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quarta-feira, 9 de julho de 2025

Pior para os fatos


Amigos, quando soou o apito final em Nova Jersey, determinando a horripilante eliminação do Fluminense, o Profeta tratou de catar seus trapos e descer as rampas do Estádio MetLife. Triste, sim, mas de cabeça erguida. Em sua expressão, acima de sua vasta barba branca, não havia absolutamente nada de vencido. Como poderia estar vencido, após a maravilhosa saga tricolor nos Estados Unidos? Jamais!

Não cabem, contra a evidência da superioridade tricolor na Copa do Mundo de Clubes, nenhum argumento, nenhuma dúvida. Mesmo com seu elenco limitado, sem os bilhões de reais, dólares e euros dos adversários, o Fluminense não só os encarou olhando nos olhos, mas lhes foi superior, deixando de lado qualquer complexo de vira-latas que nos poderia afetar. O Tricolor mostrou ao mundo a força d'A Camisa - fizemos bonito demais e pisamos em território onde nenhum outro clube sul-americano jamais esteve. Estamos entre os quatro melhores times da Terra, afinal.

O mais cruel de tudo é o resultado hediondo da semifinal ter sido construído exatamente com dois gols de João Pedro, joia brasileira revelada pelo próprio Fluminense, contratada pelo Chelsea a peso de ouro. Não poderia haver um final mais melancólico para a bonita jornada tricolor nos Estados Unidos do que isto. Não é justo, não é razoável e é acima de tudo triste ver o dinheiro bruto vencer assim a paixão. Sim, é também pela derrota da poesia que estamos vertendo nossas lágrimas.

Mas bendito seja o pavilhão do clube, bendita seja A Camisa, bendito seja o verde, bendito seja o branco, bendito seja o grená. Bendita seja a história que escrevemos desde 1902 e que escreveremos para toda a eternidade.

O Fluminense encantou o mundo, conquistou adeptos de todas as nacionalidades e foi a grande sensação da Copa. Se os deuses do futebol pudessem simplesmente escolher o campeão, não tenho a menor dúvida de que entregariam a taça ao Decano do futebol brasileiro, para que ela pudesse repousar sob as Laranjeiras imortais.

No entanto, claro, haverá um vencedor oficial: será o Chelsea, o PSG ou o Real Madrid. Os fatos se impõem e um deles levará o troféu para a Europa.

Pior para os fatos.

PCFilho

segunda-feira, 7 de julho de 2025

Resenha: O Fluminense na semifinal

Foto: Marcelo Gonçalves/Fluminense FC.

Amigos, nós estamos na semifinal da Copa do Mundo de Clubes. Sim, é verdade: nesta terça-feira 8, diante dos olhos de todo o planeta, Fluminense e Chelsea duelarão em Nova Jersey por uma vaga na decisão do Mundial.

O Al-Hilal, com seu dinheiro infinito, era o favorito nas quartas-de-final. O Fluminense, este patinho feio, o mais pobre dentre os brasileiros participantes, já teria chegado longe demais. O Tricolor passara da colossal Internazionale de Milão, mas não conseguiria superar mais uma seleção global, esta montada pelos sheiks árabes. Jornalistas, matemáticos, tarólogas e supercomputadores novamente previram e calcularam a catástrofe tricolor - e mais uma vez erraram.

De novo, agora em Orlando, os leões de Renato Gaúcho foram raçudos, lutaram por cada bola, encharcaram A Camisa de suor e conseguiram a classificação. Ao lutar contra todas as probabilidades, demonstrando uma garra descomunal, este time do Fluminense nos enche de orgulho. Sim, eles têm dinheiro, mas nós... nós jogamos com paixão.

O Fluminense está entre os quatro melhores times da Terra. É o intruso nesta semifinal de Champions League, duelando com os gigantes europeus. O chaveamento está desenhado, com Paris Saint-Germain, Real Madrid, Chelsea... e o Fluminense!

Martinelli marcou o primeiro gol tricolor sobre o Al-Hilal. E que gol, que golaço! Mesmo torto, sem a posição ideal, sem o momento necessário, desferiu um chute perfeito, irretocável, no ângulo do goleiro Bono. O Fluminense saía na frente.

Irritantemente, os árabes conseguiram empatar no começo do segundo tempo, numa bola parada, um momento de descuido do onze tricolor, que foi suficiente para Marcos Leonardo igualar o placar. Talvez tenha sido necessário, aquele golpe que faz o boxeador relembrar que precisa estar atento, sempre.

Na sequência, de fato, o Fluminense acordou, voltou a ter fome e sede de vitória. Cada bola precisava ser nossa. Foi neste espírito que o menino Hércules realizou aquele desarme espetacular. Foi neste espírito que Samuel Xavier moveu cada músculo de seu corpo para dar o maior salto de sua vida e ganhar aquela disputa. E coube ao próprio Hércules receber na frente e finalizar no cantinho. Era o gol.

Gol do Fluminense. Hércules, de novo ele, o menino com nome de semideus, que marcou contra a Internazionale, fez mais um contra o Al-Hilal. Nós estamos na semifinal da Copa do Mundo e, mais do que isso, estamos jogando o melhor futebol do torneio. Sim, eles ainda são os favoritos, nós somos a zebra, mas repito o que venho dizendo: A Camisa já mostrou que, quando devidamente molhada de suor, pode tudo – pode até mesmo, quem sabe, levantar esta Copa do Mundo aos céus de Nova Jersey, no domingo.

O Profeta coça sua longa barba branca e sorri, enquanto contempla as faixas de velhos triunfos penduradas nas paredes de sua caverna. Ainda ecoa o vaticínio repetido em sua voz rouca: "Fluminense campeão, Fluminense campeão!".

PCFilho

terça-feira, 1 de julho de 2025

Resenha: Internazionale 0 x 2 Fluminense

Foto: Marcelo Gonçalves/Fluminense FC. 


Amigos, a história se escreve em três cores. Daqui a dois séculos, os nossos livros, os nossos dicionários, as nossas enciclopédias e os nossos almanaques ainda dedicarão páginas à gloriosa tarde em que o Fluminense derrotou os vice-campeões europeus, na charmosa Carolina do Norte.

A Internazionale de Milão, este colosso italiano, era a favorita dos jornalistas e dos analistas, dos matemáticos e das tarólogas, até dos computadores. E eu entendo – afinal, é um time mais rico, é uma seleção mundial que faz jus ao nome do clube. Compram craques globais aos montes, da mesma forma que nós quando vamos à feira comprar tomates e abacates.

Porém, do outro lado da cancha, estava o Fluminense, com um passarinho em cada ombro, calçando nos pés as duras e feias sandálias da humildade, mas envergando A Camisa mais pesada do mundo, disposto a novamente desafiar o impossível, apoiado por milhares nas arquibancadas e por milhões nas ruas.

E que coisa maravilhosa é a multidão tricolor, esta família em que todos são bem-vindos. Seja no estádio Bank of America, seja na sede histórica em Laranjeiras, seja na praia de Copacabana, seja em cada bar e restaurante com uma TV ligada, multiplicam-se os abraços entre velhos conhecidos e novos colegas de arquibancada, os sorrisos que constroem amizades, as tempestades de bandeiras e de pó-de-arroz.

Dentro das quatro linhas, no campo físico do jogo, estavam os leões de Renato Gaúcho, que compram a ideia e se transformam nos nossos legítimos representantes. Amigos, o onze tricolor lutou por cada bola, do primeiro minuto ao apito final em Charlotte. Estavam dispostos a deixar tudo no gramado, pela vitória. Todo o sangue, todo o suor, todas as lágrimas.

O gol de Germán Cano, que abriu o placar, era um acontecimento cósmico inevitável, em seu jogo número 200 com A Camisa. Quando aquela bola sobrou na pequena área, houve um suspense total, em que até o movimento de translação da Terra cessou. Só existiam no universo Germán Cano, a bola e o gol. Naquela fração de segundo, ele encontrou o céu. O artilheiro quer o mundo.

Já o tento de Hércules, que decretou a vitória tricolor nos minutos finais, foi a coroação da atuação irretocável do time e da torcida, foi o gol do alívio, foi o presente dado a quem merecia. E nós fizemos por merecer aquela catarse, aquela apoteose do menino com nome de semideus.

Falando em mitologias, na arena metafísica também estivemos imbatíveis, sob a benção de João de Deus. Como não enxergar o Gravatinha ou a Leiteria de Castilho naquelas duas bolas que a Internazionale chutou na trave, no segundo tempo? Como não sentir a presença e a influência daqueles que supostamente não estão mais aqui? Talvez mais do que nunca, os fantasmas de nossas velhas vitórias vieram nos ajudar. Eu brindo nosso triunfo épico também a eles, de Armando Giesta a Maurício Lima, de Marco Aquino a meu tio João, a Marcos Carneiro de Mendonça, a Carlos Alberto Torres, a Ézio, a Oscar Cox.

Lógico, já apareceram os idiotas da objetividade, os lorpas e os pascácios apontando que os europeus não estão levando a Copa do Mundo a sério, que a Internazionale também não é isso tudo, que estão em crise, etcetera e tal. Para eles, a vitória do Fluminense foi um mero acidente, uma conjunção de fatores aleatórios, uma simples obra do acaso. 

Mas continuamos sonhando. Repito o que venho dizendo: amigos, A Camisa já mostrou que, quando devidamente encharcada de suor, pode tudo – pode até mesmo, quem sabe, levantar esta Copa do Mundo aos céus de Nova Jersey, no dia 13.

Estamos nas quartas de final, junto com outros escudos pesados, junto com times patrocinados por fortunas incalculáveis. Todos eles têm mais dinheiro que nós, mas nós temos A Camisa, só nós temos A Camisa. A história, repito, se escreve em três cores.

Enquanto contempla as faixas de velhos triunfos penduradas nas paredes de sua caverna, o Profeta coça sua longa barba branca e sorri. Ainda ecoa o vaticínio repetido em sua voz rouca: "Fluminense campeão, Fluminense campeão!".

PCFilho

quinta-feira, 26 de junho de 2025

Resenha: Fluminense classificado

A torcida tricolor em Miami. Foto: Lucas Merçon/Fluminense FC. 


Amigos, o Fluminense se classificou às oitavas de final da Copa do Mundo de Clubes, nos Estados Unidos, após o empate com o Borussia Dortmund, a vitória de virada sobre o Ulsan HD e o empate com o Mamelodi Sundowns.


Não foram jogos fáceis, a despeito do que muitos previram, adeptos de um discurso tão fácil quanto falso, de que na África e na Ásia não se joga um bom futebol. No segundo jogo, os sul-coreanos impuseram uma correria que parecia coisa de desenho animado. No terceiro, os sul-africanos mostraram uma disciplina tática espantosa. Foram dois adversários à altura de Fluminense e Borussia Dortmund e não ficaram devendo nada a ninguém.


O Fluminense sofreu. Por vezes, a classificação esteve por um fio. Nossa defesa era bombardeada mas conseguia manter a cidadela intacta. O goleiro Fábio operou milagres estupendos, à imagem e semelhança de Castilho. Thiago Silva, Freytes e Ignácio foram gigantes como um Pinheiro, um Edinho e um Ricardo.


O Fluminense sofreu. Nossos homens de frente perderam gols feitos, atrapalhados por um nervosismo exagerado. Jhon Arias, nosso bravo meia-atacante colombiano, foi caçado a chutes e pontapés, por oponentes desesperados com sua poesia em chuteiras.


O Fluminense sofreu. Vivenciamos nestes dias três dos duelos mais brutais de nossa centenária história, três batalhas épicas que tão cedo não serão esquecidas, por nós e por todos. Mas passamos.


E é nas dificuldades que se forjam os campeões. A minha esperança é de que, nestes três jogos dramáticos em terras ianques, tenha nascido um novo time de guerreiros, capaz de honrar nossa tradição de desafiar o impossível.


Porque A Camisa já mostrou que, quando devidamente encharcada de suor, pode tudo. Pode até mesmo, quem sabe, levantar esta Copa do Mundo aos céus de Nova Jersey, no dia 13.


Estarão nas oitavas de final da Copa do Mundo os poderosos europeus, os três clubes mais ricos do Brasil, e A Camisa, cuja história se escreve em três cores. Seguimos em frente, com um passarinho em cada ombro, e as duras e feias sandálias da humildade nos pés.


Enquanto contempla as faixas de velhos triunfos penduradas nas paredes de sua caverna, o Profeta coça sua longa barba branca e sorri. Ainda ecoa o vaticínio repetido em sua voz rouca: "Fluminense campeão, Fluminense campeão!".


PCFilho

quarta-feira, 18 de junho de 2025

Resenha: Fluminense 0 x 0 Borussia Dortmund


Escreveu uma poetisa, certa feita, que "amor" é uma palavra, duas sílabas, quatro letras e três cores. Quando o Fluminense entrou no gramado do Estádio MetLife para estrear na primeira Copa do Mundo de Clubes, era amor que invadia o meu peito. Uma palavra, duas sílabas, quatro letras e três cores.

Confesso que chorei na arquibancada em Nova Jersey. Passou um filme, como dizem por aí. A paixão inexplicável desde a mais remota infância, Ézio me ensinando pela TV o que era gol, a agenda que eu tinha do Fluminense com detalhes da história do clube, os difíceis anos noventa, o triunfo de Florianópolis, a dor infinita de nosso Maracanazo, a batalha do Couto Pereira e por aí foi.

Como segurar as lágrimas ao me lembrar de quem deveria estar aqui comigo vivendo isso, mas não está mais, devido à cruel imposição da natureza? Onde está tio João, onde está Marco Aquino? O Aquino com certeza teria topado essa viagem.

Eu estava meio cabreiro com o time do Fluminense, admito. E também tinha medo do poderoso Borussia Dortmund, o segundo melhor time alemão, um dos gigantes da Europa. Será que conseguiríamos jogar?

Pois o Fluminense não só jogou, amigos. O Fluminense dominou as ações do primeiro ao último minuto. Colocou os alemães na roda - como diriam os antigos, eles não viram nem a cor da bola. O empate em zero a zero foi um dos placares mais injustos que já presenciei.

Todos os atletas tricolores honraram A Camisa de uma forma que deu orgulho de ver. O Fluminense tinha onze leões famintos a correr pelo gramado nos Estados Unidos. O time entendeu a importância da missão e deixou tudo em campo, como tinha que ser. Foi uma dessas atuações antológicas, que estará para sempre gravada nas enciclopédias e nos almanaques tricolores, a despeito do placar em branco.

Sim, Everaldo tomou a decisão errada, naquele que poderia ter sido o gol da doce vitória tricolor. Faltou-lhe a ousadia de que todo centroavante precisa. Mas não crucifiquemos nosso atacante - até Waldo, o nosso eterno artilheiro, às vezes perdia uns gols de cambaxirra, como escreveu Nelson Rodrigues e como me confirmou tio João, algumas vezes. Também Everaldo foi um leão em campo, lutando bravamente por cada bola, dificultando decisivamente a transição de jogo dos alemães.

Nesta competição contra os maiores times do mundo na década, não temos como saber o que vem pela frente. A missão final parece mais que ingrata, parece mesmo impossível.

Mas uma Copa do Mundo é uma Copa do Mundo. Se continuar com a mesma vontade, a mesma entrega, a mesma fome e a mesma sede desta partida inaugural, o Fluminense pode tudo. Pode até mesmo desafiar o impossível, como já fez algumas vezes ao longo de seus 123 anos de história.

"Amor: uma palavra, duas sílabas, quatro letras e três cores" (Mariana Stofel).

PCFilho

quarta-feira, 21 de agosto de 2024

Fluminense classificado


Amigos, o Fluminense está classificado às quartas de final da Copa Libertadores da América de 2024. Em um duelo dramático, com uma vitória para cada lado, o Tricolor eliminou o Grêmio na definição por pênaltis e segue vivo no sonho do bicampeonato continental.

Foi a grande noite do goleiro Fábio, que defendeu duas das quatro cobranças do Grêmio na disputa de pênaltis, este cruel desempate que, pelo menos desta vez, fez justiça e classificou o time que jogou melhor nas duas partidas. Que história monumental constrói Fábio, aos 43 anos, ainda atuando em nível extraordinário - ele já se colocou no olimpo dos grandes arqueiros tricolores, ao lado de Marcos, Velloso, Batatais, Castilho, Veludo, Félix, Paulo Goulart, Paulo Victor, Diego Cavalieri e tantos outros. Não deve nada às lendas: trata-as como semelhantes, como iguais.

O Grêmio acabou punido pelo grave erro de ter escolhido enfrentar o Fluminense. No seu último jogo da fase de grupos, bastava vencer para evitar o confronto brasileiro tão precoce. Mas não: na decisão mais burra de sua centenária história, o Grêmio escolheu enfrentar A Camisa - e sofreu as consequências de tamanha estupidez.

E que espetáculo fez a torcida tricolor, nas arquibancadas do Maracanã. Não é à toa que o Fluminense jamais perdeu uma partida de mata-mata de Libertadores como mandante. Quando o clube precisa de número, acontece o suave milagre descrito por Nelson: os vivos, doentes e mortos sobem as rampas, os vivos saem de suas casas, os doentes de suas camas e os mortos de suas tumbas. E juntos empurramos as três cores rumo ao seu destino de perene glória.

E que jogador é Paulo Henrique Ganso, senhoras e senhores. Ao coordenar seus companheiros em campo, o maestro vai desenhando e construindo as vitórias tricolores, passe a passe. Ele parece antecipar tudo o que vai acontecer no campo - e antecipa mesmo. E que obra de arte ele quase pintou: com um totozinho de primeira, fez a bola encobrir o goleiro, antes de caprichosamente beijar o travessão. Teria sido um daqueles golaços antológicos, repetidos ad aeternum, até o Sol virar uma bola de cristal e depois disso.

E o que dizer de Thiago Silva? Aos 39 anos, o homem voltou ao lar e segue sendo o melhor zagueiro em atividade no mundo. Que atuação primorosa - e que merecida recompensa, o gol que abriu o placar no Maracanã, numa cabeçada estrondosa, que já merece um verbete nas enciclopédias tricolores.

E Jhon Arias, amigos, este incansável colombiano? Corre os noventa minutos, se necessário até mais. É um maratonista. Não há quem molhe mais A Camisa do que ele. Converteu seus dois pênaltis, um no jogo, um na disputa, com sua habitual e inigualável categoria. E houve quem dissesse que Arias fugia das decisões - meu Deus do céu, perdoe tamanha cegueira futebolística.

Eu poderia tecer loas aqui para cada um dos guerreiros tricolores. Todos, sem exceção, colaboraram para o grande triunfo tricolor. A verdade é que o Fluminense inteiro cresceu com a desvantagem inicial. Todos, em campo e nas arquibancadas e cadeiras, nos agigantamos. Foi uma atuação magnífica do time, da torcida e d'A Camisa, numa simbiose imparável. Força, glória e tradição: o próprio Real Madrid não conseguiria resistir.

Coçando sua longa barba branca e contemplando a mesma Lua cheia que iluminou o Maracanã, o Profeta sorri. O homem volta a olhar as faixas de velhos e recentes triunfos, penduradas nas úmidas paredes da caverna que habita. O futebol há de nos continuar dando o que merecemos. "Quem espera sempre alcança, quem espera sempre alcança", ecoa a voz do ancião, no verde vale da esperança. Estamos a cinco noites de uma nova e eterna glória.

PCFilho

sexta-feira, 1 de março de 2024

A Recopa é tricolor

Foto: Lucas Merçon/Fluminense FC.

Amigos, a América do Sul continua tricolor. Na noite especial de 29 de fevereiro de 2024, o Fluminense duelou com um velho fantasma e novamente saiu vitorioso do Maracanã: a Recopa agora sorri, ciente de que dormirá eternamente ao lado de numerosas companhias, na rua Álvaro Chaves, número 41.

Convenhamos, o Fluminense ganhar uma final da LDU é um evento tão raro que só poderia mesmo acontecer num dia 29 de fevereiro. Agora temos também essa glória bissexta: poderemos dizer aos nossos filhos e netos que, de 4 em 4 anos, a gente acrescenta um dia no calendário para comemorar um grande triunfo tricolor.

E foi uma grande noite da torcida pó-de-arroz: munidos de uma certeza profética da conquista, subimos as rampas do velho estádio, os vivos, os doentes e os mortos, para mais uma vez empurrar as três cores rumo à glória. Todos nós, que vivemos as dolorosas derrotas do passado, estávamos lá. Desta vez, a taça não escaparia mais, nunca mais.

Não importam as arbitragens sempre contra nós, não importa a altitude que nos rouba o direito de respirar, não importam os adversários que batalham sem fidalguia: importa somente A Camisa, se impondo como uma bastilha intransponível.

Os deuses do futebol, esses jocosos brincalhões, trataram de colocar justamente a LDU no caminho do Fluminense, de novo. O mesmo clube que nos impedira de disputar a Recopa, duas vezes, seria agora incumbido de tentar parar nossa conquista.

Desta vez, não conseguiram. O Carrossel Tricolor de Fernando Diniz não deixaria a taça escapar. Com dois gols de Jhon Arias, um de cabeça completando cruzamento de Samuel Xavier, um convertendo pênalti sofrido por Renato Augusto, o Fluminense venceu a LDU por 2 a 0 e levantou a Recopa aos céus do Rio de Janeiro, sob os olhares atentos desta América de futebol.

O fato é que agora temos a Copa e a Recopa. E vamos tratar dos bis!

PCFilho

sábado, 23 de dezembro de 2023

Mundial de Clubes da FIFA - Fluminense 0 x 4 Manchester City



"O que as vitórias têm de mau é que não são definitivas. O que as derrotas têm de bom é que também não são definitivas" (José Saramago)

"Eu vos digo que o melhor time é o Fluminense. Podem me dizer que os fatos provam o contrário, que eu vos respondo: pior para os fatos!" (Nelson Rodrigues)

Amigos, quando terminou a decisão do Mundial de Clubes, lá nas Arábias, o Profeta tratou de juntar os seus trapos e ir embora de Laranjeiras, mas de cabeça erguida. O velho sábio era um vencido? Nunca, jamais, em hipótese alguma! Vencido, como?, se temos de admitir a verdade límpida e cristalina de que o Fluminense merecia sorte melhor?

Não cabe, contra tal constatação, nenhum argumento, nenhuma questão, nenhum sofisma, nenhuma dúvida. Alguém poderá dizer que o Profeta não previu a força bruta dos bilhões de dinheiros dos europeus.

Exato, não previu mesmo. O Profeta é do tempo do tricampeonato, quando o futebol era amador, no sentido real da palavra: os futebolistas jogavam por amor, e nossos torneios eram decididos com o coração na ponta da chuteira. Seus ídolos são Marcos, Vidal e Chico Netto, Laís, Oswaldo e Fortes, Mano, Zezé, Welfare, Machado e Bacchi, os campeões de 1919.

É que, no âmbito doméstico, o Fluminense de 2023 conseguiu vencer o abismo financeiro que o separa dos mais ricos – há uns 8 ou 9 ou 10 times com mais grana no Brasil, alguns com muito mais, e ainda assim foi o Tricolor que levantou a Copa Libertadores aos céus do Rio de Janeiro, sob os olhares atentos da nossa América de futebol.

Talvez por isso, o Profeta – e todos nós, tricolores como ele – tenhamos nos iludido com a possibilidade de derrotar o Manchester City, em Jeddah. Afinal, se submetemos o milionário Flamengo àquela derrota acachapante no Carioca, por que não poderíamos fazer o mesmo com os ingleses no Mundial?

E nós encaramos com uma coragem espetacular os campeões europeus. Qualquer outro time teria recuado, teria armado uma retranca ou um ferrolho. O Fluminense não! O Fluminense não abdicou de jogar o seu futebol, de atacar, de agredir, de partir para cima. O Tricolor aprendeu a não abaixar a cabeça para ninguém.

O próprio Guardiola admite que, se a sorte tivesse sorrido primeiro para o Fluminense, o jogo seria outro. Infelizmente, o acaso estava do lado do Manchester City. Quem poderia prever que eles ganhariam um gol com menos de um minuto de jogo? Quem diria que a tecnologia burra da FIFA marcaria o impedimento inexistente de Germán Cano, num lance óbvio de mesma linha? E o gol-contra, então, que escaparia até à vidência de um Maomé?

No segundo tempo, mesmo com a desvantagem de dois gols, contra o melhor time da face da Terra, o Fluminense continuou bravo, tentando escalar aquele Everest intransponível. Três a zero, e os guerreiros insistiam em lutar. Que time corajoso é o Carrossel Tricolor de Fernando Diniz, que não joga a toalha em momento nenhum.

O Fluminense termina 2023 como o Profeta, de cabeça erguida, orgulhoso da jornada maravilhosa que cumpriu. O ano que vem tem novos desafios. Vamos tratar da Recopa contra a LDU, do tri Carioca, do bi da Libertadores, do quinto Brasileirão. A abarrotada sala de troféus da rua Álvaro Chaves continua clamando por novos habitantes. Afinal, é de glórias que o Fluminense vive: da Taça Colombo, dos heróis de 1919, à recente Copa Libertadores, dos guerreiros de 2023.

A revolução tricolor está só começando. Quem viver verá.

PCFilho
(inspirado, como sempre, em N. R.)

segunda-feira, 18 de dezembro de 2023

Mundial de Clubes da FIFA - Fluminense 2 x 0 Al Ahly


Amigos, a caverna do Profeta está iluminada com o radiante sorriso do velho homem. Em sua jocunda felicidade, em sua incontida alegria, ele está irremediavelmente hipnotizado pela beleza do Carrossel Tricolor de Fernando Diniz. O sábio ancião viveu toda a história do Fluminense, vocês sabem, de Oscar Cox e Horácio Costa Santos a Martinelli e John Kennedy. E garante que a versão atual do Tricolor é a mais encantadora de todas.

Vocês são testemunhas oculares e auditivas de que o Profeta previu glórias e vitórias mil, ao longo dos tempos. Em 2010, quando poucos acreditavam no título do Brasileirão, quase ninguém!, o sábio vaticinou o fim do jejum tricolor com uma antecedência acachapante. Este ano, ele também teve a visão antecipada da Copa Libertadores erguida aos céus do Rio de Janeiro, sob os olhares atentos da nossa América de futebol.

Inevitavelmente, o Profeta viveu também tristezas com o Fluminense, claro, mas ele nunca se abalou. Pelo contrário, o velho homem sabia que as adversidades eram percalços necessários para a evolução. Não se chega a uma semifinal de Mundial sem aprender muito. O Carrossel Tricolor é fruto de um trabalho de gerações inteiras.

Todo clube, ao entrar em campo, representa seu passado, seu presente e seu futuro. O monumental Fábio defende a história de Marcos, Castilho, Félix, Paulo Victor e Diego Cavalieri. O obstinado Samuel Xavier é um Carlos Alberto e também um Oliveira e um Aldo. A fortaleza Nino faz um Pinheiro, um Edinho e um Thiago Silva. O destemido Felipe Melo é um Galhardo, um Ricardo Gomes e também Gum. O genial Marcelo defende o sangue de Marco Antônio, o suor de Altair e as lágrimas de Branco. O incansável André é um Denilson e um Jandir e também é Deley e Marcão. O bravo Martinelli faz um Oswaldo Gomes, um Telê e um Darío Conca. O maestro Paulo Henrique Ganso é Romeu Pellicciari e é também Samarone, Didi e Orlando Pingo de Ouro. O insinuante Keno faz um Tim, um Escurinho, um Cafuringa e também um Thiago Neves. O goleador Germán Cano é Welfare, é Flávio, é Waldo. O imparável Jhon Arias é Ademir, é Assis, é Romerito, é Hércules. Sob a batuta de Fernando Diniz, mas também de Zezé Moreira, Ondino Viera, Carlos Alberto Parreira e Abel Braga, o Fluminense joga com onze, mas parece que joga com quarenta e tantos. E quando entra John Kennedy no time, entram junto Ézio, Washington, Rivellino, Renato e Fred, e por aí vai, conforme será para todo o sempre, assim na terra como no céu.

O deserto das Arábias foi o palco da nossa mais recente vitória, os dois a zero sobre o Al Ahly. Pelo amor de Deus, ou de Alá, não façam pouco dos campeões africanos. Os egípcios lutaram como leões de esfinge e foram, especialmente no primeiro tempo, onze fanáticos, dispostos a qualquer sacrifício pelo triunfo. E até mesmo chegaram perto de abrir o placar, parando na atuação espetacular de Fábio. Eles só não conseguiram suportar os noventa minutos no mesmo ritmo: na etapa final, cansaram e sucumbiram ao irresistível Carrossel Tricolor. Marcelo sofreu o pênalti, Jhon Arias converteu a cobrança, Martinelli ganhou as divididas, e John Kennedy fechou o placar. Fluminense dois a zero.

Razão e emoção, inteligência e ousadia, estratégia e caos: em meio a suas aparentes contradições, o Carrossel Tricolor está ensinando ao mundo um novo jeito de jogar futebol.

Independente de qual for o adversário na decisão do Mundial de Clubes, o Fluminense está preparado. Venha o Urawa Red Diamonds, do Japão, venha o Manchester City, da Inglaterra, o Carrossel Tricolor está pronto para seu teste final.

A caverna, dizia eu no começo, está iluminada com o sorriso do Profeta. Penduradas nas úmidas paredes, as faixas de velhos e recentes triunfos do Fluminense são testemunhas. Contemplando o céu estrelado, o velho homem coça sua longa barba branca e imagina o futuro. Quem espera sempre alcança.

PCFilho

domingo, 5 de novembro de 2023

FLUMINENSE, CAMPEÃO DA AMÉRICA

Foto: Alexandre Cassiano.

Amigos, estava escrito em monumentais profecias de sessenta séculos: em meio ao caos, um arrepio percorreria a Cordilheira dos Andes de norte a sul e o Fluminense levantaria a Copa Libertadores aos céus do Rio de Janeiro, sob os olhares atentos desta América de futebol e da belíssima lua cheia de 4 de novembro de 2023.

E foi uma jornada maravilhosa. Do início ao fim do torneio, ninguém jogou mais bola do que o Fluminense, ninguém! Quando enfiamos irresistíveis 5 a 1 no River Plate, ainda na fase de grupos, apelidei o time de Carrossel Tricolor – convenhamos, o melhor nome possível para a bagunça organizada de Fernando Diniz, este caos em que nenhum jogador guarda posição, mas todos sabem exatamente o que precisam fazer.

E o gol que abriu o placar na decisão contra o Boca Juniors foi uma demonstração prática do Carrossel: os dois pontas – Keno e Jhon Arias – tabelando entre si em um dos lados do campo, para fazer a bola chegar a Germán Cano. Em que outro time do mundo o ponta-esquerda vai lá para a direita tabelar? É o caos, amigos, o mais perfeito caos! E quando a pelota chega ao artilheiro do mundo, o goleador mais letal que uma adaga afiada na China, não há defesa no mundo capaz de pará-lo. Fluminense 1 a 0.

E foi também o grande dia do Estádio Mário Filho. A tempestade de bandeiras tricolores no Maracanã jamais será esquecida. Com seus vivos, doentes e mortos, a arquibancada pulsante carregou o Fluminense rumo à glória eterna. Aquela gente, representando milhares, representando milhões, fez tanta história como os guerreiros no gramado. Se o clube mais tradicional do futebol brasileiro agora tem seu nome gravado na Copa Libertadores, é também graças ao nosso sangue, ao nosso suor, às nossas lágrimas.

E foi também o triunfo do futebol brasileiro. Em tempos de futebol moderno, com a rigidez europeia de jogadores autômatos, o Fluminense demonstra que ainda é possível ser campeão com base numa caótica troca de passes, com base no drible, com base na improvisação, com base na ginga que fez do Brasil a nação mais vencedora deste esporte. Foi a vitória do futebol-arte sobre a robotização.

E foi também uma história de superação de John Kennedy. O menino, que começou a vida na pobreza da favela, que começou o ano emprestado à Ferroviária de Araraquara, agora está eternizado como um dos heróis da epopeia tricolor. Coube a ele marcar, na prorrogação, aquele que seria o gol do título, do doce e santo título, com um espetacular chute de primeira – um golaço que está desde já gravado nos almanaques e nas enciclopédias tricolores.

Antes do jogo final, a caminho do Maracanã, fui abordado por um tricolor paupérrimo, provavelmente um sem-teto. Ele me fez somente um pedido, um comovente pedido: queria tocar na Camisa do Fluminense. O homem beijou o escudo e fez o vaticínio: "nós vamos ganhar! Estou há quinze anos com esse grito entalado! Nós vamos ganhar!". E nós ganhamos.

Também o Profeta havia feito a previsão. Após cada triunfo durante a campanha, lá estava ele, na distante caverna que habita, coçando sua longa barba branca e repetindo: "o Fluminense será o campeão! o Fluminense será o campeão!". E o Fluminense foi o campeão. 

A Copa Libertadores sorri com seu destino perfeito: a abarrotada sala de troféus da rua Álvaro Chaves, onde descansará em excelente companhia. Enfim, estão cumpridas as profecias de seis milênios: o Fluminense é o campeão da América!

PCFilho

quinta-feira, 5 de outubro de 2023

A vitória da Camisa

Foto: Pedro H. Tesch/getty. 

Amigos, nós estamos na final da Copa Libertadores. Em uma partida dramática, o Fluminense, que perdia por 1 a 0 no Beira-Rio, conseguiu virar para 2 a 1 no finalzinho e vai à decisão continental, quinze anos depois de 2008. O sonho de conquistar a América continua.

E convenhamos, a classificação do Fluminense é para lá de merecida. Apesar de o Carrossel Tricolor não ter feito suas melhores exibições contra o Internacional, é um time mais técnico, mais aguerrido e mais valente que o adversário. A verdade é que fomos assaltados no primeiro jogo, no Maracanã, com a injustificável expulsão de Samuel Xavier, e isso mudou todo o panorama do duelo. Para piorar o que já estava ruim, começamos o jogo do Beira-Rio sofrendo um gol acidental, uma obra do demônio, um lance tão surreal que Nelson Rodrigues atribuiria ao Sobrenatural de Almeida. A partir dali, precisaríamos marcar dois gols, na casa lotada do adversário: era a prova de fogo definitiva.

Mas quem espera sempre alcança, amigos. Quem espera sempre alcança! A torcida do Fluminense não desiste nunca. Já nos minutos derradeiros, John Kennedy e Germán Cano fizeram aqueles que seriam os gols da classificação. No primeiro, passe de Cano e gol de Kennedy; no segundo, passe de Kennedy e gol de Cano: dois lances épicos que estarão para sempre nos almanaques e nas enciclopédias tricolores. Era a virada, a doce e santa virada tricolor em Porto Alegre.

Mas foi engraçado: nós estamos há semanas ouvindo que "o Fluminense não tem camisa". E que ironia, amigos, que ironia: no fim, foi justamente a Camisa que ganhou a semifinal. Quando o Internacional vencia por 1 a 0, teve três chances claras e cristalinas de liquidar o confronto, três oportunidades obscenas de gol. O bravo atacante colorado tinha a faca e o queijo na mão, por três vezes, e em todas elas parou diante da Camisa.

No fim, já após a virada, o Internacional ainda teve sua chance final, em uma cabeçada com endereço certo. Mas lá estava o monumental Fábio, que o Fluminense resgatou da aposentadoria, para fazer um milagre e garantir a vitória. Lá estava também a Camisa, a intransponível Camisa.

Reparem que escrevo Camisa com C maiúsculo. O manto do Fluminense merece essa distinção. Não é qualquer uniforme, amigos. A Camisa é pesada, a mais pesada do país. Lorpas e pascácios podem menosprezá-la o quanto quiserem, que ela continua inexpugnável. Não foi à toa que inventamos o futebol brasileiro como ele é, não foi à toa que fundamos a própria Seleção Brasileira em nosso solo sagrado. Clube com mais história sabemos que não há.

Coçando sua longa barba branca, fitando as faixas de velhos triunfos penduradas nas úmidas paredes da caverna que habita, o Profeta repete seu vaticínio: "o Fluminense será campeão, o Fluminense será campeão!". Quem viver verá.

PCFilho

sexta-feira, 1 de setembro de 2023

Guerra, arte e o Fluminense na semifinal


Amigos, o futebol há de dar a quem merece o que merece. O Fluminense está na semifinal da Copa Libertadores da América de 2023. O Olimpia não foi páreo para o Carrossel Tricolor de Fernando Diniz e perdeu as duas partidas do duelo, no Rio e em Assunção. Os tricolores podem festejar, e de fato já vejo nas esquinas da cidade o sorriso jocundo dos classificados. A alegria que um pó-de-arroz emana pode ser sentida a centenas de metros, ou mesmo a quilômetros.

Amigos, essa tal de Copa Libertadores é uma selva. No Defensores del Chaco, na noite desta já épica quinta-feira, os homens do Fluminense eram caçados como autênticos javalis. Os paraguaios não davam trégua, distribuíam bordoadas a cada disputa, a cada bola dividida. O futebol tem mesmo um pouco de guerra, mas não pode ser só guerra.

Há que se ter também um pouco de arte, além da guerra. E é nisto que este Fluminense se destaca, nesta combinação de arte com guerra. Se temos em Nino, Felipe Melo e André três cavaleiros incansáveis na defesa da cidadela, temos também um Keno a desenhar no gramado um passe geometricamente perfeito para John Kennedy abrir o placar, temos um John Kennedy dando um drible desconcertante no zagueiro para abrir caminho para o primeiro gol de Germán Cano. Arte, arte, arte!

O menino John Kennedy só tem vinte e um anos, mas não abaixa a cabeça para ninguém. Teve, nesta quinta-feira, uma atuação de que até o rei Pelé se orgulharia. Fugiu das cacetadas dos paraguaios e promoveu a minuciosa destruição da defesa, com seus dribles, sua ginga e sua velocidade. A entrada de John Kennedy no time deu nova vida ao Fluminense: o Carrossel Tricolor está de volta, em sua melhor forma, em seu melhor esplendor.

E quem é Fábio, senão um versátil homem que faz guerra e também arte, ao executar verdadeiros milagres em forma de defesas? Em Assunção, o goleiro do Fluminense aprontou uma que espantou a todos, um lance de reflexo que mais pareceu uma monumental intervenção divina - e talvez tenha sido mesmo. São Castilho, rogai por nós, sempre.

Quando Germán Cano, um centroavante que tem fome e sede de gol, tal qual Welfare, tal qual Waldo, tal qual Flávio, tal qual Fred, colocou lá dentro o terceiro do Fluminense, começou de vez a festa da torcida tricolor: estávamos, definitivamente, na semifinal da América do Sul.

A três noites da glória, o Profeta tem a visão da Copa Libertadores erguida aos céus do Rio de Janeiro, sob a Lua cheia de 4 de novembro. Fitando as faixas de velhos triunfos, penduradas nas úmidas paredes da distante caverna que habita, o velho homem coça sua longa barba branca e sorri. Ele sabe que quem espera sempre alcança.

PCFilho

terça-feira, 8 de agosto de 2023

Fluminense 2, Argentinos Juniors 0


Amigos, já constatei outras vezes e volto a dizer: tenho pena de quem não é Fluminense. Como deve ser monótona, entediante, chata mesmo, a vida de um não-tricolor.

Obviamente, os torcedores de todos os clubes consideram suas próprias paixões especiais, únicas. Porém, os tricolores sabem que o Fluminense, de fato, é diferente.

O Fluminense é o único que visitou o último círculo do inferno, encarou o próprio capeta nos olhos e voltou de lá para o seu devido paraíso de glórias. E ele nunca caminhou sozinho: nós, tricolores, sempre estivemos ao seu lado, jamais o abandonamos. Nós, os torcedores do Fluminense, demos a maior prova de fidelidade da história do esporte no mundo.

A obsessão pela Copa Libertadores, essa taça que já deveria ter nosso nome gravado, levou mais de sessenta mil fanáticos ao Maracanã. E o estádio estava tão lindo, amigos, tão lindo, que até parecia o velho templo de outrora, cujo cimento testemunhou boa parte da nossa épica jornada até aqui.

E o torcedor pó-de-arroz cumpriu papel fundamental na vitória sobre os argentinos. Quando o onze  tricolor tropeçava no gramado, as vozes da arquibancada o levantavam, como Simão de Cirene e Verônica ajudando Jesus na Via Crúcis. Tamanha sintonia entre time e torcida não poderia ter outro resultado que não o triunfo.

E não haveria herói melhor do que Samuel Xavier para derrubar a cidadela argentina: nosso lateral-direito, que molha tanto a camisa, que mais parece um torcedor dentro de campo, marcou tanto em Buenos Aires como no Rio de Janeiro. E comemorou como uma criança de arquibancada, com a camisa tricolor e a bandeira ao vento.

Quando, já nos acréscimos, o menino John Kennedy guardou o segundo, decretou a classificação do Fluminense e iniciou de vez a festa da torcida tricolor no Maracanã: estávamos mesmo nas quartas-de-final da América do Sul.

A cinco noites da glória, o Profeta tem a visão da Copa Libertadores erguida aos céus do Rio de Janeiro, sob a Lua cheia de 4 de novembro. Fitando as faixas de velhos triunfos, penduradas nas úmidas paredes da distante caverna que habita, o velho homem coça sua longa barba branca e sorri. Ele sabe que quem espera sempre alcança.

PCFilho

domingo, 7 de maio de 2023

O Carrossel Tricolor


Amigos, na terça-feira 2 o Maracanã foi palco de uma das maiores exibições de futebol do século, quando o Fluminense impôs ao River Plate sua maior derrota na história da Copa Libertadores, com inapeláveis 5 a 1, que poderiam ter sido mais.

Ainda que o ótimo quadro argentino tenha conseguido equilibrar as ações no primeiro tempo, não resistiu na etapa complementar, sucumbindo à envolvente troca de passes do Carrossel Tricolor – um Fluminense que transforma ordem em caos e conduz o adversário a uma densa floresta em que somente ele, o Fluminense, conhece a saída.

O time de Fernando Diniz dita o ritmo do jogo, qualquer que seja o adversário. O Carrossel Tricolor é um Fluminense que comanda as ações, que conhece o seu tamanho, que faz jus à sua história. A bola é nossa, os rivais que corram atrás.

Estamos sendo testemunhas de recitais de uma orquestra – que, como qualquer sinfônica internacional, precisa de um maestro qualificado. Amigos, tal qual Romeu Pellicciari no timaço hegemônico dos anos 30 e 40, Paulo Henrique Ganso é onipresente. Onde quer que o Fluminense esteja trocando passes, lá está o camisa 10, se apresentando como opção ou indicando para quem o próximo passe deve ir – com uma capacidade analítica monstruosa, de quem parece enxergar o jogo de cima.

Mas não é só de arte que vive o Fluminense. No futebol, é necessário ser agressivo – e esse time sabe ser agressivo. Quando o oponente ousa tomar nosso brinquedo favorito, a bola, os guerreiros tricolores improvisam uma blitz para recuperar sua posse imediatamente. Ela é nossa, não de vocês. É com a gente que ela tem que ficar.

Falando em agressividade, lembro-me de Jhon Arias e Germán Cano, a dupla dinâmica responsável pelos cinco gols que destruíram a cidadela do River Plate. É uma pareja letal, que está ali justamente para fazer desmoronar qualquer muro que o adversário construa em sua grande área. Nossos atacantes fazem guerra – ainda que seus gols sejam autênticas obras de arte, que poderiam estar expostas no Louvre ou no Prado. Também há beleza na destruição.

Ainda não sabemos se o Fluminense conquistará as glórias que a torcida tricolor tanto almeja, a inédita Copa Libertadores, o Campeonato Brasileiro que não vem desde 2012, a Copa do Brasil que sua irmã de 2007 espera. Mas desfrutem desse time: o Carrossel Tricolor é um espetáculo em si.

O futebol há de nos dar o que nós merecemos.

PCFilho

segunda-feira, 10 de abril de 2023

RESENHA: FLUMINENSE, BICAMPEÃO CARIOCA


Amigos, a torcida tricolor teve o sentimento do triunfo. Aconteceu então o seguinte: vivos, doentes e mortos subiram as rampas do Maracanã. Os vivos saíram de suas casas, os doentes de suas camas e os mortos de suas tumbas. E, diante dos torcedores de seu presente e dos fantasmas de seus velhíssimos triunfos, o Fluminense se impôs ao Flamengo mais uma vez. Foi uma avalanche incontrolável: um gol, dois, três, quatro gols.

O adversário, com seu time campeoníssimo, recheado de craques, possuía antes do jogo uma escandalosa vantagem de dois gols. Ouvi durante a semana que a tarefa do Fluminense seria muito difícil, beirando o impossível. "Você sabe que não vai dar, né?".

Pois o Fluminense, tal qual na arrancada histórica de 2009, não sabendo que a virada era uma façanha impossível, foi lá e fez. Para o Tricolor, o impossível é temporário.

A épica virada do Fluminense sobre o Flamengo na decisão do Campeonato Carioca já está para sempre gravada nos dicionários e enciclopédias do futebol brasileiro. Daqui a mil anos, este jogo será comentado nas esquinas e nos botecos, por torcedores mordidos de nostalgia: "ah, aquele Fla-Flu!".

Germán Cano também já é verbete obrigatório nos livros de história do nosso esporte. Ao decidir duas finais Fla-Flu, tem lugar reservado ao lado de Assis, no panteão dos heróis máximos do clássico eterno. O argentino tem o faro de gol de um Welfare, de um Waldo, de um Flávio, de um Fred. É um artilheiro com fome e sede de gol.

Mas a virada tricolor começou com o gol de Marcelo, o homem que voltou da Europa após 17 anos, disposto a retribuir graças ao Fluminense, seu clube formador. E que golaço foi: uma obra de arte que deveria estar exposta permanentemente em algum grande museu deste mundo. Marcelo chega para ser a cereja no bolo do time que joga o melhor futebol do país.

Sim, o melhor futebol do país! O Fluminense de Fernando Diniz joga o melhor futebol do Brasil, quiçá do continente ou até do mundo. E foi exatamente por isso que conquistou o bicampeonato: o Flamengo tem mais dinheiro, o Fluminense tem mais futebol.

A taça do Campeonato Carioca de 2023 agora sorri, ciente de seu destino eterno: a abarrotada sala de troféus da rua Álvaro Chaves, onde descansará em excelente companhia.

Vamos para mais.

PCFilho

domingo, 3 de abril de 2022

RESENHA: FLUMINENSE, CAMPEÃO CARIOCA DE 2022!


Amigos, o Fluminense é o campeão do Rio de Janeiro, coberto de glória da cabeça aos pés. E foi uma conquista merecidíssima: nenhum rival chegou perto de apresentar o futebol do Tricolor, que dominou o certame das rodadas iniciais até a apoteose deste sábado. O time de Abel Braga foi, indiscutivelmente, o melhor de todos, o senhor do campeonato.

É verdade que, na semifinal, o Botafogo se aproveitou da única má atuação do Fluminense e quase conseguiu tirar nossa vaga. A monumental injustiça estava de fato prestes a se consumar, mas o gol salvador de Germán Cano, nos acréscimos do segundo tempo, restabeleceu a ordem natural das coisas, pondo o Fluminense na decisão.

Ah, a decisão, o Fla-Flu, esse clássico com vida própria, que desperta as multidões. O Flamengo, que nasceu do Fluminense e desde então tenta obstinadamente superá-lo. O Fluminense, que encara cada duelo com sua dissidência como se fosse a última de todas as batalhas. Sim, o Fla-Flu nasceu de um ressentimento, vive numa sinuosa montanha-russa de emoções e só morrerá no fim dos tempos (desconfio que o Armageddon será um Fla-Flu).

Do lado de lá da finalíssima, os rubro-negros exalavam confiança. O Flamengo, com seu time milionário, biônico, forjado em cotas de TV e patrocínios estatais injustificáveis, com dez dias de descanso, com a arbitragem sempre amiga, parecia mesmo o favorito, apesar da melhor campanha do Fluminense.

Do lado de cá, os tricolores estavam cabreiros. O Fluminense, que jogara contra o Botafogo três dias antes, teve que partir para a decisão imediatamente, sem repouso algum. Com muito menos dinheiro que o Flamengo, com muito menos cartaz que o Flamengo.

Mas já dizia Nelson: um título não é conquistado num único dia, numa única tarde; não, um título é todo sangue, todo suor e todo lágrimas de um campeonato inteiro. O Fluminense não começou a ser campeão ao vencer por 2 a 0 o primeiro jogo da decisão, na quarta-feira. Não, o Fluminense começou a ser campeão antes, muito antes. Durante a campanha da Taça Guanabara é que foi sendo construído o time campeão. Naquelas vitórias magras, quase sempre por 1 a 0, que pareciam arrancadas a fórceps, foi sendo moldado o caráter vencedor. Nós não enxergávamos ainda, mas o título já se desenhava.

O atacante mais badalado do Flamengo chegou a declarar que o Fluminense deveria ter medo do rubro-negro, em uma demonstração de arrogância difícil de entender, já que o rival vinha experimentando seguidas derrotas para o Tricolor.

Na hora da verdade, o Flamengo não chegou nem perto de ameaçar o título do Fluminense. Os tricolores, que brigavam por cada bola, não deram sopa para o azar. Mesmo quando o Flamengo diminuiu nossa vantagem, o Fluminense manteve os nervos no lugar. Não tardamos a restabelecê-la, com aquela estonteante troca de passes entre Paulo Henrique Ganso, Cris Silva e Jhon Arias, resultando no gol de Germán Cano.

A vitória do Fluminense sobre o Flamengo na decisão já está para sempre gravada nos dicionários e enciclopédias do futebol brasileiro. Com seus três gols, Germán Cano já está na companhia de Marcos Carneiro de Mendonça, Machado, Welfare, Bacchi, Russo, Hércules, Batatais, Pedro Amorim, Romeu Pelliciari, Flávio Minuano, Manfrini, Assis e Renato Gaúcho, na galeria de heróis tricolores dos Fla-Flus decisivos.

A taça do Campeonato Carioca de 2022 sorri, sabendo seu destino eterno: a abarrotada sala de troféus da rua Álvaro Chaves, onde descansará em excelente companhia.

E está só começando. Vamos para mais.

PCFilho

quinta-feira, 17 de março de 2022

O Fluminense e a Copa Libertadores



O relacionamento conturbado entre o Fluminense e a Copa Libertadores não é nada fácil de entender – é uma história que já está entre as mais loucas da história de todos os esportes.

Começou em 1971. O Fluminense vinha de conquistar o maior Campeonato Brasileiro de todos os tempos. Iniciou a campanha da Copa Libertadores com quatro vitórias avassaladoras, uma sobre o Palmeiras, três sobre os venezuelanos da chave. Faltava um único e escasso pontinho para garantir a vaga nas semifinais, mas o Tricolor conseguiu o mais difícil: perdeu para o Deportivo Itália em pleno Maracanã (após ter vencido o mesmo adversário por 6 a 0 na Venezuela) e depois perdeu novamente para o Palmeiras, entregando a vaga ao rival paulista.

Em 1985, novamente o Fluminense tinha um timaço, era o campeão brasileiro e o favorito do grupo, mas se enrolou e deixou os dois argentinos da chave – clubes que não são considerados grandes por lá – se classificarem (um deles, o Argentinos Juniors, conquistaria o título daquela Libertadores).

2008 dispensa comentários – aquela campanha mágica que terminou da maneira mais trágica possível. Aquele time goleou o Arsenal de Sarandí, então campeão da Copa Sul-Americana, por 6 a 0. Nas oitavas-de-final, eliminou o Atlético Nacional da Colômbia com duas vitórias. Nas quartas, venceu o São Paulo de Muricy, único tricampeão brasileiro de todos os tempos. Nas semifinais, derrotou o melhor Boca Juniors da história, pondo fim à hegemonia do clube argentino naquela década. Na final, após 45 minutos de desastre na altitude, o Fluminense protagonizou a maior reação de uma final de Libertadores, para tudo terminar nos malditos pênaltis, com a LDU sendo a pior campeã da história, tendo apenas 5 vitórias em 14 jogos (vide figura abaixo, com os aproveitamentos de todos os campeões).

Entre 2011 e 2013, mais uma vez com um senhor timaço, o Fluminense dominava o futebol brasileiro, mas na Libertadores não conseguia nada – eliminações para o Libertad em 2011, para um Boca Juniors turbinado pela arbitragem em 2012, e para o Olimpia em 2013. Todos os três, times que não tinham a menor condição de fazer frente ao esquadrão que fazia chover nos gramados tupiniquins.

Em 2021, o Fluminense retornou à competição. Voltou às quartas-de-final. O adversário era o Barcelona de Guayaquil, notoriamente mais fraco. Mas vieram dois empates e a eliminação nos gols fora de casa – um critério bizarro que, semanas depois, a Conmebol decidiu abolir de suas competições. Que timing. (No returno do Brasileirão, o Fluminense venceu tanto o Flamengo, que seria o adversário na semifinal, quanto o Palmeiras, que seria o oponente na final...)

Para a Libertadores de 2022, o Fluminense estava se classificando para a fase de grupos, obtendo a última vaga do Campeonato Brasileiro. Mas é claro que não seria tão fácil: o Bragantino, com as asas da patrocinadora, marcou um gol no último minuto de seu último jogo e mandou o Fluminense para as fases preliminares. No sorteio, nos tocou a chave com Millonarios e depois Olimpia – que viria a nos eliminar novamente, na maldita disputa de pênaltis, na já inesquecível noite de ontem.

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O último jogo do Fluminense com torcida no Maracanã na Libertadores foi em 2 de julho de 2008. Parece que tem uma coisa, um encosto, um sete-pele impedindo o reencontro depois daquela noite. Coisa de doido.

Entre 2011 e 2013, o Maracanã estava em reformas para a Copa do Mundo. Em 2021, o Fluminense pôde jogar lá, mas sem torcida, devido à pandemia. Em 2022, o reencontro parecia inevitável, mas a troca do gramado nos forçou a jogar as fases preliminares em São Januário e Engenhão. E a loucura de ontem nos tirou da fase de grupos.

A noite de 2 de julho de 2008 não terminará jamais?

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Para vocês examinarem a loucura dessa relação entre Fluminense e Libertadores: nos confrontos contra times brasileiros, argentinos e colombianos em mata-mata, só tivemos UMA eliminação (para o Boca Juniors em 2012). Em 2008, passamos por Atlético Nacional, São Paulo e Boca Juniors. Em 2012, tiramos o Internacional. Em 2022, eliminamos o Millonarios. 

Contra times de Paraguai e Equador, países com muito menos expressão no futebol, já são cinco eliminações (LDU em 2008, Libertad em 2011, Olimpia em 2013, Barcelona de Guayaquil em 2021 e Olimpia em 2022). Como explicar essa loucura?

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Podemos discutir falhas táticas ou individuais, mas para mim o maior erro é estratégico. É enfrentar Olimpias e Barcelonas como se fossem jogos de igual para igual.

Não são. Contra times com uma fração do seu orçamento, o Fluminense tem que passar o trator, deveria vencer aqui e lá sem deixar margem para dúvidas.

Não é falta de respeito, mas sim constatação da realidade. O time do Olimpia é medíocre e dificilmente conseguiria escapar do rebaixamento no Brasileirão.

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"Começo minha crônica anunciando logo: o Fluminense nunca vencerá a Copa Libertadores da América. É isso mesmo: o Fluminense nunca vencerá a Copa Libertadores da América."

Iniciei meu texto de 30 de maio de 2013 com as palavras acima. Convenhamos, com o histórico que descrevi acima, parece mesmo uma conclusão razoável.

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Por quê?

PCFilho

sábado, 29 de agosto de 2020

Quem tem Fred não morre pagão

Foto: André Durão.

Amigos, quando Fred voltou ao Fluminense, muitos torceram o nariz. "Já está acabado para o futebol", disseram. "É um ex-jogador em atividade", gritaram. Nem mesmo ao vencer de bicicleta os 450 quilômetros de Belo Horizonte ao Rio de Janeiro, o centroavante convenceu os críticos de que ainda está em forma. "Pura jogada de marketing", vociferaram.

E nas primeiras atuações, o camisa nove de fato esteve apagado. Não parecia o mesmo Fred, aquele bom e velho artilheiro do Fluminense e da Seleção Brasileira. A bola chegava, mas batia em suas canelas e escapava, tal qual a batata quente das brincadeiras do jardim de infância.

Neste sábado 29, o Fluminense vencia o Vasco por 1 a 0, graças a um golaço de Dodi no início do primeiro tempo. O cronômetro chegava aos trinta minutos da etapa final, quando Odair Hellmann chamou Fred no banco de reservas. Ele entrou e, como sempre, só tinha um pensamento: marcar um gol e definir o clássico. O artilheiro é assim: obcecado com o gol. Ele dorme pensando no gol, sonha com o gol e acorda querendo fazer o gol.

Fred só estava em campo havia cinco minutos. Sua camisa tricolor sequer estava molhada. Contra-ataque do Fluminense, Wellington Silva aciona Ganso, que toca para Fred. Ele ainda está longe do gol, mas vê o caminho aberto e não hesita: chuta forte da entrada da área. O bom goleiro do Vasco salta, se estica todo, até encosta na bola com as pontas dos dedos, mas não consegue evitar o gol de Fred.

O golaço de Fred. O 173° gol de Fred com a camisa tricolor. Ele agora está a onze de igualar o lendário Orlando Pingo de Ouro, segundo maior goleador da história do Fluminense (lá do paraíso, o mito pernambucano torce para ser superado, acreditem).

O Vasco ainda descontou nos minutos finais - o que serviu para aumentar a importância do gol de Fred. Afinal, o Fluminense venceu por 2 a 1 no Maracanã, e foi dele o gol da vitória.

Um gol que faz a torcida tricolor voltar a pensar alto. Não sabemos ainda o quão longe este time pode ir, mas já nos permitimos sonhar novamente.

Porque, como diz meu amigo Montanha, quem tem Fred não morre pagão. Pode até, quem sabe, ser campeão.

PCFilho

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

O Profeta e o Fluminense na semifinal


Amigos, fui visitar o Profeta, na distante caverna que ele habita. Após a monumental vitória tricolor em Montevidéu, não resisti à tentação de ir ver meu velho compadre. Afinal, estamos na semifinal da Copa Sul-Americana e eu, afogando na minha ansiedade, na minha angústia, precisava saber se temos chances de levantar o caneco.

Vocês devem se lembrar de 2010: a cada tropeço do nosso Fluminense, o sapientíssimo Profeta não deixava morrer em nós a fé no Campeonato. Mesmo naquela semana terrível, quando perdemos primeiro para o Santos, depois para o Cruzeiro, quando os lorpas e pascácios já descartavam o Fluminense da briga pelo título, ele continuava coçando sua longa barba branca, calmamente repetindo seu vaticínio: "Fluminense campeão! Fluminense campeão!". E de fato, dois meses depois, nós estávamos no Engenhão testemunhando o triunfo sobre o Guarani: o Campeonato Brasileiro se rendia ao Fluminense, exatamente conforme o previsto pelo sábio homem. 

Sim, amigos, o Profeta está vivo, vivíssimo: o encontrei sentado no mesmo banquinho de madeira de sempre, a contemplar aquelas quatro faixas penduradas nas úmidas paredes: 1970, 1984, 2010, 2012. Ele não precisava dizer, mas ainda assim ouvi sua confortante voz ecoar: "Fluminense campeão! Fluminense campeão!".

Em Montevidéu, a cidade cujos ventos testemunharam a primeira Copa do Mundo, lá em 1930, com nosso Preguinho de capitão da Seleção Brasileira, o Fluminense derrotou o poderoso Nacional por 1 a 0. No lance fatídico, o goleiro dos uruguaios entregou a bola de bandeja para o Fluminense, e para nossa sorte ela caiu justamente nos pés de Sornoza. Caísse nos pés de um perna-de-pau e a chance seria irremediavelmente perdida. Mas ela caiu nos pés do craque equatoriano, que a repassou a Luciano. E Luciano teve a tranquilidade de um monge, para primeiro driblar o zagueiro e o goleiro, e só depois encaçapar de maneira genial e inapelável.

Não se improvisa a conquista de uma Copa. A glória sempre é o resultado de um vagaroso trabalho, que pode durar gerações. Nós, tricolores do céu e da terra, sonhamos há décadas com os troféus desta América de futebol. Nós, que vivemos 2008 e 2009, nós, que sentimos a dor daquelas injustiças na carne e na alma, nos sabemos merecedores do júbilo.

Pois eu acredito no Profeta. Daqui a quatro noites, nós levantaremos a Copa Sul-Americana aos céus do Rio de Janeiro.

PCFilho

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

O Fluminense deveria demitir Eduardo Baptista?

Foto: Vitor Silva/SSPress/Botafogo.

Há dez dias, logo antes de o Fluminense iniciar a sequência de clássicos contra Cruzeiro, Flamengo e Botafogo, perguntei no Twitter se o treinador Eduardo Baptista deveria ser demitido. Mesmo com 63% dos tricolores já apoiando a dispensa na ocasião, escrevi aqui o post 5 razões pelas quais o Fluminense NÃO deveria demitir Eduardo Baptista (opinião que ainda mantenho - caso o leitor queira entender meu posicionamento, clique e leia o post).

Após os clássicos, com uma vitória por 4 a 3 sobre o Cruzeiro no Mineirão, uma derrota por 2 a 1 para o Flamengo no Mané Garrincha e uma derrota por 2 a 0 para o Botafogo no Kléber Andrade, repeti a enquete no Twitter, e o apoio à demissão já beira os 90%:

Bom, além das cinco razões que já expus na semana passada, acrescentarei mais uma agora: mesmo que o treinador do Fluminense fosse um esquimó que nunca viu uma partida de futebol na vida, este não seria o principal problema tricolor hoje.

O Fluminense precisa de uma mudança generalizada de pensamento. E eu não escrevo isso me aproveitando dos últimos três anos de insucessos: já defendo a refundação do Fluminense desde o período em que estávamos no topo do futebol nacional, quando levantamos dois Campeonatos Brasileiros em três anos. Já ali, quando tínhamos o melhor time do país, eu alertava para a necessidade de o Tricolor se reinventar. Então, não posso, de forma alguma, ser acusado de oportunista.

Vejam só: nosso time profissional treina em um local cuja última reforma de fato aconteceu há 94 anos; nossa dívida total é estimada em meio bilhão de reais; nosso contrato de televisão nos relega ao terceiro escalão do futebol brasileiro, a despeito de sermos indiscutivelmente uma das cinco maiores potências dos últimos anos; trocamos de treinador a cada cinco meses; nossos elencos são montados sem critério, de modo que já em fevereiro a improvisação de nosso melhor apoiador na lateral nos parece uma opção defensável; não sabemos sequer em que estádio atuaremos como mandantes nos próximos sete meses, apesar de esta situação ter sido absolutamente previsível; não temos um patrocinador para o espaço mais valioso da camisa; enfim, eu poderia continuar listando nossos dramas por páginas e mais páginas.

Algum tricolor em sã consciência realmente acredita que nosso problema é somente Eduardo Baptista? Que a troca do treinador nos fará favoritos a alguma coisa? Que este time passará a jogar por música? Nem com Guardiola, amigos, nem com Guardiola em carne, osso e cérebro no comando técnico do plantel.

Querem uma mudança que seria 10 vezes mais efetiva que a demissão de Eduardo Baptista? As cartas de renúncia dos principais responsáveis pelo caos tricolor, a começar por Peter Siemsen, o presidente reeleito em meio a uma campanha de rebaixamento em 2013, a terminar por Mário Bittencourt, o advogado que também faz as vezes de vice-presidente de futebol, em um evidente conflito de interesses. Infelizmente, não vai acontecer.

Querem pedir a demissão de Eduardo Baptista, incentivando esta bizarra ciranda de treinadores do Fluminense, o clube que mais troca de técnico no mundo? Peçam, é direito inalienável de todo torcedor, e não serei eu a impedi-los.

Só não me peçam para acreditar que isto melhorará o Fluminense de alguma forma, porque estou convicto de que isto não ocorrerá. E o mais provável é que, daqui a cinco meses, estaremos aqui novamente discutindo se o sucessor de Eduardo Baptista deveria ou não ser demitido.

PCFilho