Amigos, em quase dez anos escrevendo com frequência sobre futebol, jamais me sentei à frente do computador com tamanha tristeza quanto agora. Neste período, tive que escrever sobre algumas dolorosas derrotas esportivas. Quem me conhece pessoalmente sabe o quanto sofri, por exemplo, com a derrota do Fluminense na decisão da Copa Libertadores de 2008, ou com os intragáveis 7 a 1 impostos pela Alemanha à nossa Seleção, na semifinal da Copa do Mundo de 2014. Entretanto, nem mesmo naqueles dias deprimentes, eu me senti tão triste quanto hoje. O texto será longo, por motivos óbvios, mas peço a todos os que valorizam a minha opinião sobre futebol, que o leiam na íntegra.
Começo com a descrição dos fatos que iniciaram toda a polêmica: na quinta-feira, dia 13 de outubro, o Flamengo vencia o Fluminense por 2 a 1, em Volta Redonda, em partida válida pela 30ª rodada do Campeonato Brasileiro de 2016. Em lance de bola parada, aos 39 minutos do segundo tempo, o Fluminense empatou a partida com um gol do zagueiro Henrique. O árbitro Sandro Meira Ricci anulou o gol, devido à marcação do auxiliar Emerson Augusto de Carvalho, que assinalou impedimento do meia Cícero, que ele acreditava ser o autor do gol. Os atletas do Fluminense imediatamente avisaram a árbitro e auxiliar que o gol fora de Henrique, não de Cícero. Sandro confirmou que o gol fora de Henrique, e perguntou a Emerson se ele estava impedido. Com a negativa do auxiliar, o árbitro tomou a decisão final: validar o gol do Fluminense. Até aqui, não há opinião alguma: apenas a descrição dos fatos, descritos precisamente conforme as imagens da transmissão do jogo.
Sim, esta foi a decisão final do árbitro Sandro Meira Ricci: validar o gol do Fluminense. Assim está escrito na Lei 5 das Regras do Jogo da Federação Internacional de Futebol, a FIFA, cujo segundo parágrafo transcrevo abaixo:
"The decisions of the referee regarding facts connected with play, including whether or not a goal is scored and the result of the match, are final." (em tradução minha: "As decisões do árbitro sobre fatos conectados com o jogo, incluindo se um gol foi ou não marcado e o resultado da partida, são finais.")
O que aconteceu a seguir foi um clamoroso caso de interferência externa na decisão da arbitragem, a qual, repito, deveria ser final. Primeiro os jogadores do Flamengo e depois o inspetor de arbitragem Sérgio Santos avisaram a Sandro e Emerson sobre um suposto erro* na decisão de validar o gol, apontado pela televisão. Eles afirmavam, repetidamente: "A TV sabe, a TV sabe que não foi". Após treze minutos de muita confusão no gramado, o árbitro voltou atrás na própria decisão e resolveu anular o gol do Fluminense. Para utilizar um vocabulário popular, Flamengo ganhou a disputa no grito - algo que deveria causar arrepios em qualquer pessoa que preze por uma disputa esportiva honesta, dentro de regras. Nem mesmo as peladas amadoras do Aterro admitem tal barbárie, vale ressaltar.
*(Aqui abro parênteses para deixar claro: escrevo "suposto erro" porque simplesmente desconhecemos a tecnologia e os profissionais utilizados pelo canal de televisão Premiere para avaliar a jogada. Quem são os responsáveis pelo software que desenha a linha do impedimento na imagem? Este software foi validado pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF) ou pela FIFA? Quem é o profissional que opera o software? Este profissional realizou algum curso na CBF ou na FIFA? Este profissional é remunerado pela CBF, pela FIFA ou mesmo pelos clubes envolvidos na partida? Sem respostas concretas a estas perguntas, qualquer diagnóstico de lance polêmico é somente oficioso, e qualquer erro mostrado é apenas suposto.)
Durante a confusão no gramado, eu mesmo, antes ainda da invalidação do gol de Henrique, avisei no Twitter:
A partida terminou mesmo com o placar de 2 a 1 para o Flamengo, com os minutos finais sendo disputados por duas equipes emocionalmente desestabilizadas, e com o árbitro absolutamente perdido, sem nem mesmo saber mais quantos minutos ainda restavam por ser jogados. A súmula do jogo, que usualmente é publicada uma hora após o apito final, só foi colocada no site da CBF na manhã seguinte, em mais um indicativo de que algo estranho estava acontecendo. No documento, o árbitro simplesmente não relatou a confusão, e ainda teve a pachorra de escrever que "nada houve de anormal" (!!). Sobre a validação e a posterior anulação do gol? Nenhuma palavra. Sobre a evidente interferência externa em sua decisão? Nada. Sobre a demora na publicação da súmula? Neca de pitibiriba! Posteriormente, Sandro Meira Ricci até corrigiu a súmula, citando a confusão, mas sem esclarecer nenhum destes pontos.
O Fluminense agiu como qualquer outro clube faria na mesma situação (vale lembrar que
o próprio Flamengo o fez, em 2013): na segunda-feira 17, o Tricolor solicitou ao Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) a anulação da partida, por erro de direito (interferência externa na arbitragem). Se o pleito tricolor seria bem-sucedido, não tenho como saber. Talvez até não fosse, pois
o STJD já foi algumas vezes acusado de não ser exatamente imparcial quando o Flamengo é um dos envolvidos. Mas que havia fundamentação mais do que suficiente pelo menos para a realização de um julgamento da questão, é um fato incontestável. O próprio presidente do STJD,
Ronaldo Piacente,
afirmou isto categoricamente, citando a reportagem do Esporte Espetacular, da TV Globo, veiculada no domingo 16.
Ainda na noite da segunda-feira 17,
Piacente cumpriu seu dever: aceitou o pedido do Fluminense e suspendeu provisoriamente o resultado do Fla-Flu. Em entrevista à Rádio Globo, detalhou que
haveria um julgamento pelos nove membros do STJD, deu um prazo para a solução e disse que
ouviria todas as partes. Ele declarou:
"A tabela agora terá um asterisco. O resultado é mantido, mas não se homologa até que haja uma decisão dos nove membros do Pleno do STJD. O julgamento será o mais rapidamente possível. Acredito que até a primeira quinzena de novembro esteja julgado. Ainda não posso me manifestar porque também vou julgar, mas ainda é algo prematuro. O que se precisa analisar é se houve a interferência externa. Todas as partes serão ouvidas".
Então, chega a fatídica quinta-feira 20. Pela manhã, o procurador-geral do STJD
Felipe Bevilacqua inicia uma pressão pelo arquivamento do pedido de impugnação do Fla-Flu, sem apresentar nenhuma evidência concreta que anulasse as cabais provas de interferência externa. E então, no fim da tarde, Ronaldo Piacente subitamente muda de ideia, sem que nenhum fato novo tivesse surgido, e resolve, de maneira unilateral e ilegal,
arquivar o pedido do Fluminense, que ele mesmo havia acolhido três dias antes. Com esta surreal e covarde decisão, Piacente legitimou a vitória
"no grito", e assinou assim o atestado de óbito do futebol profissional brasileiro.
Me respondam: o que impedirá um time que venha a sofrer um gol polêmico nos próximos meses e anos de cercar o árbitro, alegar que "a televisão mostrou irregularidade", e praticamente forçá-lo a voltar atrás em sua decisão? Isso mesmo: nada. O meu sábio amigo Beto Sales vaticina com precisão:
Se eu fosse dirigente da FIFA, esta situação inacreditável seria imediatamente analisada, visto que a CBF está abertamente rasgando as Regras do Jogo, o documento sagrado que rege o esporte no mundo. Entre as possíveis punições para transgressões desse tipo, está até mesmo a exclusão da Seleção Brasileira e dos clubes do país de competições internacionais (punição que já foi aplicada algumas vezes ao longo da história).
Para piorar, ainda vemos torcedores e jornalistas celebrando a absurda e inaceitável violação das Regras do Jogo, de maneira constrangedora. Independentemente do clube para o qual você torce, ou do órgão de imprensa para o qual você trabalha, eu afirmo: se você não repudia a covarde decisão de Piacente, você é, das duas, uma: ou burro, ou mau caráter. Não, não há outra alternativa.
Não, não há justificativa possível para rasgar as leis. Não dá para relativizar a situação: as regras têm que valer para todos, o tempo todo. Ou você concorda com o raciocínio "ganhou a eleição, e daí que foi com caixa 2, o que importa é o resultado das urnas"? Alguns dizem que, com a decisão de Piacente, "o Brasileirão está salvo". O argumento é o mesmo utilizado pelos detratores da Operação Lava Jato: "atrapalha o Brasil, que antes vivia um clima de normalidade". Uma canalhice imensurável.
Em 2013, quando Flamengo e Portuguesa escalaram jogadores suspensos, o STJD cumpriu seu papel com perfeição, e aplicou as devidas punições aos dois clubes, com unanimidade nos dois julgamentos - o que acabou rebaixando a Portuguesa para a segunda divisão. Ali, eu tive esperança de que o futebol brasileiro estava começando a trilhar caminhos corretos. Porém, com o surreal desfecho deste caso do Fla-Flu, começo a me questionar: será que, se o rebaixado de 2013 fosse o poderoso Flamengo, e não a pobre Portuguesa, a mesma decisão teria sido tomada? Será que pelo menos teria havido um julgamento? Ou o Flamengo teria sido sumariamente absolvido? No Brasil, as regras são iguais para todos? Ou ainda estamos na pré-civilização, em que vale a "lei do mais forte"?
O Fluminense, com a convicção daqueles que sabem que têm razão, já respondeu à covardia de Ronaldo Piacente
em nota oficial, cobrando-lhe explicações por
"sua inusitada e contraditória mudança de opinião". Tomara que o pioneiro do futebol brasileiro, o clube responsável por sermos a potência que somos, siga lutando pelo engrandecimento do nosso esporte, e enchendo de orgulho seus torcedores.
Quem conhece a história sabe que foi em Laranjeiras que o futebol brasileiro nasceu. E é aqui que ele há de ressuscitar.
PCFilho