Zelândia) estava realizando uma excursão à África do Sul, e foi à cidade de Upington realizar uma partida contra o North West Cape, maior time local, orgulho dos bôeres da cidade. No pequeno estádio, com capacidade para nove mil pessoas, havia um pequeno setor para os negros, sob sol causticante. Nesse espaço, a torcida era entusiasmada, para os neozelandeses! O All Blacks massacrou a equipe local por 26 a 3, e os negros presentes vibraram muito com a derrota daqueles brancos gigantes que os humilhavam todos os dias.

Os negros odiavam os brancos, odiavam o Springboks, e odiavam também o seu uniforme verde-e-dourado, e também o hino nacional da África do Sul (Die Stem), e também a bandeira da África do Sul. Por sua vez, os brancos odiavam os negros, e a sua canção de liberdade (Nkosi Sikelele). Nelson Mandela, então, na condição de "terrorista número 1" da África do Sul, era o principal alvo do ódio branco. Eis o resumo do apartheid: duas nações vivendo em um mesmo espaço, odiando-se mutuamente.

Liderando uma das maiores revoluções da história da humanidade, cujos detalhes seria impossível descrever aqui, Nelson Mandela conseguiu estabelecer o regime democrático com que sonhara durante sua longa estadia na prisão. Em 1990, foi libertado, e em 1994, foi eleito presidente da África do Sul, nas primeiras eleições multirraciais da história do país. Mandela conseguiu não apenas convencer os brancos a aceitarem um governo de negros. Convenceu também os negros a aceitarem os brancos como parte da nova África do Sul. Uma das ferramentas utilizadas por Mandela foi exatamente o rúgbi. Com muita inteligência e muito carisma, ele conseguiu uma proeza. Convenceu os negros a não apenas deixar de odiar o Springboks. O mesmo uniforme verde-e-dourado, símbolo de tanta opressão para aquele povo, passou a ser amado por ele. Aquele primeiro sábado do inverno de 1995 testemunhou, pela primeira vez, a África do Sul verdadeiramente unida em torno de um mesmo objetivo.

Alguns símbolos do passado de dominação branca estavam extintos, como a bandeira nacional, que deu lugar a um belíssimo pavilhão multicolorido. Outros, como o hino nacional, haviam sido adaptados (o novo Hino Nacional, por insistência de Mandela, é um híbrido do Die Stem dos bôeres com o Nkosi Sikelele dos negros). Um símbolo do orgulho bôer havia sido mantido: o uniforme verde-e-dourado do Springboks. Com esse tipo de negociação, cedendo em alguns pontos, perdoando os erros do passado, é que Mandela conseguiu construir o país de seus sonhos.

A partida foi dramática. No rúgbi, a principal jogada é o try, que vale 5 pontos. Porém, as defesas de Springboks e All Blacks estavam tão bem dispostas que nenhuma das equipes conseguia um try. Assim, apenas chutes de pênaltis e dropkicks, valendo três pontos cada, fizeram girar o placar. Até o final do primeiro tempo, o sul-africano Joel Stransky tinha acertado três chutes no H, contra dois do neozelandês Andrew Mehrtens. Assim, o placar apontava: Springboks 9, All Blacks 6. No segundo tempo, Mehrtens conseguiu empatar, e o 9 a 9 levou a partida à prorrogação, pela primeira vez numa final de Copa do Mundo. Milhares sofriam atônitos nas arquibancadas. Milhões sofriam atônitos diante da TV.

O capitão sul-africano François Pienaar discursou para a sua tropa, no intervalo que antecedia o tempo extra: "Olhem em torno. Estão vendo aquelas bandeiras? Joguem para esse povo. É uma oportunidade única. Temos que fazer isso pela África do Sul. Vamos ser campeões do mundo!". Porém, a eloqüência de Pienaar não impediu que, no primeiro minuto da prorrogação, um chute de Mehrtens fizesse mais três pontos para o All Blacks: 12 a 9. O Springboks provavelmente teria que amargar o vice-campeonato.

Mas, no último minuto do primeiro tempo extra, Stransky cobrou outro pênalti alto, direto entre os postes: 12 a 12! E então veio o decisivo segundo tempo extra. A sete minutos do fim, Stransky deu o chute mais importante de sua vida. "Recebi a bola com precisão, e a chutei com muita suavidade. Ela estava mantendo a linha. Estava girando, mas sem se desviar nem um pouco. Nem olhei para ver se ela passaria por cima. Eu sabia, desde o momento em que saiu da ponta da minha bota, que não ia errar. E fiquei absolutamente extasiado!". Os seis minutos seguintes foram os mais longos da vida de cada sul-africano. Mas o Springboks conseguiu segurar o jogo, e soou o apito final. A África do Sul, pela primeira vez unida e multirracial, era mesmo a campeã mundial de rúgbi.

Um repórter se aproximou de François Pienaar no campo e perguntou: "Qual é a sensação de ter 62 mil torcedores apoiando vocês aqui no estádio?". O capitão do Springboks não poderia ter respondido melhor: "Não tivemos 62 mil torcedores nos apoiando. Tivemos 43 milhões de sul-africanos." A multidão aplaudiu feericamente.

Quando Nelson Mandela, vestido com o uniforme verde-e-dourado, e também com o boné do Springboks, subiu ao pódio para entregar a taça a François Pienaar, a África do Sul chorou. Não restou um rosto seco no Ellis Park. Não restou um rosto seco em todo o país.

"François, muito obrigado pelo que você fez por nosso país", disse Mandela, sua mão esquerda sobre o ombro direito de Pienaar, sua mão direita apertando a do capitão.

"Não, senhor Presidente. Eu que agradeço pelo que o senhor fez por nosso país", respondeu o capitão do Springboks.

O país irrompeu em comemorações, de norte a sul, de leste a oeste. Negros e brancos tomaram as ruas, e festejaram juntos. Celebraram o campeonato mundial, e celebraram o país unido. Comemoraram o heroísmo de Pienaar, e comemoraram o heroísmo de Mandela. Springboks, África do Sul. Um time, um país.

PC

(para ler a história completa desse jogo extraordinário, recomendo a leitura do livro "Conquistando o Inimigo - Nelson Mandela e o jogo que uniu a África do Sul", de John Carlin)