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sábado, 28 de julho de 2018

Flamengo, pague a Série B do Carioca!


Vez por outra, torcedores do Flamengo tentam zombar do Fluminense, bradando o famoso "Pague a Série B", em alusão a uma suposta dívida do Fluminense (que não existe, conforme já esclareci aqui). O mais curioso é que esse comportamento também revela um desconhecimento deles da história do próprio clube: há mais de 100 anos, o Flamengo "deve a Série B" do Campeonato Carioca, como demonstrarei abaixo.

O Campeonato Carioca de 1911 começou disputado por cinco clubes: America, Botafogo, Fluminense, Paysandu e Rio Cricket (o Flamengo era somente um clube de regatas, e ainda não tinha um time de futebol). No dia 25 de junho, uma briga generalizada interrompeu a partida entre Botafogo e America, no campo da rua Voluntários da Pátria. Abelardo Delamare deu um tapa na cara do americano Gabriel de Carvalho, e a Liga suspendeu o atleta alvinegro. Solidário com seu jogador, o Botafogo se retirou daquele Campeonato, ficando também de fora no ano seguinte.

Assim, o Campeonato de 1911 teve na verdade somente 4 clubes. A fórmula de disputa era de pontos corridos, em que o Fluminense venceu seus 6 jogos e sagrou-se campeão invicto. Porém, uma divergência sobre a escalação do time nos últimos jogos causou uma debandada: liderados por Alberto Borgerth, nove atletas tricolores resolveram se desligar do Fluminense - foram procurar o Flamengo, e convenceram o clube de regatas a ter uma seção terrestre (história que também já contei aqui - vide Os primórdios do Flamengo).

O Fluminense campeão de 1911: nove dos onze titulares debandaram.
Somente Oswaldo Gomes e James Calvert permaneceram no Fluminense

O Flamengo, na condição de clube novato no futebol, deveria iniciar sua trajetória, naturalmente, na segunda divisão do Campeonato Carioca de 1912. "Ora, a liga já tem compromissos com clubs antigos, que com a sua estadia na segunda divisão do campeonato passado adquiriram o direito incontestável de antiguidade para a promoção à primeira divisão, salvo se for modificado o regulamento dos campeonatos (...). Desse modo, se não houver alteração, a inclusão da 'équipe' do Flamengo será certamente na segunda divisão" - assim noticiou o prestigioso jornal "O Paiz", em sua edição de 15 de janeiro de 1912, cujo recorte pode ser conferido abaixo:
O Paiz, 15/01/1912.

Para agradar ao Flamengo, a Liga Metropolitana de Sports Athléticos resolveu então inchar a primeira divisão do Campeonato Carioca, dobrando seu tamanho para 8 clubes (os quatro da primeira divisão de 1911, os três primeiros colocados da segunda divisão de 1911 - Bangu, São Cristóvão e Mangueira - e o novato Flamengo, que acabara de se inscrever). Vale observar que nenhum dos outros clubes novatos naquela temporada teve o mesmo privilégio do Flamengo: o Esperança Football Club, por exemplo, disputou a segunda divisão, como o esperado. Em resumo: o Flamengo iniciou sua trajetória no futebol entrando pela janela na primeira divisão do Campeonato Carioca.

O Flamengo, com quase todo o timaço do Fluminense campeão de 1911, fez ótima campanha em sua estreia no Campeonato Carioca, somando 10 vitórias, 2 empates e 2 derrotas (uma delas para o Fluminense, que mesmo com os antigos reservas conseguiu vencer os desertores por 3 a 2, no primeiro Fla-Flu da história). O Flamengo acabou vice-campeão, dois pontos atrás do Paysandu, que teve 11 vitórias, 2 empates e 1 derrota, e sagrou-se campeão carioca de 1912.

Portanto, ao bradar "pague a Série B" para qualquer rival, o torcedor rubro-negro assina um atestado de que não conhece sequer a história de seu próprio clube, que começou sua jornada no futebol virando a mesa e cabulando a segunda divisão do Campeonato Carioca - esta, sim, uma dívida centenária, que jamais foi paga.

PCFilho

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

A maior vitória do Fluminense


Amigos, sabemos que, ao longo de mais de cem anos de história, o Fluminense acumulou triunfos espetaculares. Foram inúmeras vitórias no último minuto, viradas imprevisíveis, sacrifícios que valeram taças. O Fla-Flu de 1969, as finais dos Brasileiros de 1970 e 1984, a decisão da Copa Rio de 1952, o Carioca de 1995, e outros, muitos outros triunfos épicos.

Há, porém, uma vitória que está acima de todas as outras. Naquela tarde de inverno em 1912, o Tricolor lutou não apenas pelo resultado: lutou também pelo seu destino. Insisto: uma derrota naquele dia teria sido o fim do Fluminense.

No verão anterior, o Fluminense havia conquistado o Campeonato, invicto, e não só invicto, tendo vencido todos os jogos disputados. A brilhante conquista, entretanto, despertou vaidades adormecidas. Todos os titulares - à exceção de Oswaldo Gomes e James Calvert - resolveram sair, foram procurar outro clube para jogar o football. E o Fluminense foi obrigado a promover os reservas.

O Flamengo, até então só de Regatas, aceitou o time campeão, embora receoso. Os rubro-negros estavam satisfeitos apenas com o remo, eram felizes assim. Mas resolveram dar uma chance aos rapazes, desde que vestissem uma camisa diferente (a papagaio-vintém, com quatro grandes quadrados, dois pretos e dois vermelhos).

Na clara tarde de 7 de julho, ocorreu a batalha fatídica, no campo de Laranjeiras: pela primeira vez, os jogadores do Flamengo enfrentaram o seu antigo clube. Uma vitória rubro-negra, dos titulares contra os seus antigos reservas, e o Fluminense morreria ali, ou pouco depois.

E a batalha foi feroz: com apenas um minuto, o Fluminense fez 1 a 0, goal de Edward Calvert. Logo depois, o Flamengo empatou, com Arnaldo. No segundo tempo, James Calvert fez 2 a 1 para o Fluminense, cobrando falta (diziam as testemunhas que foi frango de Baena). Mas, faltando dois minutos para o fim, Píndaro disparou um belo chute, e o Flamengo mais uma vez empatou.

Quando todos davam como certo o empate, James Calvert cruza da esquerda, e surge Bartholomeu para marcar o gol da mais doce vitória tricolor. Um triunfo que jamais - repito, jamais - poderá ser vingado.

Nascia ali a vocação da eternidade.

PC
(texto publicado no PAVILHÃO TRICOLOR)

Leia também:

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

O primeiro Fla-Flu


Rio de Janeiro, 7 de julho de 1912.

Em 1911, o Fluminense levantara seu quinto campeonato carioca, vencendo todos os jogos do certame. Infelizmente, a campanha avassaladora despertou vaidades colossais entre os jogadores, e ocorreu então a cisão. Nove dos onze titulares campeões resolveram abandonar o clube, para fundar o departamento de futebol do Clube de Regatas do Flamengo. Apenas dois titulares permaneceram fiéis ao Tricolor: Oswaldo Gomes e James Calvert.

Sobre o episódio, Nelson Rodrigues escreveu, décadas mais tarde: "Eu gostaria de saber que gesto, ou palavra, ou ódio deflagrou a crise. Imagino bate-bocas homicidas. E não sei quantos Tricolores saíram para fundar o Flamengo. Hoje, nos grandes jogos, o Estádio Mário Filho é inundado pela multidão rubro-negra. O Flamengo tornou-se uma força da natureza e, repito, o Flamengo venta, chove, troveja, relampeja. Eis o que eu pergunto: - Os gatos pingados que se reuniram numa salinha imaginavam as potencialidades que estavam liberando? Há um parentesco óbvio entre o Fluminense e o Flamengo. E como este se gerou no ressentimento, eu diria que os dois são os irmãos Karamazov do futebol brasileiro."

Então chegara o dia do primeiro clássico: a clara tarde de 7 de julho de 1912. Todos esperavam um massacre do Flamengo sobre o Fluminense no campo de Laranjeiras. Afinal, era praticamente um duelo dos titulares campeões do ano anterior, contra os seus reservas. À equipe do Flamengo, por todas as razões, se impunha a sua vitória. [4]

As campanhas das equipes também justificavam o favoritismo rubro-negro. O Flamengo aplicara três sonoros banhos de bola: 16 a 2 no Mangueira, 6 a 3 no América e 7 a 4 no Bangu. Perdera apenas para o Paysandu, por 2 a 1. Já o Fluminense tropeçava, ainda golpeado pela cisão: derrotas de 2 a 1 para o Rio Cricket, e 5 a 0 para o Paysandu; uma vitória sobre o São Cristóvão (1 a 0); e um empate com o América (0 a 0).

O jogo começa e, já no primeiro minuto, acontece o momento sublime: Edward Calvert abre o placar para o Fluminense. Era o primeiro gol da história do Fla-Flu, que na época nem se chamava Fla-Flu ainda (o apelido perfeito seria criado pelo jornalista Mário Filho, décadas depois).

Logo em seguida, o Flamengo empatou, deixando o clássico eletrizante. Ali já estava a essência do Fla-Flu, em que cada minuto é melhor que o minuto que passou. E os minutos passavam, passavam, passavam, num ritmo ao mesmo tempo devagar e alucinante, como só acontece nos jogos entre Fluminense e Flamengo.

Aos 17 minutos do segundo tempo, a falta na entrada da área do Flamengo era a chance para o Fluminense. James Calvert, um dos dois heróis que resolveram ficar no Fluminense, cobra sem força, mas o goleiro Baena aceita. Era o primeiro frango homérico do Fla-Flu.

A meia-hora seguinte transcorreu da seguinte maneira: lentamente para os tricolores, rapidamente para os rubro-negros. Cada segundo que se escoava deixava o Fluminense mais perto do épico triunfo, e o Flamengo mais perto da humilhante derrota para os ex-reservas.

O rubro-negro lançou-se todo para a frente e, a dois minutos do fim, conseguiu o milagre do empate. Parecia então definido que o primeiro Fla-Flu de todos os tempos terminaria empatado.

Mas... abençoado seja o Fla-Flu, das emoções modificadas, em que cada minuto fica melhor que o minuto que passou. No último lance do match, acontece o lance que ficará para sempre na história. James Calvert penetra rapidamente pela esquerda, e cruza forte e rasteiro. Bartholomeu aparece na área e fuzila Baena: gol do Fluminense! Era a vitória, a doce e santa vitória! No último minuto, da melhor forma possível, o Fluminense vencia o Flamengo pela primeira vez.

Amigos, aquele foi um dos jogos mais importantes da história do Fluminense. Se o Flamengo tivesse vencido, a rivalidade morreria ali, de estalo. O Rubro-Negro, com os ex-titulares do Fluminense, herdaria as glórias do Tricolor, que seria apenas mais um clube na cidade. Mas o Fluminense venceu, e desde então cada Fla-Flu pára a cidade, o estado, e o país inteiro. A vitória tricolor gravou-se na carne e na alma flamengas. [6]

Os tricolores celebraram o triunfo como se este fosse um campeonato inteiro. Para os flamenguistas, a derrota realmente foi um campeonato inteiro: aqueles dois pontos perdidos lhes custariam o troféu, que foi para o Paysandu.

Eis a escalação de heróis: Laport; Luiz Maia e José Bello; Pernambuco, Mutzembecker e João Leal; Oswaldo Gomes, Bartholomeu, Berhmann, Edward Calvert e James Calvert. Estes onze homens salvaram a história do Fluminense Football Club. Eles obtiveram a vitória que jamais poderá ser vingada.

Desde então, Fluminense e Flamengo quebram lanças em batalhas sensacionais. A cada vez que entram em campo, é como se fosse naquela clara tarde de 7 de julho de 1912.

PC

Ficha técnica: Fluminense 3 x 2 Flamengo.
Campeonato Carioca de 1912.
Data: 07/07/1912.
Local: Laranjeiras.
Fluminense: Laport; Luiz Maia e José Bello; Pernambuco, Mutzembecker e João Leal; Oswaldo Gomes, Bartholomeu, Berhmann, Edward Calvert e James Calvert. Técnico: Charles Williams.
Flamengo: Baena; Píndaro e Nery; Cintra, Gilberto e Galo; Baiano, Arnaldo, Borgerth, Gustavo e Amarante. Técnico: Ground Commitee.
Árbitro: Frank Robinson.
Gols: Edward Calvert, James Calvert e Bartholomeu para o Fluminense; e Arnaldo e Píndaro para o Flamengo.

Ah, O Primeiro Clássico
(crônica de Nelson Rodrigues sobre a partida)

Eu estou imaginando o campo, as duas torcidas e os times. Mas para visualizar a partida temos de inseri-la no velho Rio, o Rio machadiano, o Rio que era uma abundante paisagem de gordas.

Na "belle époque", as mulheres iam para o futebol como se fossem para uma recepção no Itamarati. E elas demaiavam, vejam vocês, ainda tinham ataques. De vez em quando, faço a mim mesmo esta pergunta: - "Há quanto tempo não vejo uma mulher com ataque?" Elas matam e se matam, elas se atiram do sétimo andar, elas devoram um tubo de comprimidos. Mas não têm ataques, nem desmaiam. Ah, naquele tempo era lindo "ser histérica". E no futebol, quando entrava um gol, as mulheres desfaleciam, pareciam morrer em estertores. Os homens achavam sublime.

O primeiro Fla-Flu não era Fla-Flu. Só muito mais tarde é que Mário Filho inventou e promoveu a abreviação. O Flamengo fez tudo, tudo para ganhar este primeiro jogo. Outro dia, conversei com um velho torcedor, mais velho que o século. E ele, falando fino e baixinho (como uma criança que baixa num tenda espírita), contou o que foi o nascimento do maior clássico do futebol brasileiro. O Flamengo era o time campeão do Fluminense, sem Oswaldo Gomes.

Parece que na partida o futebol era um detalhe irrelevante ou mesmo nulo. Os dois times davam a sensação de que jogavam de navalha na liga. E, no entanto, houve um cínico e deslavado milagre: - ninguém saiu de maca, ninguém saiu de rabecão. Mas nunca se vira, em campo de futebol, ferocidade tamanha. E o Fluminense venceu.

Vejam como, histórica e psicologicamente, esse primeiro resultado seria decisivo. Se o FIamengo tivesse ganho, a rivalidade morreria, ali, de estalo. Mas a vitória tricolor gravou-se na carne e na alma flamengas.

E sempre que os dois se encontram, é como se o fizessem pela primeira vez.

Fontes:
[1] Blog Paixão pelo Flu, da amiga Natália.
[3] "Os irmãos Karamazov", de Nelson Rodrigues.
[4] Jornal "O Paiz", de 07/07/1912.
[6] Crônica "Ah, o Primeiro Clássico", de Nelson Rodrigues.