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segunda-feira, 11 de maio de 2020

Sobre a suposta foto de jogo do Fluminense na pandemia de 1918


A foto acima tem circulado nas redes sociais nos últimos dias: seria um registro de torcedores do Fluminense usando máscaras, durante a pandemia de gripe espanhola, em 1918, no campo da rua Guanabara, atual Estádio de Laranjeiras.

Neste domingo 10, o jornalista Ancelmo Gois repercutiu a foto em seu blog no site do jornal "O Globo", com o título "O jogo de futebol no campo do Fluminense em meio ao surto da gripe espanhola". No texto, Gois escreve: "A foto é de um jogo no campo do Fluminense, com os torcedores de máscara durante a gripe espanhola, que matou só no Rio 15 mil pessoas". Porém, o jornalista não verificou a história como deveria, pois a foto não é de um jogo do Fluminense, que sequer estava atuando em seu campo na época.

A gripe espanhola chegou ao Rio de Janeiro em 14 de setembro de 1918, através de passageiros do navio Demerara, que veio da Europa e aportou na então capital federal após escalas em Recife e Salvador. A doença inclusive levou a vida do jovem meia-atacante tricolor Archibald French, cuja história já contei aqui. Porém, o Fluminense não estava mandando os jogos do Campeonato Carioca em seu campo na rua Guanabara - justamente porque estava construindo o seu majestoso Estádio de Laranjeiras, que viria a ser a sede do Campeonato Sul-Americano de 1919.

Após a chegada da doença, o Fluminense fez somente mais quatro jogos antes de o Campeonato ser paralisado, nenhum em seu campo: 4 a 0 no America (em 15 de setembro, na rua Campos Sales), 2 a 2 com o São Cristóvão (em 20 de setembro, na rua Paysandu), 2 a 1 no Botafogo (em 29 de setembro, na rua General Severiano), e 2 a 2 com o Flamengo (em 6 de outubro, na rua General Severiano).

A epidemia transformou o Rio de Janeiro em um cenário de apocalipse, o que forçou a proibição de aglomerações de pessoas e a paralisação de dois meses no Campeonato. Em 29 de outubro, French não resistiu às complicações da gripe e faleceu, num dos momentos mais tristes da história tricolor. Em 8 de dezembro, o Campeonato foi retomado, e o Fluminense confirmou matematicamente o título, com uma vitória de 2 a 0 sobre o Mangueira, na rua Paysandu. O bicampeonato foi dedicado a French.

Oficialmente, a gripe espanhola causou 14.348 mortes na cidade do Rio de Janeiro. Em 1919, a vida voltaria ao normal. O Fluminense concluiria a construção do Estádio de Laranjeiras, onde sediaria o Campeonato Sul-Americano, primeiro torneio conquistado pela Seleção Brasileira. Com o ponta Bacchi no lugar de French no time titular de 1919, o Tricolor consolidaria sua hegemonia no Rio de Janeiro, com a conquista do tricampeonato e da posse definitiva da Taça Colombo.

E a foto? Segundo o jornalista Tony Barnhart, é de um jogo no campo do Georgia Institute of Technology, em Atlanta, durante a pandemia de 1918 (que também atingiu os Estados Unidos). Ela teria sido tirada pelo estudante da universidade Thomas Carter. Nada a ver, portanto, com o Fluminense ou o Rio de Janeiro.

O Fluminense deveria se posicionar desmentindo o jornalista Ancelmo Gois e restabelecendo a verdade dos fatos. Já o jornal "O Globo" deveria retirar a matéria do ar e publicar uma retratação - além de me contratar como ombudsman, é claro. ;)

PCFilho

sexta-feira, 10 de março de 2017

Sabe aquele estudo que aponta Berrío como 2º atleta mais rápido do mundo? Ele não existe.


Os flamenguistas andam empolgados com a contratação do colombiano Orlando Berrío, campeão da Copa Libertadores do ano passado, jogando pelo Atlético Nacional, de seu país. Seu principal atributo parece ser uma impressionante velocidade, qualidade muito importante para um atacante.

Mas empolgação tem limite: andam dizendo por aí que um estudo aponta Orlando Berrío como o segundo futebolista mais rápido do mundo, perdendo apenas para o galês Gareth Bale, do Real Madrid. Será?

De fato, foi realizado um estudo dos jogadores mais rápidos do mundo, em 2015, por encomenda do Pachuca, do México, que queria descobrir se seu atleta Jürgen Damm era o Usain Bolt do futebol. O estudo teria até o aval da FIFA, e Damm ficou na segunda colocação, atrás apenas do já citado Bale. Os resultados do estudo foram noticiados mundo afora, inclusive aqui no Brasil. Os dez jogadores mais rápidos do mundo alegadamente seriam:
1º. Gareth Bale (País de Gales, Real Madrid) - 36,90 km/h
2º. Jürgen Damm (México, Pachuca) - 35,23 km/h
3º. Antonio Valencia (Colômbia, Manchester United) - 35,10 km/h
4º. Aaron Lennon (Inglaterra, Tottenham Hotspur) - 33,80 km/h
5º. Cristiano Ronaldo (Portugal, Real Madrid) - 33,60 km/h
6º. Theo Walcott (Inglaterra, Arsenal) - 32,70 km/h
7º. Lionel Messi (Argentina, Barcelona) - 32,50 km/h
8º. Wayne Rooney (Inglaterra, Manchester United) - 31,20 km/h
9º. Frank Ribéry (França, Bayern München) - 30,70 km/h
10º. Sergio Ramos (Espanha, Real Madrid) - 30,60 km/h

Vale ressalvar que o estudo gerou certa desconfiança, pois não foram relatados os procedimentos utilizados para as medidas, ou para a escolha do espaço amostral. Além disso, os resultados não parecem realistas, colocando Gareth Bale quase tão rápido quanto os grandes velocistas da história, apesar de todas as desvantagens que um futebolista enfrenta (correr na grama, de chuteira, desviando de adversários e conduzindo a bola é muito mais complicado que correr na pista, de sapatilha, sem adversários para desviar e sem bola para conduzir).

Pois bem: foi Berrío ser anunciado como reforço pelo Flamengo, que começaram a pipocar notícias de um suposto estudo que o apontaria como segundo futebolista mais rápido da Terra. Até o repórter Eric Faria, da TV Globo, citou o tal estudo na transmissão de Flamengo x San Lorenzo, na quarta-feira 8. Jornais tradicionais, como O Globo e Jornal do Brasil, também publicaram matérias a respeito.

Porém, vejam só, tal estudo não existe (!!!). Algum gaiato por aí simplesmente pegou a lista acima, com os mesmíssimos valores, acrescentou dois jogadores - Berrío, com supostos 36,00 km/h, e Pierre-Emerick Aubameyang (Gabão, Borussia Dortmund), com 34,60 km/h -, tirou Ribéry e Ramos, e divulgou como se fosse um novo estudo!

E vários jornalistas brasileiros, mostrando o habitual despreparo, caíram na mentira feito patinhos inocentes. A verificação da informação poderia ter sido feita facilmente, numa pesquisa básica na internet. Haja vontade de enaltecer o Flamengo, hein? Depois dizem que Flapress não existe...

De qualquer forma, a velocidade de Berrío não tem sido tão útil para o Flamengo quanto outra habilidade do rapaz: a "malandragem" de empurrar adversários na barreira para facilitar gols de falta. Né, Diego

Assim até eu...

PCFilho

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Observatório da imprensa esportiva #5 - O Globo

Na sua edição desta segunda-feira 8, o caderno de esportes d'O Globo sepultou de vez a sua reputação, com a publicação de um infográfico com erros históricos grosseiros, referentes à história do Campeonato Brasileiro. É uma pena que o tradicional caderno, que já teve em suas páginas as geniais crônicas de Nelson Rodrigues, hoje esteja rebaixado à condição de fanzine do clube predileto de seus editores.

A primeira incorreção: Flamengo campeão de 1987. A informação "dividiu o título com Sport"
está equivocada - o clube pernambucano sempre foi e continua sendo o único campeão oficial.
Vide post A verdade sobre 1987.

OK, até compreendo que a questão de 1987 é polêmica, e que o jornal tenha seu posicionamento (que nada tem de imparcial, vale dizer, já que as Organizações Globo patrocinaram apenas o módulo que o Flamengo venceu). Mas reparem que 1987 não é a única manipulação do infográfico: ora, por que o início se dá em 1973 e não em 1967? Será que é para esconder o Campeonato de 1970, conquistado pelo Fluminense? (coisa que, aliás, o jornal sempre fez, ao longo de sua história, numa vergonhosa tentativa de apagar fatos do passado, à moda do ditador soviético Stalin)

Entretanto, o pior ainda viria: a parte mais equivocada do infográfico estava depois, na parte sobre os rebaixamentos...

"Homenagem" aos "gigantes rebaixados": recorde mundial de equívocos.

São tantos os erros que eu não sei por onde começar. O leitor desatento bate os olhos e logo conclui: dos gigantes, o Fluminense é o clube que mais caiu, o único rebaixado quatro vezes. Equívoco: os rebaixamentos de 1996 e 2013, embora tenham acontecido, foram cancelados, e portanto não deveriam constar de lista alguma. OK, é um direito do jornal fazer constar os tais rebaixamentos não-concretizados, desde que: 1) explique corretamente os fatos e 2) adote o mesmo tratamento para todos os clubes. O Globo, vergonhosamente, não cumpriu nenhuma destas duas condições.

Vejamos a explicação dada pelo jornal sobre 1996: "movimento dos clubes impediu que o tricolor jogasse a Série B em 1997". Equívoco: o Fluminense teve seu rebaixamento cancelado porque o Campeonato de 1996 estava comprometido, com resultados fabricados no escândalo 1-0-0 (os leitores que quiserem conhecer os detalhes, vide post A verdade sobre 1996). Os clubes que foram salvos do descenso foram, na verdade, Corinthians e Atlético Paranaense, envolvidos na manipulação dos resultados. Mas observem que, ali, no escudinho do Corinthians, não consta o ano de 1996...

Passemos agora à explicação dada pelo jornal sobre 2013: "com erro de escalação, a Portuguesa perdeu 3 pontos e caiu". Não foram 3 pontos, foram 4. Mas o pior é: cadê a citação ao Flamengo, cara pálida? Ora, o Flamengo terminou o Campeonato atrás do Fluminense (confiram aqui) - contar um rebaixamento para o Flu em 2013 e não contar um para o Fla é uma demonstração inequívoca de parcialidade. Uma análise crua da tabela revela que o erro da Portuguesa salvou o Flamengo do descenso, não o Fluminense (insisto, confiram aqui).

O exposto acima já seria suficiente para demonstrar a sanha mentirosa do caderno de esportes d'O Globo, pois fica evidenciada uma perseguição insana ao Fluminense. Os rebaixamentos "polêmicos" de outros clubes são varridos para debaixo do tapete. Cadê 1996 na lista de rebaixamentos do Corinthians, conforme a explicação acima? Cadê 2013 na lista de rebaixamentos do Flamengo, conforme a explicação acima? Cadê os rebaixamentos do Botafogo em 1986 e 1999?

Vídeo: jornalista Fernando Vanucci anunciando rebaixamento 
do Botafogo em 1986.

Por que só mostrar as "manobras" do Fluminense - e ainda de forma tão escandalosamente mentirosa? Qual é o interesse do jornal O Globo em diminuir tanto o Fluminense, incontestavelmente o clube mais importante da história do futebol brasileiro?

O jornal O Globo está convidado a publicar este meu texto em seu site e em sua seção de cartas. Já o Fluminense Football Club deveria, em minha opinião, exigir uma retratação por parte do veículo.

PCFilho

domingo, 23 de novembro de 2014

Observatório da imprensa esportiva #4 - Confusões do caso Heverton


Com o retorno do caso Heverton à superfície, pipocam na imprensa esportiva novas reportagens sobre os fatos daqueles primeiros dias de dezembro de 2013.

Uma notícia em particular causou rebuliço nos blogs e nas redes sociais: Da Lupa mandou ignorar o julgamento de Heverton, disse secretária da Lusa ao MP, publicada na sexta-feira 14, pelo blog Bastidores FC. Nela, se afirma que a citada secretária teria sido orientada por Manuel da Lupa (o presidente da Portuguesa) a ignorar um e-mail do STJD avisando sobre o julgamento de Heverton, antes da última rodada do Campeonato Brasileiro de 2013.

Torcedores flamenguistas se apressaram para afirmar: esta seria a prova definitiva que invalidaria a hipótese de que o Flamengo teria comprado a Portuguesa após o seu jogo, para se salvar do rebaixamento, após a inevitável punição pela escalação do suspenso André Santos. Afinal, a tramoia da escalação irregular de Heverton já havia começado durante a semana, antes do início da rodada (em algumas discussões, tentei alertá-los para o fato de que Heverton só passou a estar suspenso na noite de sexta-feira, quando o julgamento ocorreu - mas a miopia clubística nublava a visão dos meus interlocutores).

Porém, como dizem, apressado come cru. Uma semana depois, na sexta-feira 21, o mesmo blog Bastidores FC publicou uma retificação: Secretária da Portuguesa esclarece depoimento que deu ao MP. A secretária esclareceu que esse diálogo com Manuel da Lupa ocorreu após o jogo contra o Grêmio, e o e-mail em questão era na verdade o aviso do resultado do julgamento, não o aviso de seu agendamento. Portanto, não configura prova alguma de que a tramoia ocorreu antes do início da rodada.

Humildemente, então, faço dois pedidos: o primeiro, à imprensa esportiva, para que tenha mais cuidado na apuração dos fatos. A matéria do dia 14 continha um erro grosseiro de informação, que confundiu muita gente. O segundo, aos torcedores de todos os clubes, para que evitem tirar conclusões precipitadas. Por mais amor que vocês tenham por suas instituições, entendam que elas são feitas por pessoas, que podem cometer erros e crimes.

Enfim, tomara que as investigações avancem, que a história seja esclarecida, e que os envolvidos sejam exemplarmente punidos, neste evidente caso de corrupção.

PCFilho

quinta-feira, 13 de março de 2014

Observatório da imprensa esportiva #3 - UOL


Amigos, eu vinha resistindo a fazer o terceiro post da série "Observatório da imprensa esportiva" aqui no blog, por ser o tipo que me dá mais trabalho, mas a notícia que li ontem no site do UOL me obrigou a fazê-lo. Já na manchete, o jornalista deve ter feito Goebbels - o ministro da propaganda nazista - corar de vergonha alheia: "Em meio a onda de racismo, Fluminense cogita ressuscitar pó de arroz" (sic).

A vergonhosa manchete do site UOL.

Para quem não conhece a história do pó-de-arroz, faço aqui um breve resumo. Em 1914, alguns jogadores do America se desligaram do clube da Tijuca e foram para o Fluminense (dentre eles, o lendário Marcos Carneiro de Mendonça, primeiro goleiro da Seleção Brasileira e posteriormente presidente do Fluminense). Um dos atletas transferidos foi o mulato Carlos Alberto (sim, um mulato no "racista" Fluminense, antes ainda de o Vasco começar a jogar futebol, vejam só!). Carlos Alberto trouxe do America um costume curioso: passava pó-de-arroz no rosto antes das partidas. O motivo real não é consenso: a versão mais aceita é a de que ele tentava disfarçar a cor de sua pele, para se parecer mais com os outros futebolistas da época (quase todos, em todos os clubes, eram brancos). O amigo Marcos Carneiro de Mendonça conta outra história (vídeo abaixo):

Marcos Carneiro de Mendonça explicando a origem do "pó-de-arroz".

Em 13 de maio de 1914, no campo do Fluminense, jogavam o Tricolor e o America, e a torcida visitante provocou seu ex-atleta, gritando "pó-de-arroz" para ele. (O jogo terminou 1 a 1.) Com o passar dos anos, a torcida do Fluminense adotou o apelido, e o transformou em um dos símbolos do clube. Nos grandes jogos no Maracanã, nas décadas de 60 a 90, a recepção do time com o pó-de-arroz jogado nas arquibancadas sempre foi uma marca registrada da torcida tricolor. Após um período de proibição, o pó-de-arroz voltou em 2008, com notáveis aparições especialmente nos jogos da Copa Libertadores daquele ano.

Pó-de-arroz no Maracanã: um espetáculo lindo de se ver.

No Novo Maracanã, a festa do pó-de-arroz ainda não aconteceu, mas já há movimentações a respeito, por parte da torcida tricolor, com as aprovações do clube e do consórcio que administra o estádio. Provavelmente, voltará a ocorrer após a Copa do Mundo.

De forma covarde e mentirosa, o site UOL publicou a matéria associando o costume da torcida tricolor às recentes manifestações explícitas de racismo no futebol brasileiro. Uma comparação sem nenhum cabimento, já que nem mesmo a suposta "origem racista" do termo tem fundamento real, e a celebração do pó-de-arroz sempre foi festejada por todos os tricolores - brancos, pretos, mulatos, índios, amarelos, laranjas, verdes e grenás - nada tendo de racista ou preconceituosa.

O texto da matéria no UOL, que não é assinada, até cita a "versão tricolor" da história, mas ainda assim é um evidente exemplo de mau jornalismo. Até o momento da confecção deste post, ainda não havia sido publicado um pedido de desculpas ou uma retratação por parte do site.

Estamos de olho.

PCFilho

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Observatório da imprensa esportiva #2 - O apagão geral de 7 de dezembro


No Observatório da imprensa esportiva #1, há duas semanas, critiquei a descarada distorção de uma notícia pela ESPN. Hoje, no segundo post da série, voltarei no túnel do tempo até o fatídico fim de semana final do Campeonato Brasileiro de 2013. No sábado 7, o Flamengo jogou contra o Cruzeiro no Maracanã, e deliberadamente escalou o atleta suspenso André Santos. Nas horas seguintes, um inacreditável apagão coletivo acometeu toda a imprensa esportiva brasileira, e ninguém publicou a matéria que seria o furo do ano.

Na sexta-feira 6, o STJD decidira que André Santos não poderia atuar na rodada final do Campeonato Brasileiro, cumprindo a suspensão pelo cartão vermelho recebido na decisão da Copa do Brasil. E este fato foi amplamente divulgado, apesar de o noticiário esportivo do dia ter sido quase inteiramente tomado pelo sorteio dos grupos da Copa do Mundo. O primeiro jornalista a divulgar a suspensão do atleta rubro-negro foi o ótimo Wellington Campos, que eu sigo no twitter e quase sempre chega na frente da concorrência nos bastidores do futebol carioca. Veja seu post no twitter, precisamente às 13:39 da sexta-feira 6:

Na sexta-feira à noite, passado o frenesi do sorteio das chaves do Mundial, os sites esportivos publicaram a notícia. O primeiro foi o Lancenet, às 19:39: Suspenso, André Santos não enfrenta o Cruzeiro pelo Brasileirão. Na sequência, vieram O Globo, Extra, e sites menos famosos, como Futnet e ESP BR. Em resumo: a suspensão de André Santos era um fato público, amplamente noticiado. (Lembrem-se que, no dia 27/12, o próprio André Santos confessou que sabia de sua suspensão, tendo alertado um funcionário do Flamengo a respeito, quando soube que seria escalado.)

Print screen da notícia do Lancenet.

No sábado 7, o Flamengo estranhamente escala André Santos em seu time titular, no jogo "para cumprir tabela" contra o Cruzeiro, que se iniciaria às 19:00. Assim que o Flamengo divulgou sua escalação, diversos torcedores atentos notaram que algo estava errado e se manifestaram nas redes sociais. Só no twitter, pelo menos três torcedores perceberam o equívoco antes ainda de a bola rolar no Maracanã:




Quando o jogo começou, os relatos naturalmente se multiplicaram. Muitos torcedores se lembraram da notícia da véspera e estranharam a escalação irregular de André Santos. É neste ponto que entra minha crítica à imprensa esportiva: onde estavam vocês? Até meros torcedores são mais vigilantes que vocês?

Incrivelmente, não houve uma única e escassa notícia, ou um singelo relato do jogo que fosse, na imprensa esportiva inteira, que citasse a escalação do atleta rubro-negro suspenso. Um apagão geral que só pode ser justificado de duas maneiras: ou houve um surto contagioso de incompetência, ou foi omissão.

O furo era enorme: com a escalação irregular, o Flamengo se auto-flagelara, desobedecera o Código Brasileiro de Justiça Desportiva, fatalmente seria punido com a perda de 3 pontos - além do conquistado no empate - e assim passava a estar na alça de mira dos clubes que lutariam pela permanência na Série A no domingo 8. Com 45 pontos na classificação corrigida, o Rubro-Negro seria, por exemplo, ultrapassado pelo rival Fluminense, caso este vencesse o Bahia no domingo.

A briga contra o rebaixamento era o grande foco de todos, uma vez que o título já estava definido, e as vagas na Copa Libertadores quase certas. E no entanto, mesmo com uma matéria desta proporção escancarada diante de seus olhos, toda a imprensa esportiva brasileira incrivelmente ignorou o acontecido. Eu mesmo, se tivesse percebido o fato, certamente o teria publicado aqui, pelas drásticas consequências que ele poderia ocasionar na classificação final do Campeonato. (Mas nem assisti ao jogo, mais preocupado em celebrar o transcurso de meu aniversário.)

E entretanto, repito: não houve uma única e escassa notícia, ou um singelo relato do jogo que fosse, na imprensa esportiva inteira, que citasse a escalação irregular de André Santos e suas consequências. No domingo 8, a Portuguesa insanamente cometeu o mesmo erro do Flamengo, e acabou salvando o Rubro-Negro da degola. Somente na terça-feira 10, com a denúncia da CBF ao STJD, é que os casos André Santos e Heverton vieram à tona.

Incompetência ou omissão?

PCFilho

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Observatório da imprensa esportiva #1 - ESPN


Estreio a coluna "Observatório da imprensa esportiva" para mostrar coberturas enviesadas da imprensa esportiva acerca de determinados eventos. Jogo rápido: descrição sucinta e realista do fato, seguida da forma como o fato foi noticiado. Começo por um caso escandaloso desta semana, da ESPN. Por favor, me digam nos comentários se a ideia agrada, e sintam-se à vontade para sugerir novas pautas.

FATO
A nova gestão da Portuguesa, alegando dívidas acumuladas pela diretoria anterior, solicita à CBF um adiantamento de cotas referentes ao próximo Campeonato Brasileiro. A entidade aceita o pedido, com a condição de que a Lusa desista dos processos na Justiça Comum, que ameaçam a realização do próximo Campeonato Brasileiro.

NOTÍCIA (ESPN)
Exclusiva: CBF propõe adiantamento financeiro para Portuguesa aceitar Série B.

Como se vê, a notícia distorcida dá a entender que a iniciativa de oferecer o empréstimo foi da CBF, quando na verdade houve um pedido da Portuguesa. E isto faz muita diferença, pois se a iniciativa tivesse sido da CBF, com essa exigência, estaria configurada uma espécie de tentativa de suborno.

Nestes tempos em que a informação se espalha com a velocidade da luz, a irresponsabilidade na veiculação da notícia traz danos catastróficos. Pelo menos um jornal estrangeiro, baseado nesta matéria, publicou a manchete Brazilian team offered money to stay in lower tier, que pode ser traduzida como "Confederação oferece dinheiro a time brasileiro para este permanecer em divisão inferior".

Que papelão, dona ESPN... Assim sou obrigado a dar razão a um amigo, que me disse que a sigla significa "Escola Superior de Propaganda Nazista"... Por que tanta vontade de melar e desestabilizar o futebol brasileiro? É para tentar atrair a audiência para os campeonatos europeus, que você transmite? Há meios mais eficazes - e honestos - de se fazer isso...

PCFilho

Leitura sugerida: A "Al Qaeda" do futebol (Blog do Rica Perrone).