Amigos, há algum tempo leitores perguntam minha opinião sobre as polêmicas negociações dos direitos de transmissão da TV Aberta. Começo fazendo uma análise da divisão dos valores para o Campeonato Brasileiro de 2011:
Grupo I - Corinthians, Flamengo, Palmeiras, São Paulo e Vasco: R$ 21.000.000,00.
Grupo II - Santos: R$ 18.000.000,00.
Grupo III - Atlético MG, Botafogo, Cruzeiro, Fluminense, Grêmio e Internacional: R$ 15.000.000,00.
Grupo IV - Atlético PR, Bahia, Coritiba: R$ 11.000.000,00.
Grupo V - Goiás, Guarani, Portuguesa, Sport Recife e Vitória: R$ 5.500.000,00.
"Convidados" - América MG, Atlético GO, Avaí, Ceará e Figueirense: negociação individual com o Clube dos Treze.
Algumas observações importantes:
- o Clube dos Treze foi fundado em 1987, com os integrantes Atlético MG, Cruzeiro, Botafogo, Flamengo, Fluminense, Vasco, Grêmio, Internacional, Corinthians, Palmeiras, Santos, São Paulo e Bahia. Hoje tem vinte clubes, com as adesões de Atlético PR, Coritiba, Goiás, Guarani, Portuguesa, Sport Recife e Vitória.
- os integrantes do Grupo V não jogarão a Primeira Divisão, mas mesmo assim receberão recursos da venda dos direitos do Campeonato, simplesmente por serem participantes do Clube dos Treze, espécie de "elite" do nosso futebol. Além do absurdo de receberem recursos de um produto do qual não fazem parte, esta situação ainda gera um injusto desequilíbrio financeiro na Série B.
- os "convidados", isto é, clubes que jogarão a Primeira Divisão mesmo sem serem integrantes do Clube dos Treze, são obrigados a negociar individualmente, e acabam aceitando migalhas, bem menores que os valores pagos aos outros clubes (provavelmente menores até que os pagos aos cinco "elitistas" que jogarão a Série B). Com a grande desvantagem financeira, acabam destinados a brigar para escapar do rebaixamento (nos últimos anos, nenhum clube fora do Clube dos Treze alcançou vaga na Copa Libertadores pelo Campeonato Brasileiro).
- a divisão não obedece a absolutamente nenhum critério técnico. Os clubes do Grupo I ganham mais que o Santos, que ganha mais que os clubes do Grupo III, que ganham mais que os clubes do Grupo IV, que ganham muito mais que os "convidados", toda essa divisão baseada em... nada. O mérito esportivo não é levado em conta: por exemplo, Palmeiras e Vasco estão no grupo que mais recebe, mesmo tendo resultados pífios nos últimos 10 anos, incluindo rebaixamentos. A média de público presente nos estádios também é desprezada: Atlético Mineiro, Fluminense e Bahia possuíram algumas das maiores médias de público nos últimos anos, e ainda assim recebem menos que clubes com números notavelmente inferiores.
Em suma: a divisão dos recursos feita hoje não é justa, porque privilegia os vinte clubes elitistas (mesmo que estes sequer estejam no Campeonato), em detrimento dos clubes que, mesmo com muito menos dinheiro, conseguiram alcançar a Série A. Para piorar, ainda há a "elitização da elite", baseada em um achismo que não leva em conta nenhum critério técnico.
Passemos à discussão deste ano, que se refere à venda dos direitos para os Campeonatos Brasileiros de 2012, 2013 e 2014.
O Clube dos Treze, com apoio do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), lançou uma concorrência para a negociação dos direitos de transmissão para o próximo triênio. E retirou os privilégios da TV Globo, que até este ano tinha o direito de cobrir qualquer oferta. Alguns clubes resolveram não aceitar esta negociação "conjunta": Botafogo, Flamengo, Fluminense, Vasco, Corinthians, Palmeiras, Santos, Cruzeiro, Grêmio e Coritiba. Estes afirmam que procurarão a negociação individual com cada emissora. Pode ser causada uma confusão geral, com cada clube escolhendo uma emissora, o que geraria um impasse: quem transmitirá o jogo A x B, se o clube A assinou com a emissora X, e o clube B assinou com a emissora Y?
Negociação do Clube dos Treze ou Negociação Individual - qual é a melhor?
Nem uma, nem outra. A negociação do Clube dos Treze, conforme explicado acima, é injusta. E a negociação individual é pior ainda, pois aumentará o abismo entre os clubes grandes e os pequenos, e criará novos abismos, estes entre os clubes grandes. Provavelmente, Corinthians e Flamengo conseguirão valores muito maiores que os demais, pois interessam mais às emissoras, por serem clubes "de massa". Neste caso, estejam prontos para assistir à polarização do Campeonato Brasileiro entre os dois clubes (embora muitos tentem dizer o contrário, o dinheiro é inevitavelmente um fator decisivo no futebol moderno). Teremos aqui uma versão brasileira do Campeonato Espanhol, com um Real Madrid e um Barcelona alternando-se na frente, e o restante milhas atrás. Para comprovar esta influência, vejam os valores pagos pela empresa Mediapro aos clubes espanhóis na última temporada, em euros:
- Real Madrid e Barcelona: 120 milhões.
- Valencia: 44 milhões.
- Atlético de Madrid: 42 milhões.
- restante: menos de 40 milhões cada.
Nos últimos 6 Campeonatos, o Barcelona ganhou 4, e o Real Madrid 2. Nos últimos 14, a "dupla de ferro" levantou 11 (o Valencia 2 e o Deportivo La Coruña 1). Neste momento, há na Espanha um grande debate, visando ao fim da negociação individual, que gera esta ridícula falta de competitividade, e viola princípios de igualdade de condições.
Então, qual é a melhor solução?
Inevitavelmente, o melhor caminho é uma negociação coletiva, para evitar a "polarização espanhola" e os conflitos causados pela venda a emissoras diferentes. A negociação do Clube dos Treze, no entanto, também é injusta, pois privilegia os integrantes da "elite", e não obedece a critérios técnicos.
Antes de formular minha sugestão, pesquisei as fórmulas adotadas por 3 das 4 maiores ligas européias em faturamento (excluindo, obviamente, a polarizada Liga Espanhola):
Serie A (Itália)
- 40%: divididos igualmente entre todos os participantes do Campeonato.
- 30%: divididos de acordo com o mérito esportivo (quanto melhor o clube se posicionar em 2011, mais receberá em 2012).
- 30%: divididos de acordo com o tamanho da torcida (média de público).
Bundesliga (Alemanha)
- a divisão é praticamente igualitária entre os participantes do Campeonato (apesar das insistentes reclamações do Bayern de Munique).
Premier League (Inglaterra)
- 56%: divididos igualmente entre todos os participantes do Campeonato.
- 22%: divididos de acordo com o mérito esportivo (quanto melhor o clube se posicionar em 2011, mais receberá em 2012).
- 22%: divididos de acordo com o número de jogos transmitidos na televisão.
Minha sugestão para o Campeonato Brasileiro
- 50%: divididos igualmente entre todos os participantes do Campeonato.
- 25%: divididos de acordo com o mérito esportivo (quanto melhor o clube se posicionar em 2011, mais receberá em 2012).
- 25%: divididos de acordo com o ranking de média de renda (a forma mais correta de se medir o tamanho efetivo de uma torcida)
Concorda com a minha sugestão? Prefere a negociação individual? Aguardo seus comentários!
PC