sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Recordar é viver - Paulo Victor Nota Dez

(foto: Almir Veiga, Jornal do Brasil)


Rio de Janeiro, 14 de novembro de 1982.

Amigos, hoje foi o grande dia de Paulo Victor, o arqueiro do Fluminense. O Botafogo tentou de todas as formas possíveis, mas não conseguiu vazar sua meta. Paulo Victor foi uma muralha intransponível. É importante registrar: o cimento sagrado do Maracanã testemunhou neste domingo a maior atuação de um goleiro em todos os tempos, passados, presentes e futuros.

O Botafogo precisava da vitória para manter-se na liderança, e então lançou-se ao ataque desde o início. Os atacantes alvinegros pressionavam muito, e a todo instante criavam as chances. Porém, lá estava Paulo Victor, sempre ele, salvando todas as bolas. Com um minuto, Geraldo chutou da ponta-direita, e parou no goleiro. Aos sete, Mirandinha finalizou forte, de fora da área, e Paulo Victor mandou a escanteio. Exibindo uma forma sensacional, o arqueiro fez a torcida tricolor no Maracanã recordar Castilho, o eterno ídolo do Fluminense. E junto com a lembrança de Castilho veio a lembrança da leiteria, quando o lateral alvinegro Perivaldo acertou a trave, aos onze minutos. Todo bom goleiro tem a sorte a seu lado, fiel companheira.

Ainda no primeiro tempo, Perivaldo fez Paulo Victor trabalhar novamente, em excelente cobrança de falta, que o goleiro espalmou para córner. Uma defesa espetacular, de almanaque, de cinema, de enciclopédia, de antologia!

Na etapa complementar, o Botafogo começou a tropeçar no seu próprio nervosismo. Logo aos 30 segundos, Mendonça arriscou de fora da área, e parou em nova intervenção de Paulo Victor. Os atacantes alvinegros, diante de um goleiro monumental, não sabiam mais o que fazer. E o Fluminense começava a levar perigo nos contra-ataques. Aos 11, aconteceu o inevitável: o ponta Gilcimar recebeu o lançamento pela esquerda, driblou os defensores, e sutilmente encobriu o goleiro Paulo Sérgio: Fluminense 1 a 0. Na saída de bola, o Botafogo criou uma boa trama, envolveu a defesa tricolor, e fuzilou a meta de Paulo Victor. A torcida alvinegra chegou a gritar o gol de empate, mas a bola explodiu na trave, novamente. A leiteria não falha jamais.

O Botafogo, líder que perdia sua liderança, atacava, atacava, atacava. E Paulo Victor defendia, defendia, defendia. Um botafoguense, na arquibancada, rosnava, quase chorando: "Não é possível! Não é possível! A bola não passa!". Os torcedores do América, ouvindo o clássico no rádio, sorriam com a liderança conquistada. Levando cada vez mais perigo nos contra-ataques, o Fluminense parecia mais próximo do segundo gol que o Botafogo do primeiro. (Até as reposições de Paulo Victor estavam irretocáveis!)

Aos 45 do segundo tempo, vem o golpe definitivo. Paulo Victor defende mais uma, e aciona Amauri, na intermediária. Ele avança, passa por Perivaldo e Eraldo, quase sofre pênalti e, já caindo, chuta com o pé direito para vencer Paulo Sérgio: Fluminense 2 a 0. Na saída de bola do Botafogo, a zaga tricolor rebate, e a bola sobra para Zezé Gomes, livre, marcar mais um: Fluminense 3 a 0.

Na segunda-feira, todos os jornais do Rio de Janeiro deram nota dez ao goleiro do Fluminense. Nascia uma lenda: o legítimo sucessor da maior escola de goleiros do futebol brasileiro. A linhagem de Marcos Carneiro de Mendonça, Batatais, Castilho e Félix tinha seu mais novo integrante: Paulo Victor.

PC

Observações:
- Castilho era treinador do Grêmio na ocasião, e elogiou a atuação impecável de Paulo Victor. Este confessou que nunca havia visto Castilho atuar, mas afirmou que era uma honra ser comparado ao eterno ídolo do Fluminense.
- o Botafogo acabou eliminado do Campeonato Carioca de 1982, aumentando mais um ano no jejum de títulos, que já durava desde 1968 e só acabaria em 1989. O América manteve a liderança na última rodada, e conseguiu a vaga que faltava, no triangular final com Flamengo e Vasco. O título acabou em São Januário.
- a partir desta partida contra o Botafogo, Paulo Victor se firmou como titular absoluto do Fluminense. Conquistaria nos anos seguintes três Campeonatos Cariocas (1983, 1984 e 1985), um Campeonato Brasileiro (1984) e algumas taças internacionais, sempre como titular da meta tricolor. Também passou a ser convocado frequentemente para a Seleção Brasileira. Foi reserva na Copa do Mundo de 1986, com o treinador Telê Santana.

FICHA TÉCNICA
14/11/1982 - Fluminense 3 x 0 Botafogo
Motivo: Campeonato Carioca de 1982 - Taça Rio.
Local: Maracanã (Rio de Janeiro).
Árbitro: Valquir Pimentel.
Renda: Cr$ 20.038.100,00.
Público: 40.987 pagantes.
Fluminense: Paulo Victor; Aldo, Maurão, Heraldo e Careca; Tadeu, Rubens Galaxe e Delei (Zezé Gomes); Gilcimar, Amauri e Fanta (José Kléber). Técnico: Paulinho de Almeida.
Botafogo: Paulo Sérgio; Perivaldo, Gaúcho, Eraldo e Josimar; Osvaldo (César), Alemão e Mendonça; Geraldo, Té e Mirandinha. Técnico: Zé Mário.
Gols: Gilcimar aos 11' do 2° tempo; Amauri aos 45' do 2° tempo; e Zezé Gomes aos 46' do 2.° tempo.
Cartões amarelos: Maurão, Tadeu, Gaúcho, Paulo Victor e Amauri.

Principal fonte de pesquisa: JB de 15/11/1982.

Agradecimento ao amigo Carlos Clark, testemunha ocular do show de Paulo Victor, que me sugeriu este tema.

4 comentários:

  1. Grande, PC!!!! Paulo Vitor é nota 10 mesmo!!!! Goleiraço!!!
    Agora, Fanta, Maurão e Careca, nunca tinha ouvido falar!!!!! Cruz credo!
    Grande abraço e não esqueci as fotos da F1, viu...

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  2. Grande PC!!!

    Conseguir esse registro deve ter sido quase tão difícil quanto as defesas do Paulo Victor!

    Eu nunca me esquecerei deste jogo enquanto viver. A maior atuação de um goleiro com a camisa do Flu que eu já vi!

    Parabéns! Vc merece!

    Saudações Tricolores!

    ps. Nessa época além de Fanta, teve Adilço, Jasson e o guarda-metas Edson Cimento, um infeliz predecessor do Paulo Victor. Vacas magras. Mas este jogo foi pra guardar no coração.

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  3. A maior escola de goleiros do Brasil clama por mais um mito. Paulo Victor foi o último.

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  4. Viva São Diego Cavalieri, o mais novo membro da escola tricolor de goleiros. :D

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