Mostrando postagens com marcador Mario Vitor. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Mario Vitor. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Neno


(texto de Mario Vitor Rodrigues)

Ajoelhados à beira da cama, colcha laranja quadriculada, estávamos eu, meu irmão, Gaia e Renata, se não me falha a memória. Aquele era o chamado "quarto da televisão". Nossos cotovelos pressionavam o fino colchão e as mãos entrelaçavam-se bem na altura do rosto. Quatro falsos anjinhos, entre risos envergonhados, brincando de pedir um milagre.

Faltavam quatro dias para o Natal de 1980, e o milagre não aconteceu.

Eu era bem menino. Morava na Itália na época, mas na minha lembrança ele sempre foi um avô carinhoso, que mesmo com idade avançada tolerava as macaquices impertinentes de um neto forçosamente desnaturado, o qual só encontrava a cada seis meses.

Uma das memórias mais enraizadas que tenho é a das vezes em que o barbeiro ia atendê-lo em seu apartamento na Avenida Atlântica. É gozado, mas ainda hoje sou capaz de sentir o perfume do creme de barbear e a quentura dos raios de sol que invadiam a varanda, enquanto a navalha deslizava pela pele branca e já frouxa do velho Neno. 

Nelson Rodrigues, taí um sujeito que exalava dignidade. Mesmo perto do final, recluso, não se deixava vencer pelo descaso consigo mesmo. Jamais de barba por fazer, maltrapilho ou desasseado.

A minha primeira camisa do Fluminense foi presente dele, acompanhada de um disco pequeno de vinil, cuja capa trazia o escudo do Tricolor e o verso ostentava a letra do hino. Minha nossa, quantas e quantas vezes apelei para o seu Gravatinha para que ele desse as caras no Maracanã. Súplicas por uma parceria, como se em algum momento ela houvesse falhado. Nunca falhou. Nunca na hora agá.

E que voz! O curioso é que, ainda hoje, se assisto a uma entrevista sua, imediatamente me pego franzindo a testa para ouvir melhor, como se não o reconhecesse. Mas logo entendo e absorvo cada palavra sem dificuldade. Acho uma graça a fleuma com que atestava suas genialidades.

No dia de hoje, o orgulho, este sentimento tão inútil, surge sem pedir licença. Me atropela.

Do Nelson autor? Sem dúvida. Por suas peças, seus títulos, suas crônicas irretocáveis. E por ter sido capaz de cravar um punhal naquele que talvez seja o nosso maior pecado, a hipocrisia, expondo assim as suas tripas, para que delas cuidássemos nós.

Do tricolor apaixonado que foi? Como não? Ainda hoje é referência para toda uma torcida que justamente o venera e dele se orgulha. Graças a um dom raro para lidar com as palavras, deu vida a um Fluminense mitológico, engrandeceu a própria seleção e até clubes rivais. De tal forma que esses outros torcedores, cujos respectivos times foram agraciados com suas pérolas perfeitas, vira e mexe demonstram um orgulho febril por tais passagens. Sentem-se como se fossem vencedores de uma loteria cujo bilhete premiado nunca foi raro para o Pó de Arroz.

Acima de tudo, porém, orgulho do avô. O vô Neno.

Orgulho e saudades.

domingo, 15 de dezembro de 2013

O Fluminense aos leões. Quem se importa?


A quem interessar possa, eu, presidente do Fluminense Football Club, declaro que:

1 - Somos o Fluminense Football Club. Não nos responsabilizamos pelas falhas alheias, mas honramos as nossas, assim como procuramos, desde nossa fundação, ser exemplo de competência, vanguarda, vitórias esportivas e valores para a sociedade.

2 - Em 1997, um presidente do Fluminense maculou a imagem do clube com um triste ato, compreensivelmente provocando a ira de muitos. Àquela época, é bom ressaltar, “viradas de mesa” ainda estavam em voga. Inúmeros foram os clubes que se beneficiaram desta forma. O Flu, porém, graças à explícita comemoração deste antidesportivo costume, foi tomado como pária pelo grande público e mídia especializada. Do dia para a noite, o bode expiatório.

3 - Em 1999 disputávamos a Terceira Divisão. Nada tivemos com Sandro Hiroshi, com o Botafogo tentar fugir do rebaixamento ganhando pontos que perdeu no campo, tampouco com o Gama recorrer à justiça comum. No ano seguinte, criaram um torneio nacional que substituísse o Brasileiro, desintegrando assim todas as divisões. O Flu, ainda assim, foi novamente tomado como o leproso máximo do desporto nacional. 

4 - Uma vez mais, o Tricolor nada tem a ver com o que hoje acontece envolvendo a Portuguesa de Desportos. Ainda assim, é alvo de críticas severas e injustas.

5 - O Fluminense conquistou, dentro de campo, 46 pontos. Com esta campanha, infelizmente, mas por sua única e exclusiva incompetência, foi rebaixado para a segunda divisão.

6 - O Fluminense está preparado para jogar a segunda divisão e não tentará qualquer artimanha jurídica para mudar esta realidade, pois entende que nada, nenhum fator extracampo, interferiu no seu desempenho.

7 - Sabidamente a Portuguesa de Desportos está sendo acusada de ter escalado indevidamente um jogador e corre risco de perder pontos que fatalmente a rebaixarão. Se assim for, o Tricolor entrará com um pedido para não jogar a primeira divisão em 2014. 

8 - O Fluminense é uma Instituição ciente de seus deveres, mas também de seus direitos. Se acaso precisar entrar na justiça, assim o fará, mas sempre quando se sentir legítima e legalmente lesado. Em qualquer outra situação, mesmo o ganho sendo legal, se não existir legitimidade que nos respalde, ignoraremos a possibilidade de recurso.

9 - Não estamos optando por pagar absolutamente nada. O Fluminense não é devedor. Somos, isto sim, co-fundadores do futebol no Brasil. Exigimos respeito de adversários e da mídia. Se assim não acontecer, se julgarmos que estamos sendo vítimas de uma campanha odiosa e injusta, aí sim, acionaremos nosso Departamento Jurídico para que seja preservada nossa imagem. Direito de expressão não garante ofensa à honra e imagem de uma Instituição centenária.

10 - A grandeza do Fluminense não se traduz apenas dentro de campo. Somos honrados, corretos, zeladores de conceitos aparentemente esquecidos por muitos. Assumimos nossos erros assim como pretendemos manter nossas virtudes. Assim foi no início, é agora e o será para sempre.


Caros, a última semana foi provavelmente a mais tétrica da centenária história tricolor. A mais tétrica, sem exageros.

Não me venham com queda para a “terceirona”, por favor. Não apenas o regulamento era esdrúxulo, como o momento, um clube absolutamente falido, sem jogadores nem dinheiro, apenas cumpria o que dele se esperava. Cair pelas tabelas era previsível. Ainda que nos machucasse, não nos surpreendia.

Desta vez foi diferente. Desta vez o Fluminense vinha de um título. Entrou em 2013 como atual campeão brasileiro, terminou como rebaixado para a segunda divisão. 

O modelo alardeado pelo presidente de pano como “vencedor”, novamente deixou escancaradas suas fétidas entranhas. Não é a toa que o Flu, entra ano, sai ano, briga para não cair. Dinheiro pode até comprar centroavante bichado e marqueteiro, mas não inteligência. Pode pagar pela consciência da massa, mas competência e profissionalismo, que é o que interessa, são outros quinhentos.

Não bastasse o rebaixamento, eis que veio a péssima notícia: a Portuguesa de Desportos escalou Héverton sem que pudesse tê-lo feito. 

O obscuro jogador entrou na última partida, contra o Grêmio, um jogo que não valia rigorosamente nada. Portanto, de acordo com o regulamento e a falta de bom senso, logo mais tem enormes chances de perder 4 pontos, sendo assim rebaixada para a segunda divisão. Quem sobreviverá na primeira? Nós.

Sobreviver é o termo exato. Quem viveu 1997 sabe do que estou falando.

Torci para que esta ou aquela atitude fosse tomada, mas Peter e Mario Bittencourt, dois advogados, infelizmente não me decepcionaram. Comportaram-se exatamente como imaginei.

Peter, não custa lembrar, presidente do Fluminense, ficou calado. Burrice? Covardia? Falta de preparo? Difícil dizer. Alguns poderão alegar que um pouco de cada. Eu, realmente, não sei dizer.

Já Mario Bittencourt ganhou seu momento de fama. Fez o que a maioria dos advogados adora fazer, que é professorar para ignorantes. Regurgitar técnicas e discursos como se fossem definitivos, ainda que, claro, estivessem defendendo a Lusa, tranquilamente poderiam inverter a lógica, cada palavra.

Peter e Mario, cada um a seu modo, demonstraram exatamente a distância que existe, hoje, entre o Fluminense e aqueles que o representam. 

Nada, nada mesmo será mais maléfico para o Tricolor que passar outro ano, e não só, mas décadas e décadas, sendo acusado de carregar um tapete debaixo do braço. E assusta constatar que a maioria não está nem aí. Como se a imagem da instituição, tão somente o que há de mais importante a ser preservado, não tivesse qualquer relevância. Como se, de fato, pudéssemos, todos nós, tricolores, ocupar cada mesa de bar na cidade e no Brasil, explicando o porquê de o Flu estar sendo injustiçado. Como se fosse razoável a ideia de que convenceríamos milhões, ou pelo menos grande parte das pessoas, de que o Flu nada tem a ver com incompetência lusitana, e que portanto temos mesmo que jogar na A após termos sido rebaixados para a B.

Uma hipótese absurda, que de todo modo foi soterrada quando Peter e Mario decidiram entrar no cenário como interessados no julgamento. Argumentar que o Flu não tem nada a ver com a questão já não é possível. 

Peter passou a semana inteira calado, permitindo que a grande mídia sapateasse em cima do Tricolor. Depois, resolveu abrir a boca para fazer um discurso tão pacato quanto burro, ao dizer que o Botafogo fez bem em 1999, quando foi atrás dos pontos que perdera no campo  para o São Paulo por 6 a 1, dado o imbróglio Sandro Hiroshi.

Ou seja, o Flu, acusado, até hoje e para todo o sempre, como o clube que precisa “pagar a série B” de 1999, uma virada de mesa provocada pelo Botafogo, já que o Tricolor jogava e ganhava a série C e jogaria a B, não tivesse o clube de General Severiano apelado ao tapetão, publicamente diz que a virada foi correta. 

O presidente deveria ter aproveitado o momento para esclarecer uma série de fatos e proteger a imagem do Tricolor, mas, bem ao contrário, elogiou o Botafogo, ignorando assim sua culpa. Um gênio.

Peter e Mario não devem saber, pois não vivem o mundo real, mas futebol se decide apenas, única e exclusivamente, em dois ambientes: no gramado e na mesa de bar. 

No campo, você ganha, empata ou perde, mas no boteco a partida continua. Não termina nunca. Os gols continuam a ser comemorados, os pênaltis não marcados são lamentados, os títulos festejados.

Peter e Mario não são torcedores de arquibancada. São, além de tudo, advogados, claramente daqueles que não se interessam pelo legítimo, mas apenas pela manipulação do legal.

Se Peter e Mario não me decepcionaram, pois agiram exatamente como esperava que fossem agir, o mesmo não posso dizer da torcida tricolor.

Entendo o torcedor do Fluminense. Claro que sim. Só de ler os inacreditavelmente bairristas discursos destilados pela ESPN, dá vontade mesmo de chutar tudo para o alto. O Fluminense, em parte justamente, paga o preço por uma série de comportamentos de fato lamentáveis, todos cristalizados na champagnota de Álvaro Barcellos. Mas isto não dá o direito a quem quer que seja, ainda mais em se tratando de um jornalista, formador de opinião, de sapatear em cima da honra de um clube centenário.

Ainda assim, por mais que nos irritem as injustas e por vezes absurdas palavras de parte da imprensa e torcedores adversários, não consigo compreender tamanha desfaçatez e cinismo de nossa parte.

Todos nós, de uma hora para outra, viramos advogados de porta de cadeia. Acreditamos piamente que a lei escrita é a que vale, que não são necessários julgamentos, que ponderações e nuances deste ou daquele caso, simplesmente não têm a menor importância.

Mas o principal, o que mais me incomoda, é a não-percepção do cenário que estamos desenhando para nós mesmos. 

Fomos rebaixados no campo, merecidamente rebaixados no campo, e possivelmente subiremos graças à escalação equivocada de um jogador desimportante, que teve atuação desimportante, em poucos minutos de um jogo desimportante. Pode ser legal a queda da Lusa? Sem dúvida que sim. Será legítima? Obviamente não.

Se o sujeito tiver um mínimo de honestidade intelectual e inverter a situação, colocando o Tricolor no lugar da Lusa, constatará o tamanho do absurdo.

O momento é desconfortável, mas o Fluminense e sua torcida estão fazendo de tudo para torná-lo insuportável.

Na série A, imerecidamente, ou na B, com louvor, o Tricolor mais uma vez terá seu nome jogado no lixo.

O presidente não se importa, o advogado não se importa, e, ao que parece, nem mesmo sua torcida.

Que pena.

(*) Este texto começa com uma carta que deveria ter sido divulgada para o grande público. Jamais foi redigida. Jamais seria redigida por quem hoje comanda o Fluminense.

(Mario Vitor Rodrigues, escritor e torcedor do Fluminense, já colaborou outras vezes com este blog.)

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Inveja de quem chora

(por Mario Vitor Rodrigues)

Eis que aconteceu o esperado. O esperado, repito. Ninguém, honestamente, desconsiderava a chance de mais um rebaixamento tricolor, o quarto e mais vergonhoso de sua história. Bem ao contrário, aliás, o torcedor do Fluminense acordou, neste último domingo, como que se preparando para o pior. Torcendo, esperançoso, claro que sim, afinal é de sua natureza, mas era pesado o fardo de um ano inteiro, inteirinho, repleto de motivos que o fizessem colocar os pés no duro e frio chão.

O Tricolor, liderado por uma miríade de amadores, acima de todos seu insensatamente incensado Presidente, desde dezembro do ano passado anunciava vocação para escolher caminhos equivocados.

Primeiro, quando, ao invés de fazer a leitura correta, ou seja, de que o time precisava de reforços, pois conquistara o Brasileiro apresentando futebol sofrível, além disto para aumentar a competitividade dentro do elenco, jamais demonstrar-se satisfeito com o título nacional, mas faminto, pela América e pelo Mundo (raciocínio obrigatório em qualquer clube que se diz grande), optou por cristalizar a “família Abel”.

Depois, já explícita esta cretina e fracassada política, fazendo jogos e campanhas ridículas, principalmente na Libertadores, ainda assim ter chafurdado na soberba de não mudar o curso das coisas. 

É sintomático, típico de quem, insisto, não pensa grande. Tiveram pudores para admitir o absoluto e colossal erro de planejamento. No fundo, devem ter pensado “tudo bem, ganhamos o Brasileiro no ano passado, este ano a gente leva na maciota, quem sabe beliscamos uma vaga na Libertadores, vida que segue”.

A arrogância do amador sempre é seu maior pecado. Mais até que sua incapacidade. O incapaz, se tiver caráter, saberá reconhecer suas limitações. O arrogante, não. O limitado, quando se acha o tal, teima, insiste e, pior, às vezes, para não deixar dúvidas de que está no comando, aprofunda suas más escolhas.

Assim, por quê não vender Wellington Nem? Não era necessário, ninguém pagou multa rescisória e o jogador não queria sair, mas e daí? 

Por quê não vender Thiago Neves? Já não é aquele de 2008, a torcida reclama bastante dele e ainda vale uma grana. 

Deco decidiu se aposentar? Talvez ele já estivesse aposentado desde o meio do ano passado, mas, vá lá, preciso colocar alguém no seu lugar. Quem? Felipe. Afinal, se Deco tem 36 e encerrou a carreira, nada como trazer alguém de 36 que ainda não o fez.

Porém, ironias à parte, futebolisticamente nada foi pior, mais criminoso e sentenciador, que, ao demitirem Abel Braga, não terem imediatamente reconduzido Muricy ao comando da equipe. Nada. O Fluminense começou a construir seu descenso ali.

Muricy, me lembro bem, à época, perguntando se voltaria ao Flu, respondeu de maneira cristalina “Por quê não?”. Seria uma medida tranquila, não traria maiores traumas internos, um técnico vitorioso que já conhecia bem o elenco. Era acertar sua volta e começar a remodelar o elenco para 2014.

Mas não. Muricy não foi opção. Muricy, afinal, falou sobre ratos. Está aí, meus caros, que fique de lição para todos nós: ratos alimentam um rancor danado. Ratos preferem afundar o barco a perdoar uma verdade dita.

Teria uma dificuldade enorme e seria extremamente doloroso elencar todas as cretinices cuidadosamente lapidadas por Peter Siemsen, Celso Barros, Rodrigo Caetano, Marcelo Teixeira, Sandrão, Flusócio e seus aliados políticos, dentre os quais Ideal Tricolor e Tricolor de Coração, mas que não reste dúvida: são estes os donos do tetra-rebaixamento.

Ainda ontem, assisti a cenas de torcedores chorando por nossa derrocada. Choravam copiosamente, demonstravam dor e sofrimento.

Senti inveja.

Inveja, este sentimento tido como repulsivo, mas no fundo tão puro quanto o próprio amor. Sim, quanto o próprio. Da mesma forma que não somos capazes de decidir por quem vamos nos apaixonar, também não podemos pré-determinar o desejo de ser o outro. Simplesmente acontece.

Ontem, comigo, foi assim.

Ao ver tricolores chorando, lamentei por mim.

Já não consigo mais.

Tenho muito nítido, cada vez mais e de forma especialmente dolorosa, o quão malfadado está o Fluminense sob o comando destes que acabaram de se reeleger para mais três anos. Chorar, portanto, é impossível.

O choro não é prerrogativa apenas de quem ama. Amor ao Tricolor jamais me faltou nem faltará enquanto ainda estiver por aqui.

O choro é de quem acredita.

E eu não acredito.

Ou o Fluminense é assumido com coragem, por gente que encare de vez as mudanças fundamentais que precisam ser feitas, ou não acredito.

E não acredito.

(Mario Vitor Rodrigues já colaborou outras vezes com este blog)

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Culpados somos nós

(por Mario Vitor Rodrigues)

Eis que o ioiô, ao que tudo indica, quebrou. Não é algo raro. Trata-se de um brinquedo perigoso. Se o sujeito calcula errado a altura ele bate no chão e se espatifa mesmo. 

Assim como quem brinca de ioiô não se surpreende quando isto acontece, o torcedor tricolor não pode se surpreender com mais um rebaixamento. Afinal, o Flu, ano após ano, alterna bons e pífios desempenhos. Sobe e desce. Por 4 vezes, desde que o Campeonato é disputado em pontos corridos, escapou do pior. Desta vez, repito, ao que tudo indica, não. O ioiô quebrou.

Culpa é um termo que de fato não me agrada. Me faz pensar no doentio discurso católico que impõe peso e penitências em absolutamente tudo. Dependendo do prisma, porém, é importante entendermos o culpado ou culpados, quando algo não funciona como deveria. Neste caso é fundamental, para que sejamos capazes de entender o caminho a seguir. Ou, pelo menos, de cobrar para que sigam este caminho.

Quem são os culpados pelo atual momento do Fluminense?

Para responder a esta pergunta, antes é necessário definir a amplitude do termo “atual”. Se alguém, por exemplo, estabelecer que atual dura uma década, precisamente desde que Celso Barros e o vergonhoso acerto com a Unimed começaram a ganhar mais e mais poder, estará coberto de razão.

Se for este o referencial, então a lista deve englobar todos que passaram pelas gestões neste período. Dos presidentes aos vices. Dos conselheiros aos colaboradores. Todos que, enfim, tiveram a oportunidade de reconstruir o Clube, mas preferiram afundá-lo numa roleta russa nefasta. Todos que deitaram os torcedores nesta realidade irreal, uma grandeza que não existe e que não poderia mesmo existir. Todos, portanto, que apostaram no atalho ao invés do trabalho.

Já, se “atual” tiver o significado de sempre, ou seja, se estivermos falando da gestão capitaneada por Peter Siemsen, identificar os atores principais não é difícil.

Começando pelo próprio Presidente. 

Vejam bem, Peter Siemsen é o Presidente. Se, ao acordar amanhã, decidir revolucionar o Tricolor, poderá fazê-lo. Tem poder e legitimidade para tal.

Por esta razão, Peter Siemsen é, sem a menor sombra de dúvidas, o maior culpado por tudo que aconteceu em 2013, o ano mais vergonhoso da história do Fluminense Football Club. Ano em que seremos, muito provavelmente, o único clube do planeta (exceção ao Manchester City no longínquo 1938) a ganhar um campeonato nacional numa temporada para depois ser rebaixado na seguinte.

Rodrigo Caetano, claro, tem toda culpa possível. Principalmente por conivência. Idem para o incensado Marcelo Teixeira.

O tal de Sandrão ter ficado por tanto tempo como Vice de Futebol e Celso Barros nunca ter tido tanto poder quanto agora, são outros crimes imperdoáveis.

Peter poderia ter evitado, intercedido, determinado mudanças. Mas não fez. Foi coerente com sua cretina promessa de campanha, uma das poucas que cumpriu: abandonar o futebol nas mãos de Celso Barros.

O resto, do deslumbramento com o título, passando pela arrogância administrativa, a inexistente campanha de reforços, não terem optado pela volta de Muricy, dentre tantas outras situações, deixo para vocês. Funcionou como um efeito dominó. Um previsível efeito dominó.

Outro grande culpado atende por um único nome, mas não se trata de uma pessoa.

O grupo Flusócio, com sua máquina marqueteira dedicada a criar imagens fictícias do na realidade amador e incompetente Presidente, e a vender um fictício Fluminense para seus torcedores, é o câncer que assola o Tricolor hoje em dia.

Um exército de despreparados que brincam de senhorios, a Flusócio lidera uma pavorosa aliança com outros grupelhos interessados somente em rodear o poder e mesmo a campanha que apregoa o silêncio nas arquibancadas.

Não existe voz dissonante no atual universo tricolor. Não se pode criticar. Não se pode vaiar. Só é possível aplaudir. Só é aceito o modelo argentinizado de torcer. Aquele burro, incessante, que brada músicas românticas independente do que aconteça no campo. A cadência letárgica dos cânticos, tão nociva para os jogadores, é necessária para mesmerizar os torcedores.

Jamais defendi violência ou incentivei quebradeira. Não farei isto agora. Mas é sintomático que o Tricolor, virtual rebaixado, não tenha sido reclamado por seu povo.

Ninguém protesta, ninguém grita, critica ou questiona. Pasmaceira Football Club.

É sintomático, insisto.

O Fluminense jamais correu tanto perigo, desde sua fundação. Nunca.

Não por ser presidido por um Presidente fraco e incapaz. Isto não é inédito em nossa história.

Tampouco ver-se engolfado por uma massa de arrogantes com mente estreita. Também este não é um aspecto novo.

Mas pela frouxidão que todos nós demonstramos.

Pelo poder entregue na mão destes mesmos infelizes. Um endosso renovado e inequívoco, ainda poucos dias atrás.

Esquizofrenia? Não querer enxergar a realidade? Preguiça em ouvir um discurso contrário? Falta de coragem para questionar e caminhar no sentido oposto?

Não sei. Talvez um pouco de tudo.

De uma coisa, porém, tenho certeza: a culpa é toda nossa.

(Mario Vitor Rodrigues já colaborou outras vezes com este blog.)

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Vada a bordo, torcida!

carta aberta à torcida do Fluminense
(por Mario Vitor Rodrigues)



Aconteceu em 13 de janeiro de 2012. Um transatlântico de nome Costa Concordia naufragou na região da Toscana, após chocar-se com rochas próximas à ilha de Giglio. Mais de 32 pessoas morreram na tragédia, porém o que de fato encimou os jornais, naqueles dias, foi a absurda postura do então Comandante Francesco Schettino.

Evidências de que estava com uma mulher na ponte de comando no momento da colisão, e de ter mentido ao colocar-se no interior do navio quando na verdade fugia de bote, até hoje só retumbam menos que o "vada a bordo, cazzo!", vociferado em conversa telefônica por Gregorio De Falco, Comandante da Capitania, ao covarde Schettino.

Vada a bordo, para os pouco entendidos na mais bela das línguas, significa, literalmente, "suba a bordo". Na prática, De Falco dizia ao fujão comandante para voltar ao navio. Quanto ao cazzo, isto mesmo, aquele ponto de exclamação universalmente consagrado.

Peter Siemsen, atual Presidente do Fluminense, não merece ser totalmente comparado a Schettino, e de todo modo esta carta não tem como destinatário qualquer Comandante, covarde ou não.

Interessado pelos rumos políticos do clube desde que compreendi o quanto fora de campo decidem-se as disputas dentro do dito cujo, pelo abismo nos resultados esportivos entre clubes mal e bem estruturados, devo dizer que Peter nunca me enganou.

E, cá para nós, seria injusto afirmar que pensou em enganar alguém.

Desde antes do pleito que o levou ao topo do poder tricolor, o atual Presidente do Fluminense declarou, para quem quisesse ouvir, sobre seu comprometimento com a Unimed. Ora, ora, qualquer um, digo, qualquer candidato que escancara orgulhosamente o desejo de manter estreitos os laços com Celso Barros, no fundo está antecipando a pasmaceira, institucionalizando a mesmice, endossando a contínua prostituição do clube que pretende presidir.

Além disso, mesmo que não tivesse alardeado suas vazias pretensões, Peter não me parece ser daqueles sujeitos firmes, destemidos, interessados em comprar uma boa briga, com coragem para enfiar as mãos nas entranhas da latrina e determinar as mudanças necessárias, por traumáticas e difíceis que estas possam ser ou parecer.

Peter nunca me enganou, disse acima, e não será agora que conseguirá.

Antes de me dirigir àqueles que de fato interessam, preciso abrir um parênteses: Deley nunca me enganou, e não será agora que conseguirá.

A diferença entre a patota que apoia Deley, outrora aliada de Peter, e aquela hoje na situação, é rigorosamente nenhuma.

Sinto muito, mas é isto que acontece quando você assume um mandato, fica três anos no poder e fundamentalmente não promove qualquer transformação relevante.

Se, antes da eleição, Peter Siemsen era um óbvio produto de marketing, uma pérola que reluzia aos olhos dos incautos perante o bolor político tão característico em Álvaro Chaves, hoje em dia nem palha de aço dá jeito.

Não, não me emociona o "tapa" condominial pelo qual passou o Clube. Este merece ressalvas e de todo modo é muito pouco. 

Na verdade inexistiu o incremento estrutural esperado - CT foi promessa de campanha -, o futebol jamais viu-se tão abandonado nas mãos de Celso Barros, jogadores foram vendidos desnecessariamente, fora de hora e sem reposições à altura, silenciosamente aceitou-se uma acachapante preferência da Adidas pelo Flamengo, o contrato com o Maracanã traduz o pensamento pequeno de quem contenta-se com pouco, Xerém prossegue vivendo de uma imagem calcada no ufanismo de alguns e por aí vai. A lista é grande, mas não posso deixar de citar, além da subserviência ao dito patrocinador, outro crasso erro de gestão na era Peter Siemsen: abarrotar o Fluminense com uma garotada despreparada, que jamais teria condição de assumir cargos de ponta em empresas de altíssimo nível.

Assim, dizia, a diferença entre Deley e Peter é nula. Ambos engalfinham-se para ver quem será a dadivosa consorte de Celso Barros. Um já é. O outro quer ser.

Esta carta, vamos a ela, tem como destinatários os verdadeiros torcedores do Fluminense, não seus cafetões ou quem se locupleta dele.

Meu recado é para quem até teme, mas sabe ser inevitável - e já demorado - o momento da transformação.

Ignoro aqueles apenas focados na ciranda do poder fajuto, os vários grupos políticos que a cada dois meses mudam de lado, que hoje criticam, mas amanhã estarão felizes e sorridentes aninhados no colo de quem der as cartas.

Tampouco estou interessado nos torcedores esquecidos de sua paixão, que hoje vão ao estádio mais preocupados em interpretar um papel, a gritar com objetivos outros que não o de apoiar o time, que vaiam ou aplaudem por doutrina, jamais com o coração. Mil vezes uma vaia honesta aos apupos orquestrados, digo eu, mil vezes.

Não, meu foco são os torcedores do Fluminense corajosos, que não preferem o atalho.

Digo a vocês, com enorme pesar, que o futuro do Tricolor é tétrico. Não consigo enxergá-lo. Nada que não possa ser modificado, obviamente, mas não será agora, não será tão cedo.

Prevejo mais três anos de um autêntico movimento ioiô dentro de campo, três longuíssimos anos reféns da quantidade de bufunfa ministrada pelo mecenas, para então podermos sonhar, até mesmo conquistar títulos esporádicos que nos convençam do quanto somos falsamente enormes.

A obscura montanha de dinheiro será capaz de criar uma já conhecida pujança biônica, porém jamais de fincar as bases para um clube realmente forte e perenemente saudável no âmbito gerencial.

E de vez em quando, claro, nem mesmo a dinheirama será capaz de vencer a cretinice, o despreparo e a incompetência. Como aliás acontece agora.

Rebaixamento? Como sempre, pois é movimento involuntário, torcerei loucamente para que o pior não aconteça dentro de campo, mas sei que fora dele a desgraça já está consumada.

Não, o pior não é cair. O pior é constatar que a cada dois anos, em média, você briga para não cair. A frequência não deixa dúvidas: algo está errado. Peter, Deley, Horcades, Fischel, todos são assustadoramente medíocres e não seriam melhores presidentes se dirigissem o Real Madrid ou o Barcelona.

O problema é outro.

O problema, o câncer que nos consome, é nossa total e absoluta pasmaceira. O auto-convencimento de que não somos, nem seremos capazes de sobreviver e ter sucesso sem o farto dinheiro caprichoso de um mimado malfeitor.

A verdade é outra. A realidade é que o trabalho pode e algum dia deverá ser realizado, sob pena de um apequenamento irreversível.

Eu, particularmente, trocaria todos (repito, todos) os títulos conquistados nos últimos anos por uma década (sim, dez) sem gritar "campeão!", com o compromisso de que ao final deste período tivesse o Fluminense uma arena própria, o melhor CT do Brasil, um clube gerenciado fora das Laranjeiras e o atual modelo político implodido via mudanças estatutárias. O sucesso dentro de campo viria naturalmente. Naturalmente, podem acreditar.

Se vislumbro este cenário? Não. Nem de longe. Pelo contrário, a renovação política no Fluminense só me faz acreditar que o buraco não tem fim.

Hoje em dia não existe um único nome no Clube que me faça sonhar, mas sobram pulhas grotescos, janotinhas deslumbrados e uma gentalha derrotada na alma, que encara o Flu como uma velha revista pornográfica necessária para seu desafogo.

Qual é a saída? Não sei.

Talvez, ter a real noção do abismo seja um bom início.

Mas seria bom se os interessados em torcer para um Flu verdadeiramente grande começassem a se coçar.

Alguém?