Amigos, apesar da vitória por 3 a 0 sobre o Nacional-PB, pela Copa do Brasil, o técnico René Simões foi demitido do Fluminense. Um amigo influente havia me avisado, na semana passada: "O René está com os dias contados". Eu, na minha ingenuidade, não quis acreditar que a diretoria tricolor agiria assim. Como os dirigentes têm memória curta, meu Deus! Há três meses, o bigodudo era endeusado em Álvaro Chaves. O que mais se ouvia em Laranjeiras era: "René nos salvou da catástrofe". Hoje, após uma simples perda de Taça Guanabara, ele é enforcado como um Tiradentes de Inconfidência Mineira.
Os dirigentes brasileiros não aprendem que o segredo do sucesso no futebol é a continuidade do trabalho. No primeiro sinal de insucesso, crucificam o treinador, como se ele fosse o culpado de todos os males. À exceção do São Paulo FC, todos os clubes grandes brasileiros são dirigidos de forma amadora. Não é coincidência que o SPFC seja o atual tricampeão nacional: é mera consequência do trabalho sério e profissional. Se o futebol brasileiro fosse o romance de Saramago, todos os clubes seriam acometidos pela epidemia de cegueira, à exceção do tricolor paulista, que seria a mulher do médico, única habitante imune à doença.
Com o elenco ainda em processo de montagem, como demonstra a chegada de Fred ontem, René é sacado do cargo de treinador. Isso para mim é um contra-senso. Explico: se o plantel ainda está em construção, a culpa dos insucessos não pode ser do técnico. Portanto, considero a demissão um erro grave, e um desrespeito aos serviços prestados pelo treinador. Mas, infelizmente, ela é um fato, de modo que precisamos pensar no substituto de René Simões.
Espero que seja mesmo o Carlos Alberto Parreira, que já tem ajudado o Fluminense através da parceria com a Traffic. O pé-de-uva estava em Álvaro Chaves em 1970 e 1984, de modo que sua chegada em 2009 só pode ser comemorada. Afinal, já escrevi aqui que, com Parreira, o tricampeonato nacional será nosso. Amém!
PC
sexta-feira, 6 de março de 2009
quinta-feira, 5 de março de 2009
Só Ronaldinho salva

Amigos, que tristeza é voltar a acompanhar a Copa do Brasil depois de dois anos no Olimpo da Libertadores! Não quero desmerecer o segundo mais importante torneio nacional, mas, de fato, o nível é baixíssimo.
Flamengo e Ivinhema (quem?) abriram suas campanhas na edição de 2009 da competição e, sem dó de chutar cachorro morto, o Rubro-Negro goleou e avançou para a próxima fase, eliminando a necessidade de um segundo jogo. Estreia de uma nova maneira de jogar, mas a pelada de ontem não serve como teste para as mexidas do Mestre Cuca; pelo menos deu um pouco de ânimo ao elenco que vinha sofrendo com salários atrasados e com a derrota para o Resende.
Mas os holofotes e microfones (principalmente os microfones) estavam todos voltados para o retorno do Fenômeno aos gramados. Não importava se estava jogando pelo Corinthians e não pelo Flamengo. Não importavam as noitadas, que algumas vezes acabavam travestidas de confusão. Não importava nem se ele ia entrar em campo. Sua presença no banco de reservas já era a prova de que, mais uma vez, o Maior Artilheiro de Todas as Copas superava um duro golpe que a vida lhe aplicara.
Ele até entrou em campo, mas não ajudou em nada o seu time, que já estava classificado para a próxima fase. Quem se importou? Só mesmo os jogadores do Itumbiara, que foram eliminados. Até mesmo sua torcida queria mesmo era testemunhar a volta do craque.
O jogo até que prometia destoar das demais peladas Brasil a fora; o duelo entre o Todo-Poderoso Timão contra a Seleção Sub-40 de Goiás (plágio do “Pisando na Bola”, mas não pude resistir), liderada por Túlio Maravilha e Denílson tinha tudo para ser um grande embate. Mas depois de ver o Rei das Firulas pisando na bola, desisti. É só a volta do Ronaldinho e nada mais.
Em tempo: mesmo sem motivação direta para acompanhar a Libertadores, sempre é bom matar as saudades. Destaco a vitória do Sport, que entrou como a quarta força de seu grupo e agora é líder, com aproveitamento perfeito e ontem bateu o atual campeão do torneio; e a nova expulsão do atacante cruzeirense Kléber, que mantém a rotina joga-toma cartão vermelho-cumpre suspensão.
rafs
quarta-feira, 4 de março de 2009
Botafogo 0, Santos 4
Amigos, ontem dois eventos espetaculares dividiram a minha atenção. Nos Estados Unidos, Martin Luther King, o líder do movimento pelos direitos civis naquele país, fez um discurso comovente. Vejam o título do falatório: "Eu tenho um sonho". Um começo lírico ou, por outra, um começo épico! Após dirigir uma marcha pacífica do monumento a Washington até o Lincoln Memorial, ele proferiu o mais bonito discurso de todos os tempos. As senhoras presentes choravam tanto que as autoridades locais pensaram se tratar de uma enchente. Também os homens choraram, certamente. Eis o trecho que mais me comoveu: "Este não é o momento para descansar no luxo refrescante ou tomar o remédio tranquilizante do gradualismo. Agora é o tempo para transformar em realidade as promessas de democracia. Agora é o tempo para subir do vale das trevas da segregação ao caminho iluminado pelo sol da justiça racial. Agora é o tempo para erguer nossa nação das areias movediças da injustiça racial para a pedra sólida da fraternidade. Agora é o tempo para fazer da justiça uma realidade para todos os filhos de Deus". Que belas palavras as desse homem!
No início eu escrevi que foram dois os fatos de ontem que me chamaram a atenção. O outro, evidentemente, foi a semifinal da Taça Libertadores de 1963. No Maracanã, Santos e Botafogo fizeram um desses jogos imortais. No quadro de General Severiano, jogaram Manga; Joel, Zé Carlos, Nílton Santos e Rildo; Aírton e Élton; Garrincha, Amoroso, Quarentinha e Zagallo. Já o quadro da Vila Belmiro foi a campo com Gilmar; Geraldino, Mauro, Calvet e Dalmo; Zito e Lima; Dorval, Coutinho, Pelé e Pepe. Amigos, vê-se que boa parte do escrete verde-amarelo bicampeão no Chile estava em campo.
O Santos é o campeão de tudo, da Taça Brasil, do Campeonato Paulista, do Rio-São Paulo, e da própria Taça Libertadores. Mas o Botafogo não fica atrás: o alvinegro carioca é um dos times mais assombrosos da face da Terra. Tanto que, mesmo sem o Mané, arrancou um empate em 1 a 1 no primeiro jogo da semifinal, em pleno Pacaembu. Vale lembrar que o Pacaembu tem sido o terror dos clubes cariocas. O Maracanã está lotado, e a torcida da estrela solitária deposita suas esperanças no retorno de Mané Garrincha.
Aos onze minutos, ocorre o primeiro lance magistral: Pelé recebe a bola na entrada da área, a espera quicar e, de primeira, encobre o goleiro Manga. O primeiro golaço do Rei anunciava uma atuação divina. Quatro minutos depois, a bola é alçada na área e o craque voa, no tempo certo, para desferir a cabeçada mortal: Santos 2 a 0, segundo de Pelé. Aos 33 do primeiro tempo, mais uma vez Nossa Majestade rompe a defesa botafoguense, e é derrubado pelo goleiro Manga: pênalti insofismável. O próprio Pelé converte a penalidade em gol. Em menos de quarenta minutos, o camisa 10 fez três gols. O melhor jogador do mundo em todos os tempos teve a sua melhor atuação. O futebol nunca viu nada tão assombroso, amigos. A própria torcida botafoguense, vítima do magnífico baile, aplaudia o Rei, se curvando à Majestade. Afinal, Pelé joga pelo Santos, mas é patrimônio do Brasil.
Lima fez o quarto gol santista, no segundo tempo, fechando o placar em 4 a 0. O Santos ainda encarará o argentino Boca Juniors, na final do torneio, mas não há dúvidas: será o grande bicampeão. Nada, repito, nada parará esse time com cara de seleção. Os idiotas da objetividade dirão que estou exagerando, que não se deve exaltar tanto assim a constelação do Santos. Dirão que o Botafogo não jogou bem. Eu contesto: o Botafogo viveu hoje um dos seus grandes momentos. O alvinegro carioca é o segundo melhor time de futebol do mundo. Só não consegue vencer o Santos, porque o Santos é invencível.
Os meus personagens de hoje só podem ser esses dois negros que, ontem, assombraram o mundo: Martin Luther King e Pelé, Pelé e Martin Luther King.
PC
(Crônica que eu, se já fosse vivo, talvez tivesse escrito em 29/08/1963, dia seguinte ao histórico discurso de Martin Luther King e à semifinal da Libertadores entre Botafogo e Santos.)
No início eu escrevi que foram dois os fatos de ontem que me chamaram a atenção. O outro, evidentemente, foi a semifinal da Taça Libertadores de 1963. No Maracanã, Santos e Botafogo fizeram um desses jogos imortais. No quadro de General Severiano, jogaram Manga; Joel, Zé Carlos, Nílton Santos e Rildo; Aírton e Élton; Garrincha, Amoroso, Quarentinha e Zagallo. Já o quadro da Vila Belmiro foi a campo com Gilmar; Geraldino, Mauro, Calvet e Dalmo; Zito e Lima; Dorval, Coutinho, Pelé e Pepe. Amigos, vê-se que boa parte do escrete verde-amarelo bicampeão no Chile estava em campo.
O Santos é o campeão de tudo, da Taça Brasil, do Campeonato Paulista, do Rio-São Paulo, e da própria Taça Libertadores. Mas o Botafogo não fica atrás: o alvinegro carioca é um dos times mais assombrosos da face da Terra. Tanto que, mesmo sem o Mané, arrancou um empate em 1 a 1 no primeiro jogo da semifinal, em pleno Pacaembu. Vale lembrar que o Pacaembu tem sido o terror dos clubes cariocas. O Maracanã está lotado, e a torcida da estrela solitária deposita suas esperanças no retorno de Mané Garrincha.
Aos onze minutos, ocorre o primeiro lance magistral: Pelé recebe a bola na entrada da área, a espera quicar e, de primeira, encobre o goleiro Manga. O primeiro golaço do Rei anunciava uma atuação divina. Quatro minutos depois, a bola é alçada na área e o craque voa, no tempo certo, para desferir a cabeçada mortal: Santos 2 a 0, segundo de Pelé. Aos 33 do primeiro tempo, mais uma vez Nossa Majestade rompe a defesa botafoguense, e é derrubado pelo goleiro Manga: pênalti insofismável. O próprio Pelé converte a penalidade em gol. Em menos de quarenta minutos, o camisa 10 fez três gols. O melhor jogador do mundo em todos os tempos teve a sua melhor atuação. O futebol nunca viu nada tão assombroso, amigos. A própria torcida botafoguense, vítima do magnífico baile, aplaudia o Rei, se curvando à Majestade. Afinal, Pelé joga pelo Santos, mas é patrimônio do Brasil.
Lima fez o quarto gol santista, no segundo tempo, fechando o placar em 4 a 0. O Santos ainda encarará o argentino Boca Juniors, na final do torneio, mas não há dúvidas: será o grande bicampeão. Nada, repito, nada parará esse time com cara de seleção. Os idiotas da objetividade dirão que estou exagerando, que não se deve exaltar tanto assim a constelação do Santos. Dirão que o Botafogo não jogou bem. Eu contesto: o Botafogo viveu hoje um dos seus grandes momentos. O alvinegro carioca é o segundo melhor time de futebol do mundo. Só não consegue vencer o Santos, porque o Santos é invencível.
Os meus personagens de hoje só podem ser esses dois negros que, ontem, assombraram o mundo: Martin Luther King e Pelé, Pelé e Martin Luther King.
PC
(Crônica que eu, se já fosse vivo, talvez tivesse escrito em 29/08/1963, dia seguinte ao histórico discurso de Martin Luther King e à semifinal da Libertadores entre Botafogo e Santos.)
terça-feira, 3 de março de 2009
A grande contratação
Amigos, meu personagem de hoje ainda não entrou em campo em 2009. Mesmo assim, seu nome está no berro impresso de todas as manchetes: trata-se de Fred, a grande contratação do futebol brasileiro, a grande contratação do Fluminense.
O Tricolor sempre teve vocação para as grandes contratações. Escrevi "sempre", mas já me corrijo: desde 1946. No início desse ano histórico, o técnico pó-de-arroz Gentil Cardoso disse, com o olho rútilo e o lábio trêmulo: "Deem-me Ademir, e eu lhes darei o campeonato". Vejam só o que uma simples sentença pode fazer. Ao proferir estas palavras mágicas, com um ar de certeza profética, Gentil abalou os alicerces das outras equipes do Rio. O Fluminense contratou Ademir, o craque do Vasco e da Seleção. E o que aconteceu todos nós sabemos: a taça de 1946 envelhece feliz em Álvaro Chaves.
Trinta anos depois, em 1975, o Brasil tinha dois tipos de jogadores: havia Rivellino, camisa 10 do escrete e do Corinthians; e havia o resto. O presidente do Fluminense era Francisco Horta, famoso por gostar de trocar figurinhas. Horta usou a tática perfeita: seduziu a esposa do craque com as belezas do Rio de Janeiro. E assim Rivellino desembarcou em Laranjeiras. Foi a contratação mais cara da história do futebol mundial, na época. Em campo, Riva comandou a Máquina Tricolor, que conquistou um bicampeonato espetacular.
No início da década de 80, brilhou no Atlético Paranaense uma dupla infernal: Washington e Assis. Houve então uma correria desenfreada entre os grandes clubes do Brasil: quem contrataria a grande dupla? O Fluminense venceu o páreo, e o Casal 20 nos ajudou a conquistar o tricampeonato, e o segundo título brasileiro.
Hoje, quem chega é Fred. O centroavante tem a missão de repetir os sucessos de Ademir, Rivellino, Washington e Assis. O Fluminense de hoje precisa de um artilheiro: é a peça que falta para a nova Máquina engrenar. Se Fred ocupar esse posto e conquistar títulos, entrará na seleta galeria de ídolos da torcida tricolor. Seja bem vindo, matador!
PC
domingo, 1 de março de 2009
Botafogo na finalíssima
Quinze minutos antes de a decisão começar, um amigo alvinegro me telefona do Maracanã. Ele rosna, "PC, toda a torcida do Botafogo está aqui!". Imagino que, neste momento sublime, pendia uma baba elástica e bovina de sua boca. "O Estádio Mário Filho não estava lotado", observam os idiotas da objetividade. "E daí?", respondo eu. O que importa é que todos os alvinegros, vivos e mortos, estavam lá. Sim, os vivos e os mortos. Se fossem exumar Mané Garrincha, hoje, descobririam que seu corpo não estava lá debaixo da terra, pois também ele estava no Maior do Mundo. Ídolos vivos, como Maurício e Gonçalves, também estavam presentes.
O primeiro tempo foi marcado por muito equilíbrio. O único gol da etapa inicial foi do vigoroso atacante Reinaldo, do Botafogo, em uma jogada de sorte. Vejam vocês: o zagueiro do Resende tentou isolar a bola, e ela caprichosamente bateu em seu próprio companheiro, sobrando, limpa, para Reinaldo. Ele só empurrou a pelota para as redes.
Porém, foi o segundo tempo que elevou a partida final da Taça Guanabara à condição de eterna. O primeiro lance de perigo foi do Resende: uma linda cabeçada do artilheiro Bruno Meneghel, e uma ainda mais linda defesa do goleiro Renan. No escanteio que se seguiu, outra cabeçada perigosa, dessa vez para fora. Diz o famoso ditado do futebol, "quem não faz, leva". O centroavante Lucas Silva, do Botafogo, fez valer a máxima: se aproveitou de açucarado passe de Juninho, driblou o goleiro e fez 2 a 0. Justo ele, Lucas Silva, que já estava com a substituição programada. No seu último ato em campo, fez o gol mais importante do jogo, o gol mais importante de toda a Taça Guanabara.
Daí para a frente, o que se seguiu foi o desespero do time do Sul Fluminense. O técnico Roy abdicou de tática, e pôs todos os seus atacantes em campo, inclusive o veterano tetracampeão Viola. Ao Botafogo, coube apenas administrar o resultado conquistado. No finalzinho, outra trapalhada da defesa do Resende, e Maicosuel fechou o placar: 3 a 0.
Dessa forma, o clube da Estrela Solitária levantou a Taça Guanabara de 2009, e agora aguarda o vencedor da Taça Rio. Pelo quarto ano seguido, o Botafogo está na finalíssima do Campeonato Carioca.
PC
O primeiro tempo foi marcado por muito equilíbrio. O único gol da etapa inicial foi do vigoroso atacante Reinaldo, do Botafogo, em uma jogada de sorte. Vejam vocês: o zagueiro do Resende tentou isolar a bola, e ela caprichosamente bateu em seu próprio companheiro, sobrando, limpa, para Reinaldo. Ele só empurrou a pelota para as redes.
Porém, foi o segundo tempo que elevou a partida final da Taça Guanabara à condição de eterna. O primeiro lance de perigo foi do Resende: uma linda cabeçada do artilheiro Bruno Meneghel, e uma ainda mais linda defesa do goleiro Renan. No escanteio que se seguiu, outra cabeçada perigosa, dessa vez para fora. Diz o famoso ditado do futebol, "quem não faz, leva". O centroavante Lucas Silva, do Botafogo, fez valer a máxima: se aproveitou de açucarado passe de Juninho, driblou o goleiro e fez 2 a 0. Justo ele, Lucas Silva, que já estava com a substituição programada. No seu último ato em campo, fez o gol mais importante do jogo, o gol mais importante de toda a Taça Guanabara.
Daí para a frente, o que se seguiu foi o desespero do time do Sul Fluminense. O técnico Roy abdicou de tática, e pôs todos os seus atacantes em campo, inclusive o veterano tetracampeão Viola. Ao Botafogo, coube apenas administrar o resultado conquistado. No finalzinho, outra trapalhada da defesa do Resende, e Maicosuel fechou o placar: 3 a 0.
Dessa forma, o clube da Estrela Solitária levantou a Taça Guanabara de 2009, e agora aguarda o vencedor da Taça Rio. Pelo quarto ano seguido, o Botafogo está na finalíssima do Campeonato Carioca.
PC
sábado, 28 de fevereiro de 2009
Decisão alvinegra
Amigos, amanhã é o dia da final da Taça Guanabara. A Cidade Maravilhosa respira a decisão. Quinze ônibus vêm lotados de Resende, com a torcida pelo modesto clube do Sul Fluminense. Os torcedores do Botafogo também fizeram filas nos locais de venda hoje. Pelo visto, o Estádio Mário Filho estará cheio.
O Resende treinou em Laranjeiras por superstição. Contra o Flamengo, o treino foi no campo do Fluminense, e deu certo. Então, por que não repetir o ritual contra o Botafogo? Não existe futebol sem superstição, todo torcedor tem as suas, todo time tem as suas. Em época de decisão, elas são ainda mais visíveis.
Encontro um amigo na esquina da Rodolfo Dantas com a Viveiros de Castro, em Copacabana. Com um largo sorriso no rosto, ele faz a piada cruel: "PC, amanhã vai dar zebra: Botafogo 3 x 1". Como eu escrevi acima, a cidade respira a decisão.
O Botafogo é o favorito, apesar da piada. Porém, repito o que escrevi aqui ontem: o Alvinegro tem que ser grande. Se jogar de novo como time pequeno, profetizo a derrota humilhante. O técnico Roy, do Resende, não é bobo: sua equipe saberá aproveitar os momentos de fraqueza do quadro de General Severiano.
PC
O Resende treinou em Laranjeiras por superstição. Contra o Flamengo, o treino foi no campo do Fluminense, e deu certo. Então, por que não repetir o ritual contra o Botafogo? Não existe futebol sem superstição, todo torcedor tem as suas, todo time tem as suas. Em época de decisão, elas são ainda mais visíveis.
Encontro um amigo na esquina da Rodolfo Dantas com a Viveiros de Castro, em Copacabana. Com um largo sorriso no rosto, ele faz a piada cruel: "PC, amanhã vai dar zebra: Botafogo 3 x 1". Como eu escrevi acima, a cidade respira a decisão.
O Botafogo é o favorito, apesar da piada. Porém, repito o que escrevi aqui ontem: o Alvinegro tem que ser grande. Se jogar de novo como time pequeno, profetizo a derrota humilhante. O técnico Roy, do Resende, não é bobo: sua equipe saberá aproveitar os momentos de fraqueza do quadro de General Severiano.
PC
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009
Time pequeno e time grande
Amigos, outro dia minha amiga Bel me chamou a atenção para uma declaração do Antonio Carlos Roy, técnico do Resende, logo após o clube do Sul Fluminense eliminar o Flamengo da Taça Guanabara. "Defender como time pequeno, atacar como time grande" - nessa simples sentença, o Roy definiu sua estratégia vencedora no jogo de sábado. Esse dilema de "time pequeno e time grande", que tem atormentado a cabeça dos botafoguenses nos últimos anos, é o meu tema de hoje.
Ontem, não me saiu da cabeça a vitória do Botafogo sobre o meu Fluminense. A tática do alvinegro foi a retranca, conforme o meu amigo Minoru antecipou que seria. Ney Franco, o técnico do quadro de General Severiano, armou um autêntico ferrolho, com três zagueiros de origem e quatro volantes. Minha Nossa Senhora! Três beques fixos e mais quatro cabeças-de-área! Começo a pensar se é necessário um goleiro nesse esquema. Acho que o arqueiro é mera figura decorativa. Com sete homens exclusivamente dedicados a impedir que a bola chegue ao gol, para que serve o quíper? Para nada mesmo: poderia sentar-se no gramado e ler um gibi, tranquilamente.
Voltando ao tema da resenha, a retranca de Ney Franco é um exemplo cristalino de como joga um time pequeno. Quando o time é tecnicamente pior que o outro, só mesmo na retranca e nos contra-ataques é que se pode vencer. Por isso, não ataco Ney Franco. Ele seria burro se resolvesse atacar mais que defender. Para o bem do Alvinegro, ele reconhece que é melhor defender mais que atacar, com o elenco de que dispõe. E assim Ney Franco fez do limitado Botafogo o melhor time da Taça Guanabara.
Porém, faz-se necessária uma mudança de estratégia para a fatídica final de domingo. O Botafogo precisa abandonar o esquema de time pequeno. Para vencer o Resende do inteligente Roy, o clube da Estrela Solitária precisa, antes de mais nada, ser grande. Se o Botafogo continuar pequeno, profetizo aqui: domingo haverá uma derrota humilhante, uma derrota acachapante. Favorito o quadro de General Severiano é. Mas favoritismo não ganha jogo. Pequenez também não.
Hoje, estive em Álvaro Chaves e, pasmem!, encontrei um sorridente alvinegro, vestindo a camisa do Botafogo, em pleno território tricolor. Meu espanto não deteve meu ímpeto, e eu perguntei ao desconhecido se ele havia babado ao ver nossa entupida Sala de Troféus. O sujeito ficou sem graça e não me respondeu. Virou as costas e saiu de fininho. Porém, antes de cruzar o portão, tropeçou numa glória. Acho que foi na Copa do Brasil, que ele não tem.
PC
Ontem, não me saiu da cabeça a vitória do Botafogo sobre o meu Fluminense. A tática do alvinegro foi a retranca, conforme o meu amigo Minoru antecipou que seria. Ney Franco, o técnico do quadro de General Severiano, armou um autêntico ferrolho, com três zagueiros de origem e quatro volantes. Minha Nossa Senhora! Três beques fixos e mais quatro cabeças-de-área! Começo a pensar se é necessário um goleiro nesse esquema. Acho que o arqueiro é mera figura decorativa. Com sete homens exclusivamente dedicados a impedir que a bola chegue ao gol, para que serve o quíper? Para nada mesmo: poderia sentar-se no gramado e ler um gibi, tranquilamente.
Voltando ao tema da resenha, a retranca de Ney Franco é um exemplo cristalino de como joga um time pequeno. Quando o time é tecnicamente pior que o outro, só mesmo na retranca e nos contra-ataques é que se pode vencer. Por isso, não ataco Ney Franco. Ele seria burro se resolvesse atacar mais que defender. Para o bem do Alvinegro, ele reconhece que é melhor defender mais que atacar, com o elenco de que dispõe. E assim Ney Franco fez do limitado Botafogo o melhor time da Taça Guanabara.
Porém, faz-se necessária uma mudança de estratégia para a fatídica final de domingo. O Botafogo precisa abandonar o esquema de time pequeno. Para vencer o Resende do inteligente Roy, o clube da Estrela Solitária precisa, antes de mais nada, ser grande. Se o Botafogo continuar pequeno, profetizo aqui: domingo haverá uma derrota humilhante, uma derrota acachapante. Favorito o quadro de General Severiano é. Mas favoritismo não ganha jogo. Pequenez também não.
Hoje, estive em Álvaro Chaves e, pasmem!, encontrei um sorridente alvinegro, vestindo a camisa do Botafogo, em pleno território tricolor. Meu espanto não deteve meu ímpeto, e eu perguntei ao desconhecido se ele havia babado ao ver nossa entupida Sala de Troféus. O sujeito ficou sem graça e não me respondeu. Virou as costas e saiu de fininho. Porém, antes de cruzar o portão, tropeçou numa glória. Acho que foi na Copa do Brasil, que ele não tem.
PC
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009
Lágrimas de esguicho
Amigos, na condição de tricolor nato, hereditário e confesso, minha vontade é sentar no meio-fio e chorar lágrimas de esguicho. Já faz um tempo que o Fluminense monta elencos indiscutivelmente melhores que os do Botafogo. Trata-se de um fato: os clubes brasileiros, e em especial os cariocas, estão boiando em dívidas colossais e eternas. Nesse cenário desolador, somente com um bom patrocinador se pode montar um grande time. O Tricolor possui esse patrocínio salvador, ao passo que o Alvinegro não. Dessa forma, o Fluminense pode construir times recheados de craques, e o Botafogo não. Isso explica a diferença técnica que observamos ano após ano: o abismo entre o pó-de-arroz e a estrela solitária.
Expliquei o cenário e cito um exemplo: no primeiro semestre do ano passado, o time tricolor foi o melhor da América, quiçá o melhor do mundo. E o Botafogo lá, quietinho com seu elenco modesto. Porém, nos dois turnos do Campeonato Carioca, o Fluminense cruzou com o Botafogo, e o resultado nós sabemos: duas tristes derrotas tricolores.
Eis que o destino novamente coloca frente à frente o Tricolor e o Alvinegro, na semifinal da Taça Guanabara de 2009. Como em 2008, há um abismo técnico entre Laranjeiras e General Severiano. O torcedor pó-de-arroz encheu-se de esperança. Os vivos, doentes e mortos tricolores subiram as rampas e invadiram as arquibancadas e cadeiras do Estádio Mário Filho. A esperança da revanche brilhava nos olhos de cada fluminense. As arquibancadas verdes e amarelas à esquerda das cabines, destinadas à torcida tricolor, estavam completamente tomadas. Do outro lado, a quantidade muito menor de alvinegros evidenciava que nem mesmo a própria torcida do Botafogo confiava no triunfo de seu modesto time.
Porém, como em 2008, o resultado foi a vitória do Botafogo. Os resultados do ano passado eram mais explicáveis que o desse ano. O Botafogo tinha mantido uma base, uma espinha dorsal inalterada, enquanto o Fluminense ainda entrosava seu poderoso elenco. O maior entrosamento alvinegro foi, de fato, o fator determinante para as vitórias de 2008. Já em 2009, o Botafogo não tem mais o entrosamento de outrora, pois desmanchou o time do ano passado. Portanto, o menor entrosamento não pode ser aceito como justificativa para a derrota do quadro de Álvaro Chaves.
Então, o que terá causado a derrota de ontem? Nosso time é tecnicamente superior, e o Botafogo não tem mais o entrosamento que o salvava. Não há unanimidade na torcida tricolor, o que é bom, afinal toda unanimidade é burra. Cada torcedor do Fluminense parece ter uma visão diferente das causas do fracasso do time. Escuto um amigo na saída do Maracanã: "falta preparo físico". Considero que meu amigo tem razão, afinal o time sempre morre no segundo tempo. Um pé-rapado, durante o jogo, gritou para quem quisesse ouvir: "falta tesão a esse time". Também concordo com ele. Aquele ímpeto, aquela garra, aquela vontade inexcedível que víamos na Libertadores, por onde andam?
Também não gosto do comportamento do técnico René Simões. Primeiro, houve a insistência com Leandro Amaral e Roger, os dois atacantes que não vinham bem. Escrevi aqui antes e repito: eles não podem ser titulares, quando se tem um Tartá, um Maicon, um Alan no banco. O argumento de que eles são garotos não me convence. Pelé ganhou uma Copa com 17 anos, e Ronaldo com 18 anos já integrava o elenco do tetra. Há que se apostar na garotada, sempre que possível.
Comecei minha crítica ao treinador tricolor, e continuo: hoje, ele foi inútil à beira do gramado. Vejam só o que aconteceu no segundo tempo: a torcida pediu Tartá, e René pôs Tartá no minuto seguinte. Depois, o urro da arquibancada foi Bonfim, e René pôs Bonfim no minuto seguinte. No fim, tirou um cansado Leandro Amaral para por Roger, uma alteração que até um paralelepípedo faria no lugar dele. Eis o que foi René Simões hoje: um fantoche comandado pela torcida do Fluminense. E não foi a primeira vez que isso aconteceu. Por fim, considero que a falta de preparo físico também deve ser posta na conta da comissão técnica. Todos os outros times estão voando, se comparados com o nosso. Está evidente um erro de preparação.
O Botafogo se aproveitou dos nossos erros, e decidiu o jogo em uma bola parada. Domingo, o Alvinegro tem a faca e o queijo na mão para levantar a Taça Guanabara. O time do Resende é ainda mais limitado que o quadro de General Severiano, de forma que o favorito é o Botafogo.
PC
Expliquei o cenário e cito um exemplo: no primeiro semestre do ano passado, o time tricolor foi o melhor da América, quiçá o melhor do mundo. E o Botafogo lá, quietinho com seu elenco modesto. Porém, nos dois turnos do Campeonato Carioca, o Fluminense cruzou com o Botafogo, e o resultado nós sabemos: duas tristes derrotas tricolores.
Eis que o destino novamente coloca frente à frente o Tricolor e o Alvinegro, na semifinal da Taça Guanabara de 2009. Como em 2008, há um abismo técnico entre Laranjeiras e General Severiano. O torcedor pó-de-arroz encheu-se de esperança. Os vivos, doentes e mortos tricolores subiram as rampas e invadiram as arquibancadas e cadeiras do Estádio Mário Filho. A esperança da revanche brilhava nos olhos de cada fluminense. As arquibancadas verdes e amarelas à esquerda das cabines, destinadas à torcida tricolor, estavam completamente tomadas. Do outro lado, a quantidade muito menor de alvinegros evidenciava que nem mesmo a própria torcida do Botafogo confiava no triunfo de seu modesto time.
Porém, como em 2008, o resultado foi a vitória do Botafogo. Os resultados do ano passado eram mais explicáveis que o desse ano. O Botafogo tinha mantido uma base, uma espinha dorsal inalterada, enquanto o Fluminense ainda entrosava seu poderoso elenco. O maior entrosamento alvinegro foi, de fato, o fator determinante para as vitórias de 2008. Já em 2009, o Botafogo não tem mais o entrosamento de outrora, pois desmanchou o time do ano passado. Portanto, o menor entrosamento não pode ser aceito como justificativa para a derrota do quadro de Álvaro Chaves.
Então, o que terá causado a derrota de ontem? Nosso time é tecnicamente superior, e o Botafogo não tem mais o entrosamento que o salvava. Não há unanimidade na torcida tricolor, o que é bom, afinal toda unanimidade é burra. Cada torcedor do Fluminense parece ter uma visão diferente das causas do fracasso do time. Escuto um amigo na saída do Maracanã: "falta preparo físico". Considero que meu amigo tem razão, afinal o time sempre morre no segundo tempo. Um pé-rapado, durante o jogo, gritou para quem quisesse ouvir: "falta tesão a esse time". Também concordo com ele. Aquele ímpeto, aquela garra, aquela vontade inexcedível que víamos na Libertadores, por onde andam?
Também não gosto do comportamento do técnico René Simões. Primeiro, houve a insistência com Leandro Amaral e Roger, os dois atacantes que não vinham bem. Escrevi aqui antes e repito: eles não podem ser titulares, quando se tem um Tartá, um Maicon, um Alan no banco. O argumento de que eles são garotos não me convence. Pelé ganhou uma Copa com 17 anos, e Ronaldo com 18 anos já integrava o elenco do tetra. Há que se apostar na garotada, sempre que possível.
Comecei minha crítica ao treinador tricolor, e continuo: hoje, ele foi inútil à beira do gramado. Vejam só o que aconteceu no segundo tempo: a torcida pediu Tartá, e René pôs Tartá no minuto seguinte. Depois, o urro da arquibancada foi Bonfim, e René pôs Bonfim no minuto seguinte. No fim, tirou um cansado Leandro Amaral para por Roger, uma alteração que até um paralelepípedo faria no lugar dele. Eis o que foi René Simões hoje: um fantoche comandado pela torcida do Fluminense. E não foi a primeira vez que isso aconteceu. Por fim, considero que a falta de preparo físico também deve ser posta na conta da comissão técnica. Todos os outros times estão voando, se comparados com o nosso. Está evidente um erro de preparação.
O Botafogo se aproveitou dos nossos erros, e decidiu o jogo em uma bola parada. Domingo, o Alvinegro tem a faca e o queijo na mão para levantar a Taça Guanabara. O time do Resende é ainda mais limitado que o quadro de General Severiano, de forma que o favorito é o Botafogo.
PC
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009
O botafoguense e o tricolor
Todos os torcedores de futebol se parecem entre si como soldadinhos de chumbo. Têm o mesmo comportamento e xingam, com a mesma exuberância e os mesmos nomes feios, o juiz, os bandeirinhas, os adversários e os jogadores do próprio time. Há, porém, um torcedor, entre tantos, entre todos, que não se parece com ninguém e que apresenta uma forte, crespa e irresistível personalidade. Ponham uma barba postiça num torcedor do Botafogo, deem-lhe óculos escuros, raspem-lhe as impressões digitais e, ainda assim, ele será inconfundível. Por quê?Pelo seguinte: há, no alvinegro, a emanação específica de um pessimismo imortal. Pergunto: por que vamos ao campo de futebol? Porque esperamos a vitória. Esse otimismo é o impulso interior que nos leva a comprar ingresso e vibrar os noventa minutos. E, no campo, o otimismo continua a crepitar furiosamente. Não importa que o nosso time esteja perdendo de 15 x 0. Até o penúltimo segundo, nós ainda esperamos a virada, ainda esperamos a reação. Pois bem: o torcedor do Botafogo é o único que, em vez de esperar a vitória, espera precisamente a derrota.
Os outros comparecem na esperança de saborear como um chicabon o triunfo do seu clube. Mas o torcedor do Botafogo é diferente: ele compra o seu ingresso como quem adquire o direito, que lhe parece sagrado e inalienável, de sofrer. Eis a verdade: ele não vai a campo ver futebol. O futebol é um detalhe secundário e, mesmo, desprezível. Ele quer, acima de tudo, desgrenhar-se, esganiçar-se, enfurecer-se e rugir contra Ney Franco.
No dia em que retirarem do torcedor alvinegro o inefável direito de sofrer e, sobretudo, o direito ainda mais inefável de descompor o seu técnico, ele ficará inconsolável, como um ser que perde, subitamente, a sua função e o seu destino. Tudo na vida é uma questão de hábito. E o cidadão que padece todos os dias acaba se afeiçoando ao próprio martírio, ou mais do que isso: o martírio torna-se insubstituível como um vício funesto.
E o que falar da torcida do Fluminense? Outras podem ser mais numerosas. Uma torcida, porém, não vale a pena pela sua expressão numérica. Ela vive e influi no destino das batalhas pela força do sentimento. E a torcida tricolor leva um imperecível estandarte de paixão. Exalta-se a torcida do Vasco, exalta-se a torcida do Flamengo, e querem esquecer a nossa. Benício Ferreira Filho dizia que a grande torcida é a do Fluminense. Ele tem razão: nada se compara à flama e à fidelidade do torcedor pó-de-arroz.
Nós, com a nossa crassa e ignara simplicidade, temos a mania de falar em "aristocrático clube das Laranjeiras". E eu vos digo : - "aristocrático" em termos. Será aristocrático porque, no seu quadro social, falta tudo, menos grã-finos. Mas há algo mais no Fluminense, algo mais do que a aristocracia que lhe atribuem. Mais exato seria dizer que ele é o clube de todas as classes.
Sim, amigos: há de tudo em Álvaro Chaves. Vocês querem tubarão? Afirmo-vos que os há de todos os tipos. Desde o tubarão de borracha, o tubarão de piscina, que as crianças cavalgam, até o tubarão mesmo, de insaciável voracidade. Costumamos desprezar o cartola. Mas vamos e venhamos: com o seu charuto afrontoso e ultrajante, a conspurcar de cinza todos os tapetes, ele tem o seu charme. Sim, no Fluminense, há cartolas em penca. Vocês querem o príncipe? É o que não falta no Fluminense. Esse grã-finismo autêntico é meio gostoso de se ver. Há também a família da classe média, a mocinha linda, o pai, a mãe, com os seus escrúpulos severos.
Nada, porém, é tão impressionante como o pé-rapado do Tricolor. Amigos, o Fluminense, com toda a sua aristocracia, têm na sua torcida, uma plebe que eu chamaria de épica. É uma multidão que o acompanha, com ululante fidelidade. Jogue o Fluminense com o Real Madrid ou com o Tabajara, e lá estarão esses heróis de pé descalço. Como são formidáveis ao empunhar a tocha do entusiasmo tricolor! Mas eu falei em pé-rapado. Para mim, não existe o pé-rapado, o borra-botas. O que existe é o homem, o ser humano, a levar nas costas, como o peixe da Emulsão de Scott, uma alma imortal. Um homem é sempre igual a outro homem.
Mas como eu ia dizendo: chamemos convencionalmente a plebe tricolor de plebe mesmo. É uma gente gloriosa, que não larga o clube, chova ou faça sol. Com a nossa bandeira erguida aos ventos da vitória, lá vão os pés-descalços atrás do time. Eu acredito que esses mesmos homens, em encarnações passadas, fizeram a Revolução Francesa e derrubaram bastilhas. Amigos, eis a verdade: os campeonatos e as revoluções vivem de paixão. Sem sentimento, não se derruba uma bastilha, nem se levanta um campeonato.
Eu acho profundamente cretina a expressão "plebe ignara". Ignara coisa nenhuma. Nós é que somos os ignaros, os crassos. Falta-nos isso que sobra no suposto pé-rapado, ou seja, a capacidade de vibrar, de se apaixonar, de viver e morrer por uma paixão. A parte mais humilde da nossa torcida é capaz, sim, de perecer pelo time. Nós temos o escrúpulo, o pudor de pular no meio da rua como um índio de Carnaval. A nossa alegria é meio envergonhada, meio arrependida. Mas a chamada plebe se embriaga com o próprio fogo. A vitória sobe-lhe à cabeça. O tricolor popular, na sua pura euforia, é capaz de trocar as pernas e cair, rente ao meio-fio, com a cara enfiada no ralo. Sim, amigos, falta-nos, a nós outros, a capacidade de tão violenta embriaguez clubística.
Quando o Fluminense precisa de número, acontece o suave milagre. Os vivos, doentes e mortos sobem as rampas. Os vivos saem de suas casas, os doentes de suas camas, e os mortos de suas tumbas. Quarta-feira, o Maracanã receberá dezenas de milhares de fanáticos, dispostos a vencer ou perecer. Será o maior clássico vovô de todos os tempos.
Esse texto foi fortemente baseado nas seguintes crônicas de Nelson Rodrigues: "Sofrer pelo Botafogo" (Manchete Esportiva, 4/8/1956), e "A incomparável torcida tricolor" (Jornal dos Sports, 3/12/1959).
PC
domingo, 22 de fevereiro de 2009
A invenção do olé
Amigos, na quarta-feira de cinzas acontecerá o primeiro grande jogo do ano no futebol brasileiro. Fluminense e Botafogo jogarão, no mítico estádio do Maracanã, por uma vaga na final da Taça Guanabara, contra o Resende. Até lá, escreverei sobre episódios da história desses dois grandes clubes, possivelmente os dois com mais tradição no futebol tupiniquim.
Em janeiro, no post "A invenção do fair play", contei a fascinante história de como o alvinegro Garrincha e o tricolor Altair inventaram o jogo limpo, em um clássico vovô. Hoje, escrevo sobre outro episódio de Garrincha. Um grande amigo costuma dizer que "Garrincha vivia em outra dimensão". Eu corrijo: o Mané vive em outra dimensão, pois Garrincha é eterno. A história de hoje ocorreu em fevereiro de 1958, na Cidade do México. O melhor Botafogo de todos os tempos excursionava por lá, e no dia 20 encarou o poderoso River Plate, que era a base da seleção argentina.
No histórico jogo, lendários craques do passado desfilaram seus talentos: Didi, Nilton Santos e Garrincha pelo Botafogo; Carrizo, Nestor Rossi, Labruna e Vairo pelo River Plate. O time argentino recebeu um cachê muito maior que o brasileiro, mas a peleja foi muito disputada. O placar não nos deixa mentir: 1 x 1. "Um empate insosso em um jogo amistoso sem importância", diriam os idiotas da objetividade. Acontece, amigos, que os idiotas estão redondamente enganados. Este Botafogo x River Plate mudou a história do futebol mundial. Meio século nos separa do histórico momento, de modo que certamente ainda há testemunhas mexicanas vivas. Se perguntarmos a uma delas qual foi o placar do jogo, ela dificilmente se lembrará. Porém, ela nos dirá, mordida de nostalgia: "a peleja consistiu em um baile! Um baile de Garrincha em Vairo!".
Ainda no início do jogo, o ponta alvinegro começou seu espetáculo individual. O joão da vez foi o lateral-esquerdo argentino Vairo. A platéia do Estádio Universitário viu, naquela briga desigual, um paralelo com as touradas espanholas. Os mexicanos viram em Vairo um touro desesperado, e em Garrincha o toureiro dono da situação. Foram dezenas - talvez centenas - de dribles humilhantes. Sim, amigos: humilhantes. O que Garrincha fazia com os joões era humilhante, era pior do que xingar a mãe. A cada drible, os mexicanos urravam "olé", como nas touradas.
Com suas gingas inigualáveis, o Mané entortou diversas vezes o lateral argentino. Ele se esborrachou tantas vezes no chão, que o seu uniforme ficou completamente sujo. A humilhação foi tamanha que o treinador do River Plate substituiu Vairo. Este ficou feliz com a substituição. Caminhou rindo até o banco de reservas, e atestou: "Não há nada a fazer. É impossível!".
Sem saber, aqueles milhares de torcedores mexicanos estavam modificando para sempre o modo de torcer nos estádios de futebol. Cada "olé" que gritamos no Maracanã hoje é na verdade um eco daqueles primeiros e históricos "olés".
Termino meu relato dando créditos ao brilhante Ruy Castro, autor da biografia do Mané Garrincha ("Estrela Solitária, um brasileiro chamado Garrincha"). Foi nas páginas desse livro fascinante que eu busquei os detalhes da fantástica história que acabo de contar.
PC
Em janeiro, no post "A invenção do fair play", contei a fascinante história de como o alvinegro Garrincha e o tricolor Altair inventaram o jogo limpo, em um clássico vovô. Hoje, escrevo sobre outro episódio de Garrincha. Um grande amigo costuma dizer que "Garrincha vivia em outra dimensão". Eu corrijo: o Mané vive em outra dimensão, pois Garrincha é eterno. A história de hoje ocorreu em fevereiro de 1958, na Cidade do México. O melhor Botafogo de todos os tempos excursionava por lá, e no dia 20 encarou o poderoso River Plate, que era a base da seleção argentina.
No histórico jogo, lendários craques do passado desfilaram seus talentos: Didi, Nilton Santos e Garrincha pelo Botafogo; Carrizo, Nestor Rossi, Labruna e Vairo pelo River Plate. O time argentino recebeu um cachê muito maior que o brasileiro, mas a peleja foi muito disputada. O placar não nos deixa mentir: 1 x 1. "Um empate insosso em um jogo amistoso sem importância", diriam os idiotas da objetividade. Acontece, amigos, que os idiotas estão redondamente enganados. Este Botafogo x River Plate mudou a história do futebol mundial. Meio século nos separa do histórico momento, de modo que certamente ainda há testemunhas mexicanas vivas. Se perguntarmos a uma delas qual foi o placar do jogo, ela dificilmente se lembrará. Porém, ela nos dirá, mordida de nostalgia: "a peleja consistiu em um baile! Um baile de Garrincha em Vairo!".
Ainda no início do jogo, o ponta alvinegro começou seu espetáculo individual. O joão da vez foi o lateral-esquerdo argentino Vairo. A platéia do Estádio Universitário viu, naquela briga desigual, um paralelo com as touradas espanholas. Os mexicanos viram em Vairo um touro desesperado, e em Garrincha o toureiro dono da situação. Foram dezenas - talvez centenas - de dribles humilhantes. Sim, amigos: humilhantes. O que Garrincha fazia com os joões era humilhante, era pior do que xingar a mãe. A cada drible, os mexicanos urravam "olé", como nas touradas.
Com suas gingas inigualáveis, o Mané entortou diversas vezes o lateral argentino. Ele se esborrachou tantas vezes no chão, que o seu uniforme ficou completamente sujo. A humilhação foi tamanha que o treinador do River Plate substituiu Vairo. Este ficou feliz com a substituição. Caminhou rindo até o banco de reservas, e atestou: "Não há nada a fazer. É impossível!".
Sem saber, aqueles milhares de torcedores mexicanos estavam modificando para sempre o modo de torcer nos estádios de futebol. Cada "olé" que gritamos no Maracanã hoje é na verdade um eco daqueles primeiros e históricos "olés".
Termino meu relato dando créditos ao brilhante Ruy Castro, autor da biografia do Mané Garrincha ("Estrela Solitária, um brasileiro chamado Garrincha"). Foi nas páginas desse livro fascinante que eu busquei os detalhes da fantástica história que acabo de contar.
PC
sábado, 21 de fevereiro de 2009
A derrota da camisa
Amigos, a primeira semifinal da Taça Guanabara foi um jogo eletrizante. O Resende surpreendeu a todos e eliminou o favoritíssimo Flamengo, no Estádio Mário Filho. O rubro-negro, que vinha falando em ser campeão invicto, ruiu diante da equipe do Sul Fluminense. Nem mesmo a camisa rubro-negra, que às vezes ganha os jogos sozinha, foi capaz de parar o alvinegro do sul do estado.
Eis o que essa partida representou: a derrota da poderosa camisa rubro-negra. O 3 a 1 foi cruel, foi inapelável. É um daqueles placares que não deixam dúvidas. O Resende foi superior, fez pouco da mística rubro-negra, e rasgou a camisa do mais querido em pleno Maracanã. Agora, é necessário juntar os cacos na Gávea, e reconstruir o time para o segundo turno. Já o Resende tem que pensar na final da Taça Guanabara. Daqui a uma semana, o alvinegro do sul fará o jogo mais importante de sua história, contra Botafogo ou Fluminense.
Os idiotas da objetividade já me escrevem dizendo, "o clássico-vovô é a final antecipada". Eu respondo: "não é, não". A batalha de quarta-feira é apenas a segunda semifinal. É óbvio que o vencedor do clássico será o favorito da final da Taça Guanabara. Mas favoritismo não ganha jogo. A própria semifinal de hoje atira essa verdade nas nossas caras.
E quem é o personagem do sábado de Carnaval? Antes do jogo, eu pensava em apontar a camisa rubro-negra para o ilustre posto. Isso porque eu achava que ela venceria sozinha o jogo, como eu já vi acontecer tantas vezes. Mas ela perdeu, e assim não merece o cargo. Desse modo, o meu personagem do sábado só pode ser o aplicado time do Resende, comandado pelo competente técnico Antonio Carlos Roy (cujo trabalho eu já acompanhei, quando ele era o técnico do Friburguense). Por ter rasgado a camisa que vence jogos sozinha, o time do Resende fez por merecer a homenagem.
PC
Eis o que essa partida representou: a derrota da poderosa camisa rubro-negra. O 3 a 1 foi cruel, foi inapelável. É um daqueles placares que não deixam dúvidas. O Resende foi superior, fez pouco da mística rubro-negra, e rasgou a camisa do mais querido em pleno Maracanã. Agora, é necessário juntar os cacos na Gávea, e reconstruir o time para o segundo turno. Já o Resende tem que pensar na final da Taça Guanabara. Daqui a uma semana, o alvinegro do sul fará o jogo mais importante de sua história, contra Botafogo ou Fluminense.
Os idiotas da objetividade já me escrevem dizendo, "o clássico-vovô é a final antecipada". Eu respondo: "não é, não". A batalha de quarta-feira é apenas a segunda semifinal. É óbvio que o vencedor do clássico será o favorito da final da Taça Guanabara. Mas favoritismo não ganha jogo. A própria semifinal de hoje atira essa verdade nas nossas caras.
E quem é o personagem do sábado de Carnaval? Antes do jogo, eu pensava em apontar a camisa rubro-negra para o ilustre posto. Isso porque eu achava que ela venceria sozinha o jogo, como eu já vi acontecer tantas vezes. Mas ela perdeu, e assim não merece o cargo. Desse modo, o meu personagem do sábado só pode ser o aplicado time do Resende, comandado pelo competente técnico Antonio Carlos Roy (cujo trabalho eu já acompanhei, quando ele era o técnico do Friburguense). Por ter rasgado a camisa que vence jogos sozinha, o time do Resende fez por merecer a homenagem.
PC
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009
Vitória magra no Almeidão
Amigos, que sonolento o jogo desta quarta-feira, pela Copa do Brasil! A diferença técnica gritante não fez efeito, e o Fluminense apenas obteve o magro placar de 1 a 0, sobre o Nacional de Patos-PB. Porém, a partida serve para realizar importantes observações sobre o time tricolor.
O primeiro ponto que desejo destacar é a falta de preparo físico da equipe tricolor. Mesmo com um homem a mais nos minutos finais, o time não teve pernas para buscar o segundo gol e assim eliminar o jogo de volta. Chamo a atenção para isso, pois é um problema gravíssimo, que precisa ser corrigido urgentemente.
A arbitragem também foi mal. O Nacional fez um gol legítimo, que o árbitro anulou alegando impedimento. Esse gol não deverá fazer diferença no confronto, mas ainda assim foi um erro grave. Outro erro grave do juiz foi a omissão diante da violência da equipe paraibana. Foram vinte e uma faltas apenas no primeiro tempo - um recorde! O rodízio de faltas foi um recurso sujo da equipe do Nacional, que deveria ser severamente punida por isso.
De positivo, podemos destacar a eficiência da dupla Fabinho-Romeu no meio-campo defensivo do Fluminense, principalmente no primeiro tempo. Mais à frente, as tabelinhas entre Thiago Neves e Everton Santos também merecem holofotes. O gol de Everton Santos, que salvou a partida do medíocre zero-a-zero, foi o grande lance do jogo: um giro rápido e um chute certeiro. Em quatro dias, o atacante tricolor saiu do banco de reservas para o posto de artilheiro do time. E é por isso que Everton Santos é o personagem desta quarta-feira.
PC
O primeiro ponto que desejo destacar é a falta de preparo físico da equipe tricolor. Mesmo com um homem a mais nos minutos finais, o time não teve pernas para buscar o segundo gol e assim eliminar o jogo de volta. Chamo a atenção para isso, pois é um problema gravíssimo, que precisa ser corrigido urgentemente.
A arbitragem também foi mal. O Nacional fez um gol legítimo, que o árbitro anulou alegando impedimento. Esse gol não deverá fazer diferença no confronto, mas ainda assim foi um erro grave. Outro erro grave do juiz foi a omissão diante da violência da equipe paraibana. Foram vinte e uma faltas apenas no primeiro tempo - um recorde! O rodízio de faltas foi um recurso sujo da equipe do Nacional, que deveria ser severamente punida por isso.
De positivo, podemos destacar a eficiência da dupla Fabinho-Romeu no meio-campo defensivo do Fluminense, principalmente no primeiro tempo. Mais à frente, as tabelinhas entre Thiago Neves e Everton Santos também merecem holofotes. O gol de Everton Santos, que salvou a partida do medíocre zero-a-zero, foi o grande lance do jogo: um giro rápido e um chute certeiro. Em quatro dias, o atacante tricolor saiu do banco de reservas para o posto de artilheiro do time. E é por isso que Everton Santos é o personagem desta quarta-feira.
PC
Assinar:
Postagens (Atom)


