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domingo, 6 de julho de 2014

Assis

Assis eterno.

Amigos, este domingo sem futebol nos traz a triste notícia do falecimento de Assis, o maior mito da história do Fla-Flu, aos 61 anos.

O sonho de dez entre dez meninos brasileiros é decidir um Campeonato no Maracanã lotado. Se acontecer num Fla-Flu, melhor ainda. Pois bem: Assis o fez duas vezes.

Na noite de 11 de dezembro de 1983, no último lance do último clássico do Campeonato, Assis escapou pela direita, recebeu o lançamento de Deley, invadiu a área, tocou na saída de Raul, e entrou para a história e a lenda do Fla-Flu.

Exatamente um ano e cinco dias depois, em 16 de dezembro de 1984, aos 30 do segundo tempo, Aldo cruzou da ponta direita e Assis voou como um anjo para cabecear e vencer Fillol. Ali, Assis deixou de ser apenas mais um personagem do maior clássico da Terra. Ali, Assis passou a ser o maior nome da história do Fla-Flu.

E apesar disso tudo, Assis era um homem muito humilde. Atendia aos pedidos de cada torcedor, de cada fã, com uma paciência do tamanho de seu talento. É impossível não admirar Assis, não gostar de Assis.

Há não muito tempo, Washington se foi, também prematuramente. A parceria agora se reeditará nos gramados celestes. O lendário casal 20 logo estará dando trabalho aos zagueiros lá em cima, é fato.

Afinal, Assis e Washington são garantias de gols e de taças, assim na terra como no céu.

Vá em paz, Assis. Obrigado por tudo.

PCFilho

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

O chapeuzinho de Deco

Foi a jogada da semana, no jogo Fluminense 3 x 1 Avaí, no Engenhão, pelo Campeonato Brasileiro:

Deco retornou aos gramados nesta partida, após cinquenta dias parado. Momentos antes do chapeuzinho, dera um passe espetacular, iniciando a jogada do terceiro gol do Fluminense.

Sua atuação encheu a torcida tricolor de esperança para o restante da temporada.

Boa sorte, camisa 20!

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Força, Super Ézio!


"Super, super, suuuuuuper Ézio, o craque da camisa número nove! Cruel, muito cruel! Porque ele sabe que é disso... é diiiiisso que o povo gosta!"

A sentença, na voz do narrador Januário de Oliveira, não sai da cabeça de quem foi uma criança tricolor no início dos anos 90. Em tempos de escassez de conquistas, Ézio era um herói para a meninada que começava a se apaixonar pelo Fluminense.

Super Ézio aparecia muito nos clássicos. Os flamengos devem ter dores de cabeça até hoje com ele: foram 13 gols em 20 jogos contra o rubro-negro (em toda a história, somente o lendário Hércules marcou mais gols pelo Flu contra o Fla). Contra o Botafogo foram mais 7 gols, e contra o Vasco mais 6.

Entre 1991 e 1995, Ézio atuou pelo Fluminense em 236 partidas ao todo, tendo assinalado 119 gols, média de 1 a cada 2 jogos. Foi vice-campeão da Copa do Brasil de 1992 e Campeão Carioca de 1995. O épico jogo final daquele Campeonato foi o último de sua carreira brilhante no Tricolor.

Infelizmente, recebemos a notícia de que Super Ézio está lutando contra um câncer complicado. Ele conta, obviamente, com nossa torcida para passar por cima dessa.

#ForçaSuperÉzio!

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Parabéns, Manfrini!


Há exatos 61 anos, nascia, em São Paulo, Antonio Monfrini Neto, o Manfrini, ídolo tricolor da década de 70, campeão e artilheiro dos Campeonatos Cariocas de 1973 e 1975.

Em sua homenagem, posto a excelente entrevista concedida recentemente a Valterson Botelho:


PC

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

O maior artilheiro da Copa Libertadores


Amigos, sabemos que o gol é o grande momento do futebol. É por isso que, sempre que posso, rendo minhas homenagens aos artilheiros, àqueles que sabem empurrar a bola para as redes. Pois bem, outro dia, me perguntei: quem é o maior artilheiro da história da Libertadores? Me dei conta de que não sabia a resposta, e fui pesquisar.

Sem suspense, apresento logo suas iniciais: Alberto Pedro Spencer, equatoriano, lendário centroavante do Peñarol, do Uruguai. Entre 1960 e 1972, em 87 jogos de Libertadores, Spencer anotou inacreditáveis 54 gols: 48 pelo Peñarol, e 6 pelo Barcelona de Guayaquil. Ao todo, 30 goleiros foram vazados por seus disparos indefensáveis, ou por suas cabeçadas precisas. Seus gols ajudaram o Peñarol a levantar a taça em três ocasiões: 1960, 1961 e 1966.

Tudo começou em 19 de abril de 1960, no primeiro jogo da história da Libertadores, quando o Peñarol bateu o Jorge Wilstermann, da Bolívia, por 7 a 1. Naquele dia, Spencer assinalou quatro gols, o primeiro deles aos 35 do primeiro tempo. O arqueiro boliviano Hernán Rico foi sua primeira vítima.

A última das 54 celebrações de Spencer se deu em Guayaquil, na vitória do Barcelona (3 a 0) sobre o Chaco Petrolero, da Bolívia, em 22 de março de 1972. O arqueiro paraguaio Justo Ramón Zayas Mora foi sua vítima derradeira.

Entre Rico e Mora, alguns goleiros brasileiros sofreram com a artilharia pesada de Spencer. Em 4 de junho de 1961, Peñarol e Palmeiras começaram a decidir a Libertadores, no Estádio Centenário, em Montevideo. As 70 mil testemunhas viram um único gol, de Spencer sobre Waldir. E o Peñarol acabaria levantando o bi, no jogo seguinte.

Em 28 de julho de 1962, o Peñarol começava a decidir a Libertadores, novamente no Estádio Centenário, contra o Santos. O filme do ano anterior parecia se repetir: aos 18 minutos, Spencer venceu Gilmar. Mas o Santos, aquele timaço, acabou virando, com dois gols de Coutinho. Porém, na volta, na Vila Belmiro, Spencer voltaria a marcar, duas vezes, na vitória do Peñarol por 3 a 2 (na verdade, este jogo terminou 3 a 3, mas os minutos finais não valeram - ano passado escrevi sobre esta partida). O Santos só conseguiria ser o campeão após a partida de desempate, em Buenos Aires, com show de Pelé.

(Outro arqueiro brasileiro vazado por Spencer foi Manga, quando defendia o Nacional, maior rival do Peñarol no Uruguai.)

A carreira de Spencer foi recheada de títulos: além das Copas Libertadores de 1960, 1961 e 1966, o artilheiro ajudou o Peñarol a levantar os Campeonatos Uruguaios de 1959, 1960, 1961, 1962, 1964, 1965, 1967 e 1968, as Copas Intercontinentais de 1961 e 1966, e a Supercopa de 1969. Foi também campeão equatoriano pelo Barcelona, em 1971.

Habilidoso e veloz, ambidestro, com ímpeto de bom cabeceador, Spencer sempre surpreendia os zagueiros rivais, enganando, driblando e rompendo as defesas, sempre de olho no objetivo do gol. Na Copa Libertadores de 1963, fez sua maior vítima: o Everest/EQU, curiosamente o clube que o revelou. No massacre por 9 a 1, Spencer fez cinco gols no arqueiro Hugo Mejía.

Contando toda a sua carreira, Spencer assinalou 510 gols, 326 deles pelo Peñarol. Comemorava sempre com os braços para cima, à frente das arquibancadas. Lá estavam seus fãs, uma geração inteira de uruguaios apaixonados pelo artilheiro equatoriano.

Spencer não chegou a jogar uma Copa do Mundo, o que talvez explique sua ausência na lista dos 100 maiores de todos os tempos, elaborada pela FIFA. No Equador, é até hoje reconhecido como maior futebolista da história do país.

Em 3 de novembro de 2006, o maior artilheiro da história da Libertadores sucumbiu à inevitável força da natureza humana. Hoje, o Estádio Modelo de Guayaquil se chama Alberto Pedro Spencer, em merecida homenagem ao craque. (foi lá que o Peñarol o descobriu, quando ele marcou um gol nos uruguaios, em partida amistosa)

PC

Alberto Spencer, o maior artilheiro da Libertadores, no uniforme do Peñarol.

Alberto Spencer em um treino.

O já senhor Alberto Spencer.

Mais sobre Alberto Spencer:
- Que fim levou? (Terceiro Tempo)
- Spencer (Ídolos do Futebol)

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Craque - Pinheiro


Amigos, imaginem um zagueiro com 600 atuações por seu clube. Imaginem um zagueiro que, durante doze anos, foi titular absoluto deste clube. Imaginem um zagueiro titular da Seleção Brasileira em uma Copa do Mundo. Imaginem um zagueiro que era um dos mais temidos cobradores de pênalti do país. Imaginem João Batista Carlos Pinheiro.

Em 13 de janeiro de 1932, Pinheiro nascia em uma rural Campos dos Goytacazes. Dezesseis anos depois, seu irmão o levaria ao Rio de Janeiro, e a Laranjeiras. Após exibir seu bom futebol em um treino, Pinheiro lá permaneceu, jogando no time de juvenis e aspirantes.

Em 11 de agosto de 1949, o grande dia: Pinheiro estreava como profissional do Fluminense, em amistoso contra o Nacional do Uruguai. Pela primeira vez, o Tricolor entrava em campo com aquele famoso trio de defesa: "Castilho, Píndaro e Pinheiro". O tempo frio e chuvoso atrapalhou o espetáculo, mas a vitória por 2 a 1 sobre os campeões uruguaios, de virada, marcava o início de uma linda trajetória.

Pinheiro sabia sair jogando, tinha classe, não era zagueiro de dar chutão. Ainda aos 19 anos, recebeu um elogio público de Domingos da Guia, um dos melhores zagueiros brasileiros até então. O primeiro título foi o Campeonato Carioca de 1951, quando o Fluminense tinha um "timinho" com Castilho, Pinheiro, Didi, Telê, Orlando e Carlyle, entre outros.

Logo veio a convocação para a Seleção, e Pinheiro foi titular na conquista do Campeonato Pan-Americano do Chile, em 1952, junto com Castilho. Nos cinco jogos, o escrete só sofreu dois gols. Após o Pan-Americano, Castilho e Pinheiro jogaram a Copa Rio pelo Fluminense. E a defesa tricolor continuou sua campanha irretocável. Na primeira fase, Sporting Lisboa, Grasshoppers e o super Peñarol de Ghiggia e Schiaffino passaram em branco: nenhum gol sofrido pelo Fluminense. Nas semifinais e finais, diante dos poderosos Áustria Viena e Corinthians, quatro jogos e quatro gols sofridos, compensados pelos gols dos atacantes. Era o Fluminense campeão mundial de clubes.

Em 1954, Castilho e Pinheiro viajaram à Suíça, para tentar conquistar novamente o mundo, agora como titulares da Seleção Brasileira. No primeiro jogo, em Charmilles, com atuação impecável da defesa, vitória por 5 a 0 sobre o México. Em seguida, o empate no Estádio Olímpico de La Pontaise (1 a 1 com a Iugoslávia) foi suficiente para a classificação. Porém, o sonho acabaria no Wankdorf, em Berna, diante da lendária Hungria de Puskas e Kocsis, que não perdia um jogo havia mais de 4 anos. "Além da categoria e da incrível velocidade que imprimiam ao jogo, resultado em um treinamento muito bem feito, os húngaros tinham o melhor em termos de material esportivo", disse Pinheiro.

O Fluminense voltaria a ser campeão em 1957, no Torneio Rio-São Paulo. Pinheiro jogou apenas a partida que definiu o título: 2 a 1 no São Paulo, com dois gols de Waldo. Dois anos depois, o Tricolor seria novamente campeão carioca. Neste título, a defesa foi o grande destaque: nos 21 jogos até a conquista, foram apenas seis gols sofridos. Pinheiro, já aos 27 anos, era o xerife da cidadela quase intransponível. Apesar de estar no auge, não era mais convocado para a Seleção, e assim não pôde conquistar a Copa do Mundo, único título importante que faltou ao seu currículo.

Em 1960, a conquista do Rio-São Paulo seria o último título de Pinheiro pelo Fluminense. Despediu-se do Tricolor em 1963, após 600 partidas, com 48 gols marcados. É até hoje o segundo atleta com mais atuações pelo Fluminense, atrás apenas de Castilho. Voltou a Laranjeiras como técnico, tendo dirigido os juniores e os profissionais. Pinheiro conquistou como treinador a Taça Guanabara de 1971 e o Troféu Teresa Herrera de 1977. Comandou também outros clubes: em 1993, venceu a Copa do Brasil pelo Cruzeiro.

Nesta semana, o senhor João Batista Carlos Pinheiro comemora 79 anos de vida. Que tenha bastante saúde, e que receba as merecidas homenagens.

PC

Fontes:
- Jornal do Brasil, edição de 12/08/1949.
- Livro "Os dez mais do Fluminense", de Roberto Sander, Maquinária Editora, 2009.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Oswaldo Gomes, o maior campeão carioca


Outro dia, numa roda de amigos, surgiu a pergunta: quem seria o jogador com mais Campeonatos Cariocas no currículo? Um rubro-negro logo levantou a voz para afirmar, categórico: Zico. O Galinho conquistou seis Campeonatos regulares (1972, 1974, 1978, 1979, 1981 e 1986) e um extra (1979). Já o botafoguense jurava que era Nilton Santos, mas a Enciclopédia levantou quatro Campeonatos (1948, 1957, 1961 e 1962). Os vascaínos defendiam Ademir Menezes: o Queixada venceu cinco vezes (1945, 1949, 1950 e 1952 pelo Vasco, e 1946 pelo Fluminense).

Eu não sabia a resposta, mas tinha para mim que o maior campeão carioca seria alguém dos primórdios, daquela época em que o Fluminense levantava o Campeonato ano sim, ano não. Quando fiz a pesquisa, confirmei minhas suspeitas. Lá estava um homem campeão em 1906, 1907, 1908, 1909, 1911, 1917, 1918 e 1919: Oswaldo Gomes. Com oito Campeonatos levantados, é ele o atleta com mais títulos no Rio de Janeiro. Seu recorde nunca foi igualado.

Em 182 jogos pelo Fluminense, Oswaldo Gomes assinalou 35 gols, tendo vencido 116 partidas. Uma dessas vitórias foi o primeiro Fla-Flu, em 1912, quando formou a linha de ataque com Bartholomeu, Behrmann, Edward Calvert e James Calvert. Oswaldo e James foram os dois titulares de 1911 que permaneceram no Fluminense, enquanto os outros nove haviam saído e fundado a seção de futebol do Flamengo. Além de multicampeão, Oswaldo foi também o primeiro exemplo de fidelidade no futebol brasileiro.

Oswaldo fez parte também da equipe de atletismo do Fluminense, sendo um dos precursores da prática de corrida no Brasil, ao lado dos também tricolores Jorge de Oliveira e Afonso de Castro.

Mas não pensem que Oswaldo Gomes foi apenas um herói tricolor. Não, ele foi também um leal servidor da pátria brasileira. Em 1914, no primeiro jogo da Seleção Brasileira, lá estava Oswaldo, e melhor: lá estava o primeiro gol do escrete, assinalado exatamente por ele, no sagrado gramado de Laranjeiras.

Já no final de sua carreira de atleta, Oswaldo também foi treinador da Seleção Brasileira, no Sul-Americano de 1920, no Chile. No ano seguinte, foi eleito presidente da CBD, cargo que exerceu em 1922 e 1923, tendo organizado e conquistado o Sul-Americano de 1922.

No dia 5 de julho de 1963, Oswaldo Gomes faleceu, no Rio de Janeiro, aos 75 anos. Quase meio século após sua morte, ele ainda é o maior campeão carioca de futebol. Será igualado algum dia?

PC

Comentário importante do amigo Bruno Giacobbo:
No início da carreira, Oswaldo Gomes era meia-atacante. No time tricampeão de 1917-18-19, passou a ser volante, pela menor condição física, tendo em vista sua idade mais avançada. O time de 1919 era: Marcos Carneiro de Mendonça; Chico Neto e Vidal; Laís, Oswaldo Gomes e Fortes; Zezé e Machado; Mano, Welfare e Bacchi.

Fontes de pesquisa:
- Acervo do Flumemória.
- Enciclopédia da Seleção Brasileira (Ivan Soter).

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Craque - Brant


"Santamaría, Brant e Orozimbo! Santamaría, Brant e Orozimbo! Brant era um craque! Brant era um craque!". Era agosto ou setembro de 2009, e meu tio acabara de acordar, no Samaritano, após horas de sono induzido. Eu o visitava, e fiquei encantado ao ouvi-lo recitar a linha média do time que o fez se apaixonar pelo Fluminense, na década de 30. Não tive a honra de ver Brant atuar, mas ali, naquele instante, ele passou a ser meu ídolo obrigatório.

Carlos Brant nasceu em Diamantina/MG, no dia 19 de novembro de 1905. Iniciou a carreira de footballer no Sete de Setembro, de Belo Horizonte, de onde se transferiu, em 1927, para o Atlético Mineiro. Caminhava vários quilômetros por dia, para ir treinar no Atlético. No Galo, jogou até 1932, tendo sido convocado uma vez para a Seleção Brasileira (foi o primeiro jogador do clube a receber uma convocação). Foi também Campeão Mineiro, em 1927, 1931 e 1932, e integrante da Seleção Mineira. Com a implantação do profissionalismo no futebol do Rio de Janeiro, alguns astros do futebol dos outros Estados foram atraídos para a capital federal. Brant foi um deles: veio para o Fluminense, contratado em fevereiro de 1933.

Brant no Atlético Mineiro.

No Fluminense, Brant jogou ininterruptamente durante nove anos, de 1933 a 1941, quando se aposentou. Foi campeão em 1936, 1937, 1938, 1940 e 1941, tendo participado daquele time tricolor que é, para muitos, o melhor da história do futebol carioca. Atuou 248 vezes com a camisa tricolor, tendo assinalado 21 gols. Integrou a Seleção Carioca por várias vezes, e sempre foi apontado como um dos mais profundos conhecedores da posição de center-half. Compensava sua pouca estatura física com uma colocação admirável. E possuía muita técnica: se dizia que ninguém sabia "matar" uma bola na ponta da chuteira como Brant. Grande jogador tecnicamente, Brant também foi um exemplo de disciplina: empregava-se a fundo nas partidas que disputava, mas sempre com lealdade, respeitando o adversário.

Rigorosamente metódico em sua vida particular, Brant chegou a ter fama de pão-duro, porque não fazia despesas a não ser as estritamente necessárias. Porém, emprestava dinheiro de vez em quando aos seus companheiros de clube: era o "caixa econômica" do time das Laranjeiras. Sua disciplina financeira valeu-lhe um emprego no próprio Fluminense, quando pendurou as chuteiras. Durante anos, Carlos Brant foi um dedicado funcionário da tesouraria do clube tricolor, da mesma forma que foi seu dedicado defensor nos prélios de futebol.

PC

Fontes de pesquisa:
- Blog "O Canto do Galo", post Carlos BRANT.
- Revista "O Globo Sportivo", janeiro de 1952.

segunda-feira, 29 de março de 2010

A Armando Nogueira


Amigos, na manhã de hoje o mestre Armando Nogueira sucumbiu à cruel imposição da natureza humana. E o céu ganhou uma brilhante estrela solitária.

Armando está, sim, no céu. Ele sempre acreditou em Deus. Duas de suas frases mais famosas citam o Divino Ser: "Deus é esférico" e "A tabelinha de Pelé e Tostão confirma a existência de Deus".

E, lá no céu, ele está acompanhado de muita gente boa. Nelson Rodrigues, o profeta tricolor, por exemplo, já está pensando em como será a primeira "Grande Resenha Facit" celeste. Uma das frases mais espetaculares de Nelson foi uma resposta a Armando, na histórica mesa-redonda da TV Rio: "O video-tape é burro!".

Hoje à noite, o Botafogo enfrenta o Boavista pelo Campeonato Carioca. Os cartolas incompetentes conseguiram agendar um jogo para uma segunda-feira, mas acabaram acertando em cheio. Será a estréia de Armando Nogueira como torcedor em alma. Sim, a morte não exime ninguém de seus deveres clubísticos. Com Armando não será diferente.

Percebam a profundidade dessa frase: "Para Garrincha, a superfície de um lenço era um latifúndio". Trata-se de uma demonstração inequívoca do talento de Armando para a crônica esportiva. O Mané Garrincha, inspiração maior do mestre, será mais um a encontrá-lo hoje, no céu. Assistirão juntos ao jogo do Botafogo.

Botafogo que sempre foi uma paixão na vida de Armando. Os botafoguenses mais antigos me dizem: aqueles 21 anos seriam muito mais sofridos sem o consolo de Armando. Certamente, certamente. O Botafogo não seria o gigante que é, sem Armando Nogueira. Sem chutar uma bola sequer, o mestre conseguiu se tornar ídolo de uma torcida inteira. Façanha para poucos.

Se, para Garrincha, a superfície de um lenço era um latifúndio... para Armando Nogueira, a superfície de um campo de futebol era uma página de caderno, pronta para receber linhas imortais.

Armando vive. E isso é tudo.

PC

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Carta de Washington


Antes do jogo de ontem, o ídolo Washington enviou uma carta aos jogadores do Fluminense. Ele, que foi homenageado neste domingo, pediu entrega ao clube neste momento tão complicado. Veja abaixo:

"Defendi o Fluminense por seis anos e aprendi a amar essas três cores. O que peço a vocês, jogadores, é apenas a conscientização de que estão em um clube grande e de muita tradição. Se chegaram até o Tricolor, é porque têm muito valor. Todos precisam olhar para dentro de si e perceber que são tão bons quanto qualquer outro que esteja disputando o título do Campeonato Brasileiro.

Para vestir a camisa do Fluminense, o jogador precisa ser especial. E ele é selecionado com muito carinho. Estou acompanhando todas as partidas do nosso time e vejo uma grande evolução. A situação ainda é complicada? Sim. Mas vocês têm todo o potencial necessário para tirar o Tricolor dessa e se Deus quiser vamos conseguir.

Todas as 301 vezes que vesti a camisa do Fluminense, a fiz com uma emoção muito grande. E é isso que quero passar. A emoção de ter uma torcida maravilhosa e que sempre apoia do nosso lado. A emoção de honrar as cores de um clube que sempre briga por títulos. Infelizmente, agora estamos lutando contra o rebaixamento. Mas também temos de ver essa salvação como uma taça. Continuar na Série A será uma conquista e tanto para todos nós.

Tenho certeza de que milhares de tricolores estarão hoje no Maracanã para gritar, cantar e vibrar. Pois essa é a torcida do Fluminense. Um clube de tradição eternamente vitorioso que vocês têm de agradecer aos ceús todos os dias por defenderem. Mas, no momento, o torcedor só quer saber de uma coisa: vencer, vencer e vencer. Então façam isso por eles.

Um abraço e saudações tricolores,
Washington César Santos."

Aplausos para o eterno artilheiro!

domingo, 15 de novembro de 2009

Craque - Washington


Washington César Santos, baiano de Valença, é um dos maiores artilheiros da história do Fluminense, com 120 gols marcados em 303 jogos. Formou com Assis uma das duplas de ataque mais bem sucedidas da história do futebol brasileiro. Era o famoso "Casal 20", que foi tricampeão carioca e campeão brasileiro pelo Tricolor.

Infelizmente, Washington enfrenta graves problemas de saúde, apesar de ainda ser jovem (tem 49 anos). A doença que o acomete requer um tratamento caro, que o craque não possui dinheiro para bancar.

No jogo de logo mais, haverá urnas espalhadas no Maracanã, para que o torcedor tricolor colabore financeiramente com quem lhe deu tantas alegrias na década de 80.

Os amigos da rede social Fluminense Eterno Amor também estão ajudando Washington, através de uma rifa que sorteará duas camisas autografadas pelo ídolo. Clique aqui para saber mais.

O site oficial do Fluminense está promovendo uma enquete para escolher o gol mais bonito do eterno artilheiro. Assista ao vídeo abaixo, escolha seu golaço favorito, e vote em http://www.fluminense.com.br/


PC

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Recordar é viver - A despedida de Gilmar


Rio de Janeiro, 12 de junho de 1969.

O Maracanã recebeu grande público na noite desta quinta-feira. Foi a despedida de um dos maiores arqueiros da história da Seleção Brasileira: Gilmar dos Santos Neves. O goleiro defendeu o escrete em 94 jogos oficiais, tendo sido bicampeão mundial em 1958 e 1962.

Em campo, estavam as três últimas Jules Rimet. A Inglaterra, atual campeã da Copa, dominou o primeiro tempo, com seu futebol tradicionalmente baseado na força física. Bell completou cruzamento da esquerda, e venceu Gilmar: 1 a 0 para o English Team.

O Brasil voltou melhor no segundo tempo, e o cruzeirense Tostão, muito criticado pela imprensa paulista, liderou a grande virada. Em jogada de muita raça, ele empatou a partida, ao chutar uma bola deitado na grande área.

Dois minutos depois, Tostão fez grande jogada pela direita, invadiu a área, e bateu cruzado. Jairzinho completou para o gol. Era a virada: Brasil 2, Inglaterra 1.

Para finalizar o espetáculo, o escrete submeteu a Inglaterra a um terrível "olé". As cem mil vozes guiavam os passes dos nossos craques, para humilhação dos campeões mundiais. Pior: quase o olé termina em um gol antológico. Gérson fez um lançamento longo para Pelé, e este quase entrou com bola e tudo.

Ao bater a atual campeã do mundo, a Seleção demonstra que está no caminho certo para a conquista do tri. O povo carioca agradece a exibição magistral.

PC

Ficha Técnica: Brasil 2 x 1 Inglaterra.
Amistoso Internacional.
Local: Maracanã (Rio de Janeiro).
Data: 12/06/1969.
Árbitro: R. Barreto (Uruguai).
Brasil: Gilmar; Carlos Alberto, Djalma Dias, Joel e Rildo; Clodoaldo e Gérson; Jairzinho, Tostão, Pelé e Edu (Paulo César). Técnico: João Saldanha.
Inglaterra: G. Banks; T. Wright, K. Newton, Mullery e Labone; Moore e Ball; Bell, R. Charlton, G. Hurst e Peters.
Gols: Bell no primeiro tempo; Tostão e Jairzinho no segundo tempo.

Vídeo do Canal 100 com os gols da partida:

Crônica de Nelson Rodrigues sobre a partida:
À SOMBRA DOS CRIOULÕES EM FLOR
[O Globo, 17/06/1969]

Se vocês querem conhecer um povo, examinem o seu comportamento na vitória e na derrota. Há poucos dias, o Brasil derrotou a Inglaterra no Estádio Mário Filho. Conviria comparar os dois comportamentos: o do Brasil vencedor e o da Inglaterra vencida.

Comecemos por nós. Quinta-feira, o Estádio Mário Filho estava abarrotado. Com algum exagero, diria eu que havia gente pendurada até no lustre. Por conta do jogo, a cidade suspendeu todos os pecados. Ninguém matou, nem roubou, nem traiu. Que eu saiba, não houve um único e escasso assalto. Todas as classes, profissões, ideologias, raças e idades juntaram-se no ex-Maracanã.

Houve o jogo e vencemos. A Inglaterra é campeã do mundo e perdeu. Bastaram dois minutos do verdadeiro futebol brasileiro. Em 120 segundos, liquidamos o inimigo. Vejam vocês: - a Inglaterra fazia a pose de melhor futebol do mundo. Os nossos jornais ou afirmavam ou, na pior das hipóteses, imaginavam que o futebol inglês era, sim, o melhor do mundo. Por um funesto lapso, o brasileiro já não se lembrava de que somos os bicampeões.

No vídeo, não havia a menor coincidência entre o que o locutor dizia e o que a imagem mostrava. Por exemplo: - Tostão foi, durante a partida, um estilista da cabeça aos sapatos. Seus passes saíam límpidos, exatos, macios. Deu um banho de bola nos ingleses. E a maioria dos espíqueres exigia, aos brados, a sua substituição. O rádio e a TV não faziam outra coisa senão soluçar elogios aos ingleses. Os visitantes tinham todos os méritos e os brasileiros todos os defeitos.

E, então, comecei a perceber que profissionais, torcedores e simples curiosos estavam ali por diferentes motivos. Uns queriam ver a caveira de João Saldanha; outros, a caveira do Brasil; e ainda outros, as duas caveiras: - do Brasil e do Saldanha. Houve um momento em que me virei para o Marcello Soares de Moura e cochichei-lhe: - "Se o Brasil perder, vão enforcar o Saldanha como um ladrão de cavalos". O leitor há de perguntar: - "O Brasil é tão impopular no Brasil?". Realmente, o Brasil é muito impopular no Brasil.

Dirão vocês que, nas arquibancadas e gerais, o povo quis ajudar o escrete. O diabo é que o povo vaia sem querer, vaia automaticamente. Sim, o povo morreria de tédio e frustração se não pudesse vaiar qualquer coisa, inclusive o minuto de silêncio. E portanto o povo, a um só tempo bom e crudelíssimo, ora vaiava, ora aplaudia. Mas eu falo dos que, nas perpétuas, tribunas e cativas, torciam, com o mais límpido, translúcido despudor, pelo inimigo. Falei com vários e os sujeitos estrebucharam de devoção: - "Como jogam! Como jogam!". Meu Deus, é um futebolzinho bem aplicado e laborioso o dos ingleses, de uma disciplina tática feroz e uma base física medonha. Só.

Terminou o primeiro tempo com o marcador de 1 × 0 a favor da Inglaterra. O Brasil dera-se ao luxo de perder um pênalti. Na fila do café, um sujeito me agarra e diz: "No segundo tempo a Inglaterra vai melhorar e o Brasil vai abrir o bico". Entendi o raciocínio do fulano: como há por aqui o Nordeste, o Amazonas, a mortalidade infantil, teríamos mais dez minutos de fôlego, se tanto.

Mas aconteceu exatamente o inverso: a Inglaterra abriu o bico e o Brasil melhorou. Sim, no segundo tempo a Inglaterra não arriscou um mísero ataque. Agarrou-se a uma retranca ainda mais radical que a do primeiro tempo para salvar o 1 × 0. Dois ou três idiotas da objetividade começaram a achar que até a saúde de vaca premiada era um mito insustentável. Os nossos bons adversários não tinham pernas. E a maioria dos locutores, principalmente os paulistas, continuava a exigir a retirada de Tostão. E, no momento em que mais se exasperavam contra o maravilhoso jogador , Tostão é derrubado, deita-se na grama e faz o gol!

Foi um assombro. Em pé, Tostão já é pequeno, pequeno e cabeçudo como um anão de Velasquez. Imaginem agora deitado. Os ingleses ficaram indignados e explico: - um gol como o de Tostão desafia toda uma complexa e astuta experiência imperial! Um minuto depois, ou dois minutos depois, Tostão dá três ou quatro cortes luminosíssimos e entrega a Jairzinho. Este põe lá dentro. Naquele momento ruía toda a pose inglesa. Era a vitória e pergunto: - como reagimos diante da vitória? Claro que o homem da arquibancada subiu pelas paredes como uma lagartixa profissional.

Mas pergunto: - e os outros? E os outros? A imprensa, o que fez a imprensa? E o rádio? E a TV? Deviam estar virando cambalhotas elásticas, acrobáticas. A Inglaterra pode não ter futebol, mas tem o título. É campeã do mundo. Portanto, vencemos o título. O grandes jornais não concederam ao feito brasileiro uma manchete de primeira página. O mais dramático é que quase toda a imprensa, rádio e TV trataram de amesquinhar, humilhar, aviltar a vitória. Em São Paulo as Folhas acharam os ingleses "os melhores". No Rio, a mesma coisa. No subdesenvolvido, a imparcialidade não é uma posição crítica, mas uma sofisticação insuportável. Fingindo-se de justa, quase toda a crônica falada e escrita falsificou o jogo, isto é, descreveu um jogo que não houve.

Vejam agora o comportamento dos ingleses. Ninguém faz um impeério sem um implacável cinismo. E os nossos adversários portaram-se com um admirável descaro. Vocês viram o que houve no Estádio Mário Filho. A Inglaterra foi um Bonsucesso. Dirão que estou fazendo um exagero caricatural. Mas, se o Bonsucesso tivesse assassinado a pauladas Maria Stuart, se jogasse à sombra de lord Nelson, lady Hamilton e Dunquerque, e se morasse no palácio de Buckingham - o Bonsucesso faria mais que os ingleses. Batidos em dois minutos, submetidos a um olé inédito e ignominioso, faltou aos nossos adversários a nobilíssima humildade da autocrítica. O técnico e os jogadores trataram a derrota como se vitória fosse; esvaziaram a humilhação de todo o dramatismo. Os brasileiros não são de nada. Tostão fez aquele gol espantoso. Deitado, enfiou a bola nas redes. Diante de tamanho feito, os ingleses deviam admitir, de vista baixa: - "Aprendemos mais esta". Nada disso e pelo contrário: acharam absurdo, indesculpável, que um jogador deitado fizesse um gol. Com o cinismo de grande povo, o inglês inverte magicamente tudo em seu favor. Ao passo que o brasileiro, subdesenvolvido, inverte tudo em seu prejuízo.

Felizmente houve o olé. Foi talvez o momento mais alto do futebol brasileiro. A parte da crônica mais subdesenvolvida condenou o olé como antiesportivo e desrespeitoso. E outros pretendem que foi um recurso tático e, portanto, nada ofensivo: apenas queríamos ganhar tempo e nunca desfeitear o adversário. É inútil mentir. Vamos retirar do olé os bons sentimentos, que não existiram. Houve, sim, uma crueldade jucunda. Os ingleses, batidos e lisamente batidos, tratam de aviltar o nosso triunfo. Dizem que Pelé foi feito pela publicidade, como um refrigerante.

Eis o que eu queria observar: fez bem o escrete brasileiro em tirar sua bela vingança. Os ingleses é que, sem pernas, fisicamente gastos, teriam de fazer cera. Basta lembrar que, para coroamento do olé, quase saiu o terceiro gol, lindo, lindo, do crioulo. Se Pelé tivesse estourado as redes inglesas, havíamos de guardar seu gol numa caixinha de veludo. Nunca se viu, em tempo nenhum, em idioma nenhum, tão formidável explosão lírica e maligna. A seleção campeã do mundo foi posta na roda. Durante três, ou quatro, ou cinco minutos, o adversário correu em vão atrás da bola. E os craques brasileiros trocavam passes irretocáveis. Ninguém descreverá jamais a alegria popular. O berro colossal inundou a cidade: "Olé! Olé! Olé!". Saldanha mandava parar. Não queria que o inimigo crescesse na humilhação. Mas a loucura instalara-se no Estádio Mário Filho. Eram 80, 100 mil pessoas ébrias de olé. E, súbito, depois da crudelíssima exibição, Gérson estica uma bola comprida para Pelé. O crioulão dispara e quase, quase entra com bola e tudo. Depois do jogo, a multidão saiu em plena embriaguez. Muitos dias já se passaram. E ainda sentimos a ressaca triunfal do olé.

sábado, 31 de outubro de 2009

Craque - Juvenal



Em 27 de novembro de 1923, nascia Juvenal Amarijo, na pequena cidade de Santa Vitória do Palmar, extremo sul do país (apenas Chuí fica mais ao sul). A família não sabia disso, mas estava diante de um cidadão que faria história, encantando multidões.

Infelizmente, Juvenal faleceu ontem, 30 de outubro de 2009, na absoluta miséria. Os jornais e sites estão fazendo mini-biografias, lamentando a condição triste na qual Juvenal viveu seus últimos anos, em Camaçari, na Bahia. Ele lutava contra uma artrose no joelho direito, e vivia amparado financeiramente por vizinhos bondosos. Eu prefiro relembrar seus tempos de jogador. Penso que Juvenal prefere ser lembrado por sua carreira.

Numa época em que as cifras do futebol tinham muito menos zeros do que hoje, Juvenal resolveu viver da bola. Em 1943, iniciou sua carreira profissional, como zagueiro do Esporte Clube Cruzeiro, de Porto Alegre. Lá jogou até 1948, quando se transferiu para o Flamengo. Em 1950, estreou na Seleção Brasileira. O jogo foi em São Januário, no dia 07/05, contra o Paraguai, pela Taça Osvaldo Cruz. O Brasil, do técnico Flávio Costa, formou com Castilho; Nilton Santos e Juvenal; Bauer, Danilo e Bigode; Friaça, Maneca, Baltazar, Pinga e Rodrigues. Com dois gols de Pinga, um em cada tempo, o escrete venceu por 2 a 0.

Seis dias depois (dia 13/05), Juvenal voltou a atuar na Seleção, no segundo jogo da Taça Osvaldo Cruz, dessa vez no Pacaembu, contra o mesmo Paraguai. O Brasil formou com Castilho; Juvenal e Nena; Bauer, Danilo e Bigode; Friaça, Maneca, Baltazar, Pinga e Rodrigues. O jogo terminou 3 a 3, e Juvenal conquistou seu primeiro título com o escrete.

Os preparativos para a Copa do Mundo, que seria disputada em solo nacional, seguiam a todo vapor. No dia seguinte (14/05), já estava o escrete novamente no campo de São Januário, para a disputa da Copa Rio Branco, contra o Uruguai. Como Juvenal jogara na véspera, entrou apenas no segundo tempo, no lugar do são-paulino Mauro. A Seleção venceu por 3 a 2.

Quatro dias depois (18/05), o Brasil vencia o Uruguai novamente, por 1 a 0, em São Januário. Flávio Costa escalou a Seleção assim: Barbosa; Nilton Santos e Juvenal; Eli, Danilo e Bigode; Friaça, Zizinho, Baltazar, Ademir e Chico. O gol de Ademir, no segundo tempo, deu mais um título à Seleção. O segundo caneco de Juvenal com a camisa do escrete.

Abro um parêntese: essas escalações antigas causam em mim uma profunda nostalgia. Não vi nenhum desses craques jogar. Não tive esse privilégio. Mas um arrepio irrompe das profundezas do meu ser, sempre que vejo essas constelações expostas em 2-3-5. Fecha parêntese, porque vem aí a Copa do Mundo.

*O pôster da Copa de 1950.*

24 de junho de 1950. Pela primeira vez na história, a Seleção Brasileira jogava no Estádio do Maracanã. Era a estréia na Copa do Mundo. Flávio Costa assim a escalou: Barbosa; Augusto e Juvenal; Eli, Danilo e Bigode; Maneca, Ademir, Baltazar, Jair e Friaça. Do outro lado, o México do goleiro Carbajal. Foi um massacre: 4 a 0, gols de Ademir, Jair, Baltazar e Ademir de novo.

28 de junho de 1950. Jogo contra a Suíça de Bickel e Fatton no Pacaembu. Eis o escrete que jogou em São Paulo: Barbosa; Augusto e Juvenal; Bauer, Rui e Noronha; Alfredo II, Maneca, Baltazar, Ademir e Friaça. Alfredo II e Baltazar marcaram para o Brasil, mas Fatton fez dois para a Suíça. O empate em 2 a 2 era um tropeço inesperado, mas não interromperia a ascensão daquele time maravilhoso.

Primeiro de julho de 1950. Na volta ao Maracanã, 2 a 0 na Iugoslávia, gols de Ademir e Zizinho. Barbosa; Augusto e Juvenal; Bauer, Danilo e Bigode; Maneca, Zizinho, Ademir, Jair e Chico entraram em campo.

9 de julho de 1950. O Maracanã receberia a maior goleada da Copa: 7 a 1 na Suécia. Foram quatro gols de Ademir, dois de Chico e um de Maneca. Aos suecos, restou um gol de pênalti (Andersson). A escalação: Barbosa; Augusto e Juvenal; Bauer, Danilo e Bigode; Maneca, Zizinho, Ademir, Jair e Chico.

13 de julho de 1950. A Espanha não conseguiu fazer frente à estrepitosa Seleção Brasileira. Foi mais um massacre: 6 a 1. Barbosa; Augusto e Juvenal; Bauer, Danilo e Bigode; Friaça, Zizinho, Ademir, Jair e Chico. Ademir (2), Chico (2), Jair e Zizinho marcaram os gols brasileiros; Igoa marcou o tento espanhol.

16 de julho de 1950. Era o grande dia. O Maracanã proclamaria o campeão mundial de futebol. Brasil e Uruguai decidiriam a Copa do Mundo, com vantagem do empate para a Seleção Brasileira. Flávio Costa mandou o seguinte onze a campo: Barbosa; Augusto e Juvenal; Bauer, Danilo e Bigode; Friaça, Zizinho, Ademir, Jair e Chico. Já a Celeste entrou em campo com: Máspoli; Matias González e Tejera; Gambetta, Obdulio Varela e Rodríguez Andrade; Ghiggia, Júlio Pérez, Míguez, Juan Schiaffino e Morán.

Já no começo do segundo tempo, Friaça abre o placar para o Brasil. Como o empate já era brasileiro, começou a euforia do triunfo. Cedo demais, como Juan Schiaffino e Ghiggia provariam. Foi a derrota mais doída da história da Seleção. Já ganhamos cinco Copas do Mundo, mas a ferida de 1950 nunca sarou. Não vai sarar jamais.


*A Seleção Brasileira vice-campeã mundial de 1950.*
Em pé: Barbosa, Augusto, Juvenal, Bauer, Danilo e Bigode.
Agachados: Johnson (massagista), Friaça, Zizinho, Ademir, Jair, Chico e Mário Américo (massagista).

O trauma foi tão grande que a Seleção só voltaria a campo em 1952, já sem Barbosa, Augusto e Juvenal, substituídos por Castilho, Pinheiro e Nilton Santos. Assim, Juvenal teve apenas dez atuações oficiais pela Seleção, todas no fatídico ano de 1950. (houve também um jogo não-oficial, contra a Seleção Paulista de Novos)

A redenção de Juvenal viria um ano e seis dias depois da derrota para o Uruguai, já atuando pelo Palmeiras. 22 de julho de 1951: no mesmo Maracanã, o campeão paulista disputava com a campeã italiana Juventus a final da Copa Rio, o Mundial Interclubes da época. O Palmeiras, escalado por Ventura Cambon, entrou em campo com Fábio; Salvador e Juvenal; Túlio, Luís Villa e Dema; Lima, Ponce de León, Liminha, Jair e Rodrigues. Já a Juventus do técnico Carver jogou com Giovanni Viola; Bertucceli e Manente; Mari, Parola e Bizzoto; Miccinelli, Karl Hansen, Boniperti, Johan Hansen e Praest. Com o empate em 2 a 2, diante de 100.000 pessoas, o Palmeiras se sagrou campeão mundial interclubes.

*Palmeiras campeão mundial de 1951*
(Juvenal destacado)
(a foto é da semifinal contra o Vasco, no Maracanã)
Em pé: Salvador, Dema, Túlio, Juvenal, Fábio e Luís Villa.
Agachados: Liminha, Ponce de León, Richard, Jair e Rodrigues.

Em 1954, Juvenal se mudou para a Bahia, onde viveria pelo resto da vida. Atuou pelo Bahia e pelo Ypiranga, antes de se aposentar, em 1959. Ele parou de jogar, mas seus desarmes e passes são eternos. Juvenal Amarijo viverá para sempre na memória do torcedor brasileiro. Um ídolo não morre jamais. Parabéns, Juvenal! Descanse em paz.

PC

Fontes:
[2] "Enciclopédia da Seleção 1914-2002" (Ivan Soter).

domingo, 25 de outubro de 2009

Golaço do dia #129 - Dener

Atleta: Dener Augusto de Souza.
Nascimento: 02/04/1971, em São Paulo.
Falecimento: 19/04/1994, no Rio de Janeiro.
Jogo: Portuguesa 1 x 0 Internacional de Limeira (Campeonato Paulista de 1991).
Local: Canindé, São Paulo.

Em sua curta carreira, o meia-atacante Dener encantou multidões. Ele costumava dizer: "O drible é mais bonito que o próprio gol". Mas isso não significava que ele driblava por driblar: a objetividade de seu jogo era espantosa. O seu futebol moleque, habilidoso, criativo e alegre aliava beleza e objetividade.

As torcidas de Portuguesa, Grêmio e Vasco puderam apreciar o futebol do craque. Mas, infelizmente, a carreira do ídolo foi interrompida em abril de 1994. Um acidente de carro na Lagoa Rodrigo de Freitas levou Dener para os céus, quando ele contava apenas 23 anos recém-completados.

Dener era considerado um dos maiores talentos do futebol brasileiro, e sem dúvida ainda tinha muito a acrescentar ao esporte. Jogou apenas uma partida pela Seleção, em 27/03/1991, contra a Argentina. Fica a sensação de que o futebol perdeu grandes golaços, jogadas, dribles e histórias.

PC
(texto baseado na excelente crônica da amiga Camila Paulos)

Dener com o uniforme da Lusa.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Craque - Millôr Fernandes

Autor de centenas de frases célebres, Millôr Fernandes também já deu seus pitacos futebolísticos. Sobre outros esportes também. Aqui vai uma pequena lista de suas pérolas.

"Beatus Garrincha Manuel, que nasceste sem orgulho e morres sem ostentação, exibe-nos o jogo da alegria esmolambada." (oração da personagem Nelita, em "Os órfãos de Jânio", de 1978)

"Chute de longe é como tirar cara e coroa - dá sempre mais cara do que coroa."

"Em 1978, lembram?, o Brasil, já na técnica da retranca, perdeu a copa invicto. Empatou todas. Inventamos uma coisa extraordinária: a Invictória."

"Em futebol eu sou Fla x Flu doente."

"E no oitavo dia Deus fez o Milagre Brasileiro: um país todo de jogadores e técnicos de futebol."

"E pro frescobol, nada? Tudo! O mais belo esporte. Ágil, elegante, simples, se joga seminu(a) junto do mar. Além disso, tem uma superioridade indiscutível sobre qualquer outro esporte. É esporte mesmo, praticado pelo simples exercício do espírito lúdico. Até hoje, felizmente, não apareceu nenhum idiota pra inventar contagem de pontos no frescobol. O único esporte em que ninguém ganha. (Glória, das poucas que me interessam: nos anos cinqüenta foi o nosso grupo, no nosso posto quatro, em Copacabana - logo depois transferido pro Arpoador, em Ipanema - que inventou o frescobol.)"

"Fiquei indignado quando vi aquele rapagão, Taffarel, engolir uma bola de Collor, fingindo que este era um extraordinário artilheiro. Esportista não precisa ter caráter?" (1991)

"Futebol não tem lógica. Mas, se a gente tivesse Garrincha, Pelé, Paulo César, Nilton Santos, Domingos da Guia e Rivellino de um lado só, a zebra ia ter que rebolar."

"Futebol, o esporte das multidões. Cada vez menos esporte e menos multidões." (1988)

"Futebol, o pio do povo!"

"Há muito tempo me desinteressei pelo futebol. Foi quando comecei a ver aqueles latagões, ganhando fortunas e tratados como odaliscas, não conseguirem dar um passe certo no meio do campo - sem qualquer pressão do adversário. Como artista plástico, tratado daquele jeito, eu morreria de vergonha se não pintasse uma capela Sistina por semana." (1984)

"Há os que são Flamengo doente. Eu sou Fluminense saudável." (1977)

"Mal comparando, Platão era o Pelé da filosofia."

"Me autoproclamei campeão de frescobol do posto 9. Quando alguém jogava melhor, eu provava que ele era do posto 8. Assim vai a glória do mundo." (1971)

"Ninguém joga futebol tão bem quanto o brasileiro. Isso porque o futebol e o Brasil são iguaizinhos; não têm lógica."

"No mundial de futebol dos Estados Unidos, os locutores repetindo que a partida Romênia x Suécia ia ser decidida por penalidade máxima. E sempre me impressiona a capacidade de se falar sem pensar (psitacismo). Naturalmente a coisa só é penalidade (penalty) quando alguma falta foi cometida. Como na disputa final não houve qualquer falta se trata apenas de um tiro livre ou chute livre, em gol." (1994)

"O futebol chega ao máximo do descrédito - é decidido nos pênaltis, com exigência de tempo ditada pela tevê. Vai acabar sendo disputado na porrinha." (1982)

"O futebol é o ópio do povo e o narcotráfico da mídia."

"O futebol se compõe de jogadores, juiz, bandeirinhas, bicheiros, cartolas - e cem mil não-combatentes."

"Segundo um observador de Marte - depois de examinar os fenômenos Madonna, Michael Jackson, Ayrton Senna e o Campeonato Mundial de Futebol -, a Terra sofre permanentemente de histeria coletiva."

"Toda fotografia antiga é uma punhalada." (essa não é só para o futebol)

"Todo homem tem o sagrado direito de torcer pelo Vasco na arquibancada do Flamengo."

(frases retiradas de "Millôr Definitivo - A Bíblia do Caos")

PC

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Craque - Mané Garrincha



"Se há um deus que regula o futebol, esse deus é sobretudo irônico e farsante, e Garrincha foi um de seus delegados incumbidos de zombar de tudo e de todos, nos estádios. Mas, como é também um deus cruel, tirou do estonteante Garrincha a faculdade de perceber sua condição de agente divino. Foi um pobre e pequeno mortal que ajudou um país inteiro a sublimar suas tristezas. O pior é que as tristezas voltam, e não há outro Garrincha disponível. Precisa-se de um novo, que nos alimente o sonho."
(Carlos Drummond de Andrade, no Jornal do Brasil de 21/01/1983)

Pau Grande (Magé/RJ), 28 de outubro de 1933.

Nasce, em família pobre, Manuel Francisco dos Santos. Um de seus quinze irmãos apelidou-o de Garrincha, nome de um passarinho comum na Região Serrana do Estado do Rio de Janeiro.

Garrincha-da-chuva (Thryothorus Coraya)

Garrincha tinha a perna esquerda seis centímetros mais curta que a direita. A distrofia o fazia curvar as pernas quando ficava de pé, o que lhe renderia mais um apelido: o Anjo das Pernas Tortas.

Aos 14 anos, o menino já demonstrava muito talento para o futebol, nas partidas do Esporte Clube de Pau Grande. Atraiu a atenção de Arati, ex-jogador do Botafogo, que o levou para o Serrano, onde iniciou a carreira profissional. Em 1953, fez o seu primeiro treino no Botafogo, clube em que se consagraria como craque. Reza a lenda que, nos primeiros minutos desse treino, ele teria driblado diversas vezes o então lateral-esquerdo do time titular. O nome desse lateral-esquerdo? Nilton Santos, já na época considerado um dos melhores jogadores brasileiros. "A Enciclopédia" exigiu que a diretoria alvinegra contratasse Garrincha imediatamente.

O drible era a principal característica de seu futebol moleque. O faz-que-vai-mas-não-vai, inventado por Romeu Pelliciari na década de 30, foi absorvido e melhorado por Garrincha. Os "joões" que tentavam marcá-lo iam à loucura com sua ginga impressionante. É até hoje considerado unanimemente como o maior driblador da história do futebol mundial.

Na Seleção Brasileira, estreou em 18/09/1955 (Brasil 1 x 1 Chile, no Maracanã, pela Taça Bernardo O'Higgins). Jogou as três Copas do Mundo seguintes: foi campeão em 1958, foi campeão como protagonista em 1962, e também participou da campanha de 1966, quando se despediu do escrete. Garrincha é dono de uma estatística assustadora: a Seleção Brasileira não perdeu sequer um jogo com ele e Pelé juntos em campo.

Mesmo na Seleção, Garrincha nunca abandonava seu jeito irreverente de jogar. Voltava a driblar o oponente em um mesmo lance, ainda que fosse desnecessário, apenas pela brincadeira de driblar. Essa mania de divertir a si e à população rendeu-lhe mais um apelido: Alegria do Povo.

Garrincha teve passagens curtas por diversos clubes (Serrano, Corinthians, Vasco, Alecrim/RN, Atlético Junior-COL, Flamengo e Olaria), mas sua carreira ficou marcada mesmo pelo Botafogo. Foram 614 partidas pelo clube da Estrela Solitária, nas quais Garrincha assinalou 245 gols, entre 1953 e 1965. Ao lado de Nilton Santos, é considerado o maior ídolo da história alvinegra. Pelo Botafogo, conquistou três Campeonatos Cariocas (1957, 1961 e 1962) e dois Torneios Rio-São Paulo (1962 e 1964).

Infelizmente, Garrincha acabou vencido pelo alcoolismo, vindo a falecer precocemente, em 20 de janeiro de 1983, no Rio de Janeiro. Seu enterro foi acompanhado por milhares de fãs.

Hoje, um estádio recebe seu nome, em Brasília. Há também dois bustos seus, um na sede do Botafogo em General Severiano, e outro na rampa do Bellini, no Estádio do Maracanã. A torcida do Botafogo sempre leva aos estádios um pavilhão alvinegro com o desenho do rosto de Garrincha.

Dois filmes já foram gravados em homenagem ao gênio: "Garrincha, Alegria do Povo" (1962) e "Garrincha - Estrela Solitária" (2003). Ruy Castro escreveu a biografia "Estrela Solitária: um Brasileiro chamado Garrincha", que este escriba recomenda fortemente aos amantes do futebol.

Para encerrar o post com chave de ouro, recomendo o vídeo abaixo, compilação de jogadas maravilhosas do Anjo das Pernas Tortas.

PC

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Uma galeria de craques imortais

Amigos, o intuito desse post é organizar melhor as minhas postagens sobre craques do esporte brasileiro e mundial. Sempre que eu escrever uma nova mini-biografia, atualizarei essa lista. Aproveito para pedir que usem os comentários desse post para sugerir novas crônicas.

A
B

C

D

F

G
J

K

L

M
Muricy Ramalho (da sua demissão do São Paulo)
Muricy Ramalho (Digam ao povo que fico)
Muricy Ramalho (Por que Muricy recusou a Seleção?)
Muricy Ramalho (Muricy é um gigante)
Muricy Ramalho (Lição de vida)
Muricy Ramalho (Em defesa de um ídolo)

N

O

P

R

S

T
W

Z