
Amigos, alguns leitores babavam no domingo:
"quero uma crônica do Flamengo, quero uma crônica do Flamengo", repetiam eles, com os olhos rútilos e os lábios trêmulos. Resolvi não escrever sobre a vitória rubro-negra, simplesmente por considerar que a
Batalha do Couto Pereira teve uma carga dramática e uma dimensão épica muito maiores que as do jogo do Maracanã.
Porém, reconheço que os leitores flamenguistas tinham certa dose de razão. A bela campanha rubro-negra merece, sim, uma crônica minha. O último jogo, em si, não merece texto algum, haja vista a vergonhosa postura do Grêmio de mandar um time reserva a campo, sem vontade alguma de vencer. Mas a campanha como um todo merece, sim, a minha análise.
O Flamengo começou o campeonato muito mal, tanto que seus próprios torcedores chegaram a descartar qualquer chance de título. O técnico Cuca foi demitido, e Andrade assumiu o cargo, a princípio como interino. O quadro da Gávea venceu o Santos, e Andrade foi efetivado. E então iniciou-se a gloriosa reação rubro-negra, que culminou com a taça erguida pela quinta vez.
Todos sabemos que o clube da Gávea possui uma estrutura precária, muito abaixo da de outros clubes, como o São Paulo, o Cruzeiro, o Internacional, o Grêmio e o Palmeiras. Então, como explicar o sucesso do rubro-negro carioca?
É simples: em futebol, a decisão se dá dentro das quatro linhas. Obviamente, ter uma excelente estrutura ajuda, e muito, na obtenção de resultados esportivos interessantes. Mas tudo se decide ali, nos onze contra onze. E o Flamengo do returno foi um conjunto definitivamente vencedor.
É bem verdade que, primeiro o Palmeiras e depois o São Paulo, tinham a taça nas mãos, mas a entregaram numa linda bandeja ao Flamengo. Também é verdade que o Flamengo desperdiçou uma chance de levantar o troféu com antecedência, ao empatar com o Goiás em 0 a 0, num Maracanã entupido de gente.
Mas veio a segunda chance, no domingo, e esta o Flamengo não desperdiçou. A equipe rubro-negra não é espetacular, mas possui destaques em todas as posições. No gol, está Bruno, que falha bastante, mas defende pênaltis, e por isso mesmo foi decisivo, principalmente no jogo contra o Santos no Maracanã. Na defesa, há o Ronaldo Angelim, a quem coube fazer o gol do título, tal qual Rondinelli no primeiro turno do Carioca de 1978. No meio, há o veterano Petkovic, o maestro em que pouquíssimos acreditavam, e que se transformou em um dos craques do certame. No ataque, está Adriano, o artilheiro do Flamengo e do Campeonato Brasileiro.
Dirão que o Flamengo teve, recentemente, times melhores que esse, que não levaram a taça. Concordo. É nesse ponto de minha análise que entra o mérito do treinador Andrade. Explico: nos últimos anos, o clube da Gávea vinha sendo dominado por uma arrogância sem igual no futebol brasileiro. Liderados por Márcio Braga, o presidente mais retrógrado de um clube brasileiro hoje, jogadores e técnicos dispensavam a humildade, anunciando festas de títulos ainda não vencidos. Andrade decretou o fim da arrogância, e conseguiu impor sua simplicidade, fazendo a equipe se tornar humilde. Era tudo de que o Flamengo precisava para ser campeão.
Faço um alerta aos rubro-negros: que não se iludam com a conquista do penta. O Flamengo de hoje não está sendo bem administrado, o Flamengo de hoje não tem time para vencer uma Libertadores, o Flamengo de hoje não é capaz nem mesmo de lutar pelo hexa. Se a administração do clube não melhorar, serão mais dezessete anos na fila.
Mas, é claro, há esperança. Márcio Braga está saindo da presidência, e vem aí sangue novo, com Patrícia Amorim. Se ela tiver humildade e competência, conseguirá aproveitar o imenso potencial do Flamengo.
PC