
Amigos, na recente entrevista do senhor Ricardo Teixeira, presidente da CBF, à Revista Piauí, houve uma declaração que me impressionou. Disse ele o seguinte: "Portanto, só vou ficar preocupado, meu amor, quando sair no Jornal Nacional".
Na hora, me lembrei da última vez em que vi a Rede Globo criticar a CBF e Ricardo Teixeira. Foi em um programa "Globo Repórter", em agosto de 2001 (veja o programa completo no final do post). Em um documentário bem detalhado, são desvendados diversos esquemas de corrupção, desvio de dinheiro, nepotismo e enriquecimento ilícito na entidade.
Isso foi há dez anos. Desde então, a emissora permanece no mais absoluto silêncio sobre o assunto. Uma década de constrangedor e estranho silêncio.
Deixem-me corrigir: pensando bem, nem tão estranho assim.
Atualmente, as boas relações entre CBF e Rede Globo são públicas e notórias. Qualquer cidadão brasileiro que acompanha futebol percebe isso. Todas as partidas da Seleção Brasileira e das competições organizadas pela CBF são transmitidas pelos canais, abertos e fechados, da Globo. Quando os clubes tentaram negociar os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro com outras emissoras, não tiveram o apoio da CBF, que se alinhava com os interesses da Globo, de manter o monopólio neste lucrativo mercado.
Certos episódios individuais também contribuem para comprovar a "amizade" entre CBF e Rede Globo. Há cerca de um ano, Ricardo Teixeira tomou café da manhã com Muricy Ramalho, então treinador do Fluminense, em um clube de golfe na Barra da Tijuca. Naquela ensolarada manhã de sexta-feira, não haveria motivo nenhum para uma equipe da TV Globo estar no local. A menos que a emissora tivesse sido avisada por uma fonte misteriosa que ali haveria um encontro de Teixeira com o novo técnico da Seleção Brasileira.
Outra: recentemente, um sério escândalo de corrupção na FIFA, implicando o senhor Ricardo Teixeira em acusações como suborno, repercutiu fortemente na imprensa internacional. Aqui no Brasil, a TV Globo praticamente não tocou no assunto, em que pese a cristalina gravidade da situação.
Uma mão lava a outra?
Vale lembrar que a CBF arrecada mais de 150 milhões de reais por ano vendendo seu filet mignon, que é a Seleção Brasileira. Enquanto isso, os clubes - verdadeiros responsáveis pelo sucesso do nosso futebol - roem o osso (especialmente aqueles das divisões inferiores, que mais precisam de ajuda, não recebem um centavo da entidade e ainda são obrigados a disputar competições deficitárias).
Vale lembrar que a Seleção - patrimônio do povo brasileiro - tem jogado mais vezes em Londres que no território nacional. Quando joga aqui, os ingressos são caríssimos - assim como as camisas oficiais da Seleção. Fica até parecendo que a CBF é uma empresa, com objetivo de lucro...
Ricardo Teixeira se orgulha do fato de a CBF "não possuir dinheiro público". Entretanto, não fala que a Copa do Mundo de 2014 será financiada por nós - e já está custando muito caro. Amigos, não acreditem na balela de que sediar o Mundial é lucrativo. Não, não é. Só em reformas e construções de estádios, o país está torrando mais de 5 bilhões de reais, e a conta ainda vai aumentar. As eventuais melhorias de infra-estrutura que teremos - lembrem-se - também serão pagas com o nosso dinheiro, e poderiam ser feitas mesmo que não sediássemos Copa nenhuma.
(Os lucros do evento não retornarão para o país: a FIFA abocanha a maior parte. Em 2010, dizem que a entidade faturou mais de 4,5 bilhões de dólares com a Copa da África do Sul. E os eventuais ganhos com turismo são mínimos - não se esqueçam que o evento dura um mês só...)
Fora, Ricardo Teixeira!
Acorda, TV Globo!
PC
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Os vídeos do programa "Globo Repórter" que desvendou os esquemas de Ricardo Teixeira e companhia na CBF:
Por quê a década de silêncio, Rede Globo?